MIME-Version: 1.0 Content-Location: file:///C:/0C8CB329/FernandoHenriqueCardoso-Aartedapoliticaahistoriaquevivi.htm Content-Transfer-Encoding: quoted-printable Content-Type: text/html; charset="us-ascii"
Fer=
nando
Henrique Cardoso
A a=
rte da
política: a história que vivi
SUMARIO
Agradecimentos 9
Introdução 11
1. Fortuna e alguma vírtú 31
2. Aprendendo na política 75
3. O Plano Real: da descrença ao apoio p=
opular
137
4. No Planalto: desvendando a esfinge do poder =
223
6. Dos obstáculos à herança
bendita 389
9. Estado e crescimento econômico 559
10. Política externa: o papel e as viage=
ns do
Presidente 601
Palavras finais 673
AGRADECIMENTOS
Este livro,deu muito trabalho a muita gente.
Não fosse a competência, a paciência e a amizade de
Danielle Ardaillon, Eduardo Graeff, Sérgio Fausto, Tarcí=
sio
Costa e José Estanislau do Amaral, ele jamais chegaria à
publicação. Antigos colaboradores, esmeraram-se em me ajudar =
a precisar
informações, revisar documentos, entrevistar pessoas, rever&n=
bsp;textos,
complementá-los com sugestões, enfim, a fazer o que só=
com dedicação
e trabalho se consegue. Sou imensamente grato a eles.
Além desses, outros amigos tiveram a pac=
horra
de ler e fazer comentários sobre alguns capítulos,
especialmente Celso Lafer, Clóvis Carvalho e Eduardo Jorge, eles
mesmos partes de algumas das estórias que conto no texto. Outro=
s,
que também participaram dos esforços para mudar o Brasil,&nbs=
p;se
dispuseram a dar entrevistas ou a responder a consultas feitas por S&e=
acute;rgio
Fausto ou por mim, especialmente Pedro Malan, José Gregori, Arm=
ínio
Fraga, Gustavo Franco, Pérsio Árida, Gustavo Loyola, Amaury&n=
bsp;Bier,
Murilo Portugal e José Paulo Silveira. Sou-lhes enormemente grato.
Na obsessão de reler e revisar os
capítulos (mormente porque escritos em momentos distintos), pedi
opiniões não só aos meus colaboradores diretos,
já mencionados, mas à Ruth e a meus filhos Paulo Henrique e&n=
bsp;Beatriz.
Por fim, com franqueza, não fosse a dedicada, competente e minu=
ciosa
cooperação de Ricardo A. Setti, que revisou tudo, adicionou&n=
bsp;comentários,
reviu nomes, datas, fatos e estilo, certamente o livro seria de mais
difícil leitura e correria maiores riscos de imprecisão.
Especialmente a Setti, a Danielle, a Eduardo Gr=
aeff e
a Sérgio Fausto, devo imensa gratidão.
Desnecessário dizer, como de praxe (por =
isso
redundo), que nenhum dos citados acima tem a mais remota responsabilid=
ade
pelas opiniões e interpretações do livro, mas todos têm muito a ver co=
m o
que de bom possa haver nele.
Por fim, a compreensão, o estímul=
o e a
paciência de meus editores, Sérgio Machado e Luciana
Villas-Boas, foram fundamentais para diminuir a angústia de quem
sabia que tinha todos os praz=
os
esgotados e ainda muitas obrigações a cumprir. Sem essa
atitude este livro não teria chegado ao final. Sou-lhes
gratíssimo.
F.H.C.
1
Introdução
O tempo não perdoa
Hesitei em escrever um livro a respeito do Bras=
il que
incluísse minha experiência como Presidente. Primeiro, po=
rque
talvez se espere de um exPresidente um livro de memórias ou, se ele tiver
experiência acadêmica, uma análise aprofundada das
questões nacionais. Sempre tive implicância com a
idéia de escrever rememorações pessoais, autobiografias e co=
isas
assemelhadas. Parece pretensioso e corre o risco da subjetividade,
conduzida para fazer o autor sair-se bem na pose histórica.
Além disso, não falta quem diga q=
ue sou
vaidoso. Imagine-se o que diriam se me dedicasse a escrever autobiogra=
fia.
Pelo menos neste caso valha a boutade, que já me deu tanto trabalho, de dizer qu=
e sou
mais inteligente do que vaidoso, e afaste-se de mim este cálice=
.
Bem que tive vontade de ser um pouco mais memor=
ialista
do que sociólogo.
Gravei impressões quase todos os dias em=
que
exerci a Presidência.
Quando o cansaço impedia esse exercício diári=
o,
registrava dois ou três dias depois minhas observaç&otild=
e;es
e sensações. Devo a Celina Vargas do Amaral Peixoto a su=
gestão
de fazê-lo. No início
do governo ela me deu um caderno de anotações, ju=
nto
com uma página fotocopiada do diário, até ent&ati=
lde;o
inédito, de seu avô, Getúlio Vargas. Logo percebi a mai=
or praticidade de ditar a um gravador as
impressões em vez de escrevê-las com minha letra de
médico, difícil de decifrar.
Não tenho, por outro lado, disponibilida=
de de
tempo para elaborar uma análise acadêmica e bem documenta=
da
do processo político e das transformações pelas q=
uais
o Brasil tem passado nestes
últimos vinte anos. Refiro-me tanto ao tempo real (as
pressões do dia-a-dia do mundo contemporâneo e as
específicas de um ex-Presidente)&nb=
sp;
quanto ao imaginário: aquele que a distância infin=
ita
da morte faz de seu desperdício um gozo. Comecei a escrever este
livro aos 72 anos e agora, aos 74, termino esta Introdução.
Não posso mais dar-me ao luxo de imaginar, parafraseando obliqu=
amente
Vinicius de Moraes, que a vida seja infinita enquanto dure.
Essa sensação de infinitude &eacu=
te; um
consolo para as rupturas. A mais trágica de todas é a
da própria existê=
;ncia.
Constrangedora, cruel, inevitável. Só os loucos, no enta=
nto,
não a tomam em conta.
Ulysses Guimarães repetia que o tempo
não perdoa quem não sabe trabalhar com ele. Por essa
razão, tomei algumas decisões práticas. Primeiro, =
;deixarei
as gravações pa=
ra
serem analisadas posteriormente, por quem possa interessar-se em ver c=
omo
as sensações percebidas por quem está exercendo o
governo são (ou podem ser) distintas daquilo que de fato acontece.=
E
também como os motivos e os objetivos de quem toma decisões&n=
bsp;podem
ser muito diferentes do que pensam ou dizem a imprensa, as outras pess=
oas
e mesmo os políticos.
Isso não quer dizer que deixarei de cons=
ultar
esses registros. Mas não os usarei sistematicamente.
Sonhei que, deixando a Presidência, teria=
de
vagar para voltar aos arquivos do Congresso, às atas de
reuniões de governo, enfim, à documentação
necessária para imitar,
guardadas as proporções e sem a pretensão =
de
comparar, o que Joaquim Nabuco fez com o pai, o senador José Th=
omaz
Nabuco de Araújo (1813-1878), governador de província, s=
enador
e ministro, em Um estadista do Império.1 Para isso seria preciso&nbs=
p;ter
havido de verdade um estadista na República.
Um Estado a ser reconstruído
Quando se acorda do sonho, a realidade é=
bem
outra. Bastou reler os jornais e revistas do período de
preparação do Plano Real e mergulhar em algumas
entrevistas com meus colabora=
dores
da época para perceber que não seria possível exi=
stir
estadista
Por ironia, o cantochão contra mim e con=
tra o
governo quase sempre repisava que éramos "neoliberais"=
;,
queríamos privatizar tudo, minimizar o Estado e servir ao capit=
al.
Espero que este livro proporcione ao leitor uma
visão mais objetiva do esforço desenvolvido e mostre a
complexidade, a rugosidade do real, não só da moeda e de
seu plano de
estabilização, mas da realidade brasileira. Sobretudo es=
pero
que o leitor possa perceber que governar um país, elaborar
projetos, conceber programas, implantar&nb=
sp;
políticas é um processo coletivo. Insisto no
conceito: processo. Lendo os jornais e revistas, assistindo à T=
V,
conversando nos botequins e pontos de ônibus, nas ante-salas de ministérios, =
nos
corredores do Congresso e mesmo no governo, espera-se, implora-se
às vezes, por um ato, um gesto heróico, enfim, qualquer
coisa que solucione logo as
aflições do povo, ou os interesses de algum grupo. Estes
últimos talvez possam ser atendidos num rompante. Os interesses=
de
todo um povo, não. Dep=
endem
de ação continuada que mude práticas, mentalidade=
s,
estruturas.
Não por acaso as reformas são
tão difíceis. Nem por outra razão quem deseja mud=
ar
de verdade as coisas, para propiciar ao país um horizonte de ma=
ior
bem-estar e progresso, &agrav=
e;s
vezes se sente só.
Em família: o Brasil e a História=
Os capítulos em que discuto os
percalços para empreender algumas reformas e nos quais mostro p=
arte
dos resultados alcançados são antecedidos por dois outros
relativos a período distinto de minha vida.
No primeiro deles, intitulado "Fortuna e a=
lguma
virtú", faço umas poucas referências
biográficas. Nelas incluo breves anotações sobre minha=
família,
principalmente a paterna, estabelecida no Rio de Janeiro desde a juven=
tude
de meu avô (a materna vivia em Manaus), com a qual tive conv&iac=
ute;vio
intenso e aprendi muitas lições sobre o Brasil e a
História.
Jovem oficial do Exército, meu avô,
Joaquim Ignacio Batista Cardoso, participou da conspiraçã=
;o
para a Proclamação da República. A profunda imers=
ão
dele e do irmão, Augusto Ignacio do Espírito Santo Cardoso,&n=
bsp;igualmente
militar, em lutas e conspirações para mudar o país
acabaram contaminando primos, filhos e sobrinhos, criando o caldo de
cultura cívica em que vivi desde criança. Faço ai=
nda
referências à minha formação intelectual e
política.
Em duas passagens deste capítulo - "Uma
digressão teórica" e "A busca contínua =
da
legitimação"-, me deixei levar por
considerações um pouco mais académicas. Espero qu=
e o
leitor perdoe o tom e o deixe
à conta de quem tem a boca torta pelo uso do cachimbo. Sua leit=
ura
permitirá esclarecer os fundamentos de algumas de minhas
convicções. Se, porém, for cansativa, saltá=
;-la
não prejudica a compreensão dos capítulos que seg=
uem.
No Capítulo 2, "Aprendendo na
política", rememoro meus passos iniciais fora da Academia e
dou um depoimento de como vi certas questões fundamentais da
redemocratização. A
grande causa de minha geração não foi a da
estabilização da economia. Nem tampouco a do desenvolvimento&=
nbsp;econômico.
Foi a da democracia. Elas não são excludentes. Há que lhes atribuir a=
cada
momento, no entanto, seu peso relativo. E, como mostrarei nos
capítulos subseqüentes, as mudanças havidas no Brasil&nb=
sp;tiveram
como base a
redemocratização. É óbvio que sem ela tamb&eacu=
te;m poderiam
ter ocorrido mudanças, eventualmente até com maiores êx=
itos
no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). O país, contudo, seria =
;outro,
com outro dinamismo, mais baseado no Estado e nas empresas do que na
vitalidade da sociedade.
Por isso, para mim, a História
contemporânea da política brasileira começa nos an=
os
1970, com as lutas pela volta à democracia, sonhada por muitos =
como
se fosse a
inauguração de uma sociedade - dando nome às cois=
as -
socialista. Dos guerrilheiros de todo tipo aos democratas liberais, da
luta pela anistia ao renascimento
da sociedade civil com suas persistentes organizaç&otild=
e;es
não-governamentais (ONGs), dos fóruns do Teatro Casa Gra=
nde,
no Rio, à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), &agr=
ave;
Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), à Conferência Nacion=
al
dos Bispos do Brasil (CNBB) ou à Associação Brasileira=
de Imprensa
(ABI), das greves de Osasco (=
SP) e
do ABC paulista à campanha pelas Diretas Já, de tudo isso
junto surgiu um horizonte democrático.
O cerco ao regime autoritário, sua
transformação interna com a abertura "lenta, gradua=
l e
segura" e com o surgimento de figuras de relevo vindas do movimen=
to
de 1964 que passaram a apoiar=
a
redemocratização, como o então senador Teotô=
;nio
Vilela, o ex-ministro Severo Gomes ou o general Euler Bentes Monteiro,
constituíram a antecâmara de um novo Brasil. A
oposição institucional deixou de ser expressão da
"oposição consentida", como diziam do Movimento
Democrático Brasileiro (MDB), para ser a oposição=
de
verdade.
O resultado desse borbulhar da sociedade acabar=
ia
sendo a convocação da Assembléia Nacional
Constituinte, finalmente eleita em 1986. As greves de São Berna=
rdo
do Campo (SP) e a campanha das Diretas Já pavimentaram o caminh=
o.
Sobre São Bernardo há muitos depoimentos e muitas estó=
rias contadas.
Registrarei, no Capítulo 2, como vi na ocasião - e vi de pert=
o -
o que estava acontecendo, como conheci Lula e o que com ele cheguei a =
compartilhar.
A campanha das Diretas Já em 1983-1984 d=
eve
muito à visão e à persistência de um homem,
André Franco Montoro, governador de São Paulo pelo Parti=
do
do Movimento Democrático
Brasileiro (PMDB), somadas ao magnetismo de um ícone
democrático, o deputado Ulysses Guimarães, presidente do
partido. Antes dessa época, já agiam os movimentos profu=
ndos
da sociedade, que, mesmo sem saber ou querer, prepararam o terreno par=
a a
volta da democracia. As lutas contra a ditadura, o sofrimento nas
câmaras de tortura, a
resistência na imprensa nanica e depois na grande mídia, =
os estudantes,
os intelectuais, os religiosos inconformados, os operários e se=
us
líderes nas greves, a
ânsia de todo o povo por liberdade resultaram na Constituinte.
Não sem antes passar pela tragédia nacional da agonia e
morte do Presidente eleito Tancredo Neves. Foi esse processo que permi=
tiu
o surgimento na cena pública nacional das novas lideranç=
as,
que ainda estão na liça, e deu a algumas lideranç=
as
da geração ante=
rior a
possibilidade de se renovar. Permitiu, sobretudo, o enraizamento de
instituições democráticas no Brasil, abrindo
espaço para um país melhor.
Abracei a causa da democracia com entusiasmo: e=
la
motivou a revisão de minhas análises teóricas e p=
or
causa dela passei a participar ativamente da política
partidária. Em 1978 ti=
ve
minha primeira experiência eleitoral, candidatando-me ao Senado =
O Plano Real, a candidatura e a chegada ao Plan=
alto
Foi no quadro de absoluto respeito à
Constituição (inclusive para alterá-la), que abra=
cei
a outra grande causa da época, a da estabilização=
da
moeda, como analiso no Capítulo 3, "O Plano Real: da descr=
ença
ao apoio popular". Hoje se fala da inflação como
"galinha morta", embora nessa matéria seja imprudente
considerar vitórias como sendo definitivas. Em 1993-1994,
período em que fui ministro da Fazenda, o clima era totalmente
distinto: a inflação corria acima de 20% ao mês.
Quer dizer, mais de 1.000% ao ano! Só me=
smo
fazendo apelo à exclamação em desuso para descrev=
er
tanto horror perante os céus.
Descrevo a surpresa, que me atingiu como um
terremoto, do conviteconvocação do Presidente Itamar Fra=
nco
para que eu trocasse o Itamaraty pelo Ministério da Fazenda,
Houve momentos, como se verá adiante, nos
quais o que veio a chamar-se (às vezes depreciativamente) de
"a equipe econômica", com o ministro à frente,
estava quase completamente is=
olada.
Quando assumi o Ministério da Fazenda, era já o quarto
ministro em sete meses e o governo do Presidente Itamar Franco (1992-1=
995)
enfrentava sérias
dificuldades. A primeira reação foi de alívio,
não só porque afirmei no discurso de posse que o Brasil
tinha que enfrentar três grandes problemas, a saber, a
inflação, a inflação e a inflação,
como porque eu gozava, sabidamente, da confiança do Presidente =
da
República.
Com o passar dos meses, como me recusasse a faz=
er a
mágica, tantas vezes tentada anteriormente, de acabar com a
inflação "de um só golpe", aplicando um novo
ucasse sobre a política económica (prisão de sone=
gadores,
"mais vontade política", as opções variando =
ao
sabor dos proponentes), um certo desânimo se abateu nas cúpulas dirig=
entes.
Até hoje não sei onde encontramos ânimo para resis=
tir
a tantas pressões.
Resistimos, fomos adiante, o Plano Real deu cer=
to e, sem
que essa fosse minha expectativa, me tornei candidato à
Presidência. Todo o final do Capítulo 3 é
dedicado às
articulações que acabaram me levando a palanques,
comícios e carreatas pelo Brasil afora e, finalmente, ao Pal&aa=
cute;cio
do Planalto. Ali narro da mesma forma as complexas relações, em ge=
ral
amistosas e construtivas, que mantive durante aquele período com o&n=
bsp;Presidente
Itamar, do qual fui candidato - acredite o leitor - sem que uma única vez trocássemo=
s uma
palavra direta a este respeito. A riquíssima experiência =
da
campanha eleitoral me permitiu enxergar melhor o país e seus
problemas. Refiro-me nessa pa=
rte
também às emoções, quase sempre contidas p=
or
meu temperamento, do dia da posse, quando, ainda no Rolls-Royce
presidencial, a caminho da cerimónia no Congresso, enquanto acenava p=
ara a
multidão reunida na Esplanada dos Ministérios, sentia so=
bre
meus ombros o aterrador peso da História.
Vitórias e derrotas, perdas e ganhos
No Capítulo 4, "No Planalto: desven=
dando
a esfinge do poder", entro de chofre em minha experiência c=
omo
Presidente. Não deixo de observar, aqui e ali, algumas
características que ma=
rcam
(e muitas vezes para o mal)
nosso sistema político. Mas a
descrição e a análise se concentram em mostrar as
condições nas quais um Presidente faz a escolha dos aliados, nomeia seus mini=
stros
- o episódio da conversa aprovar a emenda da
reeleição. Falo com franqueza de políticos pr&oac=
ute;ximos
que romperam comigo, alguns momentaneamente, como o ex-Presidente Itam=
ar,
outros definitivamente, caso =
do
ex-governador Ciro Gomes. Abordo episódios pouco conhecidos, co=
mo o
jantar com os ministros militares em que lhes informei minha
decisão de fazer reparações nos casos dos mortos e desaparecid=
os
políticos da ditadura.
Conto, com detalhes até agora não
expostos publicamente, o duplo golpe que sofri ao perder, num
intervalo de dois dias, dois =
amigos
queridos e dois esteios políticos de meu governo, o ministro das
Comunicações, Sérgio Motta, e o líder do
governo na Câmara, deputado Luís Eduardo Magalhães. Mos=
tro
como encarei a tese da reeleição, em que momento e com q=
uais
motivos, ou justificações, a endossei. E saliento, o tempo to=
do, que
as reformas e a visão =
de um
outro Brasil foram os objetivos de minhas ações e das
alianças que fiz. Nos Capítulos 5 e 6, respectivamente
"Pedras no caminho: as incertezas da&=
nbsp;
economia" e "Dos obstáculos à
herança bendita", descrevo com os pormenores necessários=
a presença
inquietante do periurgo contemporâneo: o mercado financeiro. É=
por
intermédio dele que entram em cena novos atores no palco do poder: as
finanças internacionais, as grandes agências, como o Fundo
Monetário Internacional (FMI),=
a presença do Tesouro (no caso o que realmente conta, o
americano), nações estrangeiras, a pressão dos interes=
ses económicos
internos e assim por diante.
O enredo dessa história, que é a
continuação da política de estabilizaç&ati=
lde;o,
se desenvolve em uma pugna entre a taxa de juros e a taxa de câm=
bio,
envoltas ambas na atmosfera
rarefeita da política de contenção de gastos
públicos, ou seja, na crise fiscal. Nesta, o personagem central
é o crescente déficit da Previdência, que tem um "amigo oculto&quo=
t;, o
corporativismo que resiste ao abandono de privilégios, encontra=
ndo
brechas na lei e amparo no Judiciário. Tal enredo, no entanto,
não vem à cena =
de
maneira direta e simples: ele aparece sob as vestes de
especulações financeiras, crises internacionais, vírus=
que afetam
por contágio a moeda local. De
fato, esses são vírus oportunistas que se instala=
m na
economia pela fraqueza das finanças públicas. Estas, corroídas pelos défi=
cits
(pois, além da Previdência, os gastos correntes, sobretudo
com a folha de pessoal, também pressionam o Tesouro), sustentam=
-se
com o governo tomando
empréstimos em espiral, o que limita a possibilidade de baixar =
as
taxas de juro. Quando as tempestades vêm do exterior encontram,
portanto, uma economia desabrigada, incapaz de ajustar-se, sem muitas
reformas, aos ares do mundo.
Os dois capítulos descrevem os
esforços, os erros e os êxitos de oito anos de
readaptação das condições
econômico-financeiras do Brasil para o país conseguir
vir à tona, como veio,=
na
economia globalizada (hoje se fala dos BRICs, Brasil, Rússia,
índia e China, como as novas economias emergentes). Conto, com =
os
pormenores cabíveis, as
crises que levaram ao fim os bancos Económico, Bamerindus e
Nacional, as dificuldades para implementar programas de salvaguarda da=
solidez
do sistema financeiro, os
supostos "escândalos" que permearam tudo isso, até
chegar ao governo do Presidente Lula que, de certa maneira, ao manter
incólumes os pilares macroeconômicos que lançamos, forneceu a pr=
ova de
que nas circunstâncias o caminho percorrido foi o melhor
possível. Relato os contatos que mantive no exterior, o tempo t=
odo,
para salvaguardar os int=
eresses
da economia brasileira - e o respaldo que obtive de dirigentes que se
tornaram amigos, como o Presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton. E conto como estava determinado a =
mudar
a política cambial e que obstáculos enfrentei para efeti=
var
esta mudança durante o primeiro mandato. Eles variaram das
incertezas e temores - na
época justificados - quanto à volta da
inflação se houvesse uma política mais ativa de
desvalorização da moeda sem aperto fiscal, até acident=
es
de percurso, como a perda de colaboradores preciosos graças ao
"escândalo”
dos grampos telefónicos. E tampouco havia
certezas quanto à melhor política a adotar, nem capacidade efetiva da União=
para
impor maior disciplina fiscal, sobretudo aos estados. Também
estão descritos no livro os episódios que levaram &agrav=
e;
desvalorização =
do
real e à redefinição das políticas
macroeconômicas.
O Capítulo 7, "A luta contín=
ua
para reordenar o Estado", descreve o calvário da
apresentação, debate, descaracterização,
reconstituição e aprovação (nem sempre em<=
span
style=3D'mso-spacerun:yes'> termos satisfatórios) de um
conjunto de medidas necessárias para reformar a máquina
governamental, minorar a crise fiscal e liberar a economia das travas =
do
passado. Ao analisar as dificuldades para avançar as reformas,
contudo, mostro que o Congresso, com suas peculiaridades e
morosidades, representa os
interesses e as visões existentes na sociedade. Cabe ao governo=
(e
principalmente ao Presidente) entender os termos do jogo
democrático. Presidente que
não toma o Congresso em consideração está
invariavelmente fadado ao fracasso, quando não ao impeachment. O
Presidente precisa ter equilíbrio para perceber que as obstruções, emend=
as e negaças
do Legislativo muitas vezes propiciam entendimentos que melhoram os
resultados. Nem sempre, é verdade. Neste caso, cabe ao
Presidente bater o pé,
dentro das regras do jogo. E se não obtiver resultado, ir novam=
ente
à sociedade e insistir na defesa de suas teses. É por is=
so
que nas democracias a luta é contínua e as melhorias
são incrementais. De quando em vez abre-se uma clareira na
cerração dos avanços lentos. Isso se deu no in&ia=
cute;cio
de meu primeiro mandato, quan=
do
aceleramos a aprovação das emendas constitucionais que
quebraram ou flexibilizaram monopólios exercidos pelo Estado so=
bre
certas atividades econômicas. Não foi fácil: precisei
enfrentar com energia uma greve de petroleiros que, sob pretexto de
demandar melhores condições de trabalho, no fundo, queria&nbs=
p;barrar
a quebra dos monopólio=
s,
essencial para o progresso e a modernização do Brasil.
Até mesmo do ponto de vista subjetivo me custou assumir as
posições que adotei, pois meu pai, o general Leônidas Card=
oso,
foi um dos baluartes da campanha "O Petróleo é Nosso&quo=
t;,
e eu próprio respondi a inquérito policial-militar e fui
processado por haver participado do mesmo movimento como tesoureiro do
Centro de Estudos e Defesa do Petróleo,
Também nos períodos de crises
financeiras o Congresso em ge=
ral
teve atitude responsável, levando adiante matérias
delicadas, como a criação ou o aumento de impostos.
A sociedade, a economia e uma
preocupação do Papa
Começo o Capítulo 8, "A soci=
edade
como protagonista" fazendo um apanhado sumário do modo como
evoluíram as relações entre o Estado e a sociedade&nbs=
p;para
fundamentar as mudança=
s nas
políticas sociais. Em seguida menciono as principais
políticas que pusemos
Em seguida, discuto o significado da reforma
agrária para nossa sociedade, tema carregado de paixão a
ponto de merecer o interesse pessoal do Papa João Paulo II - que, como vou narrar neste livro=
, manifestou
a mim reservas sobre a postura de setores da Igreja no Brasil diante da
questão da terra. Paradoxalmente, me vi defendendo diante do Papa aqueles que, d=
entro
do Brasil, me criticavam duramente. Apesar dos entraves legais, das
pressões contra e a favor da reforma, conseguimos acelerá=
;-la modificando as leis que definem os=
ritos
de desapropriação.
Graças a um programa que instituí=
mos,
pela primeira vez na História o crédito agrícola
oficial chegou às
mãos dos pequenos produtores rurais.
Por outra parte, pusemos em funcionamento o Ban=
co da
Terra, que substitui a desapropriação pela compra, quando
escasseiam latifúndios=
improdutivos
nas áreas de assentamento.
Nas partes finais do capítulo, cuido das
políticas para reduzir os bolsões de pobreza. Descrevo, =
sem
muitas minúcias, no que consistiam esses programas, como foram<=
span
style=3D'mso-spacerun:yes'> financiados e os resultados expres=
sivos
- embora pouco divulgados - que alcançamos, melhorando a vida e=
a
renda das pessoas. E trato também do que denominei projetos para uma nova agenda da cidad=
ania:
os direitos humanos, as questões da igualdade de género =
e de
raça, e as importantíssimas questões do meio ambiente.=
O leitor
verá o desdobramento na
agenda nacional desses temas da democracia contemporânea.
Deixei para o penúltimo capítulo,=
o 9,
"Estado e crescimento económico", a discussão =
mais
sistemática sobre as relações entre o Estado e a =
economia
em época de globalização. Mostro que, a despeito de taxas&nb=
sp;modestas
de crescimento económico, houve uma mudança de patamar na&nbs=
p;estrutura
produtiva brasileira. Ressalto o significado que o processo de
privatização teve para as mudanças na
organização do aparelho estatal, discuto a questã=
o do
investimento estrangeiro e destaco o papel que o planejamento
estratégico desempenho=
u em
meu governo. Muito do obtido se deveu à redução de
custos, à fixação de prioridades e metas sustenta=
das
em uma concepção de planejamento indutivo, e a parcerias =
;entre
os setores público e privado.
Para reanimar a economia, abalada pela abertura=
dos
mercados e os controles impostos pela estabilização,
inclusive os juros altos, não hesitamos em sustentar com o Banco Nacional de Desenvolviment=
o Económico
e Social (BNDES) políticas de industrialização voltadas
para áreas específicas. Só assim se tornou
possível renovar amplos
setores industriais e expandir a produção a ponto de, no
governo que se seguiu ao nosso, se atingir números impressionan=
tes
na pauta de exportações.
Diga-se
também que incentivamos com convicção as
políticas exportadoras a partir da criação de uma
câmara específica e do financiamento da atividade exporta=
dora
pelo BNDES, sem falar no cort=
e dos
impostos que recaíam sobre ela e nos acordos comerciais negocia=
dos
pelo Itamaraty.
Na área agrícola, resolvemos a
dívida agrária, criamos novos instrumentos de financiame=
nto,
induzimos a compra de equipamentos pelo crédito facilitado e, p=
or
fim, após a
desvalorização do real, pudemos assegurar melhor
competitividade a nossos produtos. Acrescento que, se não fosse=
a
criação de um setor de produção de bens de informática e de te=
lecomunicações
e não fora a privatização bem-sucedida nessa ár=
ea,
o país não teria as condições de que passo=
u a
dispor para dar um salto na economia da era da informaçã=
o.
Clinton, Menem, Blair: diplomacia presidencial e
busca de nossos interesses
No último capítulo, o 10,
"Política externa: o papel e as viagens do Presidente"=
;,
trato da política externa, incluindo o relacionamento pessoal q=
ue
estabeleci, em nome dos inter=
esses
do Brasil, com chefes de Estado e governo mundo afora - de Clinton ao
Presidente russo Vladimir Putin, do Primeiro-Ministro britânico =
Tony
Blair ao Presidente chileno&n=
bsp;Ricardo
Lagos, dos reis da Espanha ao grande líder africano Nelson Mand=
ela.
Consoante com a visão sustentada em todo o livro, narro como su=
bstituímos a concepção de
política externa baseada na idéia de "autonomia pela
distância" pela busca da "autonomia pela
participação".
O mundo globalizado requer dos governos maior empenho na defesa dos i=
nteresses
nacionais.
Altera-se a relação entre o inter=
no e o
externo, mas não o compromisso com os interesses fundamentais do
país, O desafio da política externa é transformar
essa difícil relação em vantagem
estratégica a nosso favor,
Daí a importância da
ampliação de nossas relações com a União
Européia e a necessidade de uma redefinição das
relações com os EUA. Sempre buscando preservar nossa autonomia e nossos interesses, sem
diminuir a importância para nossos produtos dos mercados das
regiões desenvolvidas.
Foi a partir dessa perspectiva que encaminhamos=
as negociações da
Área de Livre Comércio das Américas (Alca),
Entretanto, a valorização do Mercado Comum do Sul (Merco=
sul)
e do papel tanto político como económico da Améri=
ca
Latina e em especial da América do Sul continuam a ser os pilar=
es
de nossa política externa, O leitor encontrará, ao longo das&=
nbsp;páginas
desse capítulo,
episódios como uma dramática reunião Brasi=
l-Argentina
num hotel de São Paulo em que, a certa altura, tivemos que inte=
rvir
- o Presidente Carlos Menem e eu - para&nb=
sp;
desfazer um difícil nó. Conversamos à part=
e da
mesa de reuniões, nos entendemos e eu próprio redigi,
à mão, o texto do acordo que enfim acertamos. Destaco in=
clusive como e por que convoquei a primeira
reunião de presidentes da América do Sul, realizada em
Brasília em 2001.
As relações entre os países
não se limitam à economia. Muitas vezes as boas
relações econômicas é que são
conseqüências de relações políticas.
Prestei também muita atenção a essas
últimas. Mostro o papel ativo desempenhado pelo Brasil na
solução do conflito armado entre o Equador e o Peru e na
defesa da democracia em nossa
região, e o faço com detalhes. Aliás, essa
é a parte do livro em que há mais referências a si=
tuações
específicas e a diálogos. Isso não só porque
crescentemente a diploma=
cia
presidencial ganhou fôlego, como porque há grande incompr=
eensão
sobre as viagens presidenciais ao exterior. Penso que, mostrando
diretamente o tipo de
relação pessoal que se estabelece entre os chefes de Est=
ado
e governo (e isto é assim no mundo todo), o leitor ganha uma
visão mais humana e ao mesmo tempo concreta de como se constituem as rede=
s de
comunicação e entendimento entre os governantes.
Nos capítulos económicos exponho a
importância desse modo pessoal e direto de relacionamento para obter o melhor=
para
o Brasil. Dentro de limites, naturalmente, pois nada substitui a boa
diplomacia tradicional e, sobretudo, a coesão nacional para o país ter presen&cced=
il;a
externa forte.
Assim como, se os contatos pessoais ajudam a ab=
rir
mercados e a solver problemas, não são eles que explicam=
os
fluxos de comércio.
Os capítulos do livro não obedecem
propriamente a uma ordem cronológica, embora eu analise process=
os
que vão se desdobrando no tempo. Sempre que possível, si=
tuo
historicamente os episódios para que o leitor não se per=
ca
em seu emaranhado. Não sigo, contudo, passo a passo o que foi o=
correndo
durante meus dois mandatos. A exposição antes segue a
lógica dos problemas discutidos do que o fio da História=
. O
encadeamento entre os capítulos é mais suposto que
explícito. Escrevi-os deixando certa autonomia entre eles, de m=
odo
que podem ser lidos na ordem que o leitor preferir. Para facilitar a
leitura há repetições, que ajudam a memória e&n=
bsp;a
contextualização.
Democracia, mercado, paixão e perspectiv=
a
Por fim, antecipando interpretaçõ=
es que
farei com maior detalhe ao longo deste livro, adianto umas poucas
considerações de ordem metodológica e valorativa
sobre os acontecimentos históricos.
Depois de aprovada a emenda da
reeleição no Brasil, Mário Soares, o grande
líder do Portugal moderno, realizou uma série de entrevistas&=
nbsp;comigo,
que foram posteriormente publicadas no livro O mundo em portuguê=
s:
um diálogo.2 Perguntou-me, a certa altura, se me consideraria r=
ealizado
acaso fosse reeleito. Respondi-lhe que não: só estaria s=
atisfeito
se, ao terminar o segundo mandato, pudesse dizer, sem hesitaç&a=
tilde;o,
que "o Brasil mudou". Não posso avaliar objetivamente se d=
e fato
houve mudanças e em que medida o país se transformou, nem se =
as mudanças
alcançaram o ponto de não-retorno. Talvez seja esta a
sensação agônica a pagar por quem se lança =
na
vida pública: o juízo que conta é o da
História, e a ele os personagens não assistem. Quando a grande
mestra dos homens sentencia, o veredicto recai nos mortos.
O recurso disponível para minorar o sent=
imento
de indeterminação que isso causa é a busca de
referências em autores que lidaram com percursos históric=
os
distintos. Por essa razão, e sem ânimo de comparar sen&a=
tilde;o
que de aprender, tratei de me beneficiar com a leitura de mestres na
interpretação dos processos de mudança na Histó=
ria.
Claude Lévi-Strauss, talvez o maior antropólogo
contemporâneo, escreveu que ao começar um trabalho de soc=
iologia
ou de etnologia relia o O 18 Brumário, de Marx.3
Lévi-Strauss tem uma interpretação bastante pessoal do=
O
18 Brumário. Vê em Marx o cientista que constrói um
modelo, cujas propriedades e diferentes formas de reação
estuda, como em um laboratório; e depois aplica essas
observações para interpretar o que ocorre empiricamente.
Concordo que quem quiser escrever sobre História e polít=
ica
deve ler o livro recomendado. Não sou, porém, tão =
;estruturalista
quanto o mestre francês. Tenho mais pendor para ver como as
estruturas se formam pela ação das pessoas. Por isso
acrescentaria à recomendação da leitura de Marx q=
ue
se lesse também algum texto de Alexis de Tocqueville.
Os livros mais conhecidos e famosos de Tocquevi=
lle, A
democracia na América4 e O antigo regime e a
Revolução? são boas fontes de inspiração=
.
Como contraponto à análise do O 18
Brumário, entretanto, a leitura das Lembranças de 18486
é a mais indicada. Ambos foram escritos ao calor da hora, sem a
perspectiva do tempo, mas a agudeza de percepção dos autores&=
nbsp;é
extraordinária. Tudo o que é explicado pelo grande movimento =
das estruturas
da sociedade na tradição marxista vem esmiuçado na
narrativa do dia-a-dia de Tocqueville. Nela, as ações,
pensamentos e omissões dos distintos atores são analisad=
os
antes de serem "acontecimentos históricos". A trama da
situação revolucionária na França da épo=
ca descrita
por Tocqueville abrange os grandes atores que se moviam nas cúp=
ulas,
mas inclui também os sans-culottes encontrados casualmente nas =
barricadas
de Paris. Embora não acompanhe Tocqueville na visão l&ia=
cute;beral-conservadora,
admiro-lhe a capacidade de entender o desenrolar dos fatos de 1848.
O quadro de inspiração para enten=
der os
acontecimentos históricos ficará completo se for
possível acrescentar a leitura da famosa conferência de M=
ax
Weber sobre A política=
como
vocação,7 na qual o maior sociólogo do séc=
ulo
passado analisa os êxitos e fracassos dos políticos no af&atil=
de;
de modificar o curso das coisas. As dez últimas páginas da
conferência expressam à perfeição as ang&ua=
cute;stias
dos políticos conscientes de seu papel. O tema da ética =
de
responsabilidade e da ética de convicções é exposto magistralmen=
te
pelo mestre alemão: "Se fizermos qualquer concessão=
ao
princípio de que os fins justificam os meios, não será=
possível
aproximar uma ética do=
s fins
últimos (de convicções) e uma ética da
responsabilidade, ou decretar eticamente que fim deve justificar que
meios.”
A situação agônica do
político, não obstante, permanece. Em contraposiç=
ão
à ética cristã, por exemplo, ou à ética =
do
amor, de oferecer o outro lado a quem já alvejou uma face do rosto, o políti=
co tem
comportamento distinto. À norma de não resistir ao mal pela
força, o político responde que "a
proposição inversa é que tem valor: 'o mal deve ser resistido pel=
a força'
ou seremos responsáveis pela sua vitória”
(p. 143).
Daí Weber afirmar, sem
contradição com o comportamento ético (mas de uma =
;ética
que mede as conseqüências dos atos), que a violência &eacu=
te;
instrumento decisivo na política. Essa característica obriga =
o político
a lidar com as "forças demoníacas", como ele
chama: "Também os primeiros cristãos sabiam muito b=
em
que o mundo é governado
pelos demônios e quem se dedica à política,=
ou
seja, ao poder e força como um meio, faz um contrato com as
potências diabólicas, e pela sua ação se sabe que
não é cert=
o que
o bem só pode vir do bem e o mal só pode vir do mal, mas que,=
com
freqüência ocorre o inverso. Quem deixar de perceber isso &eacut=
e;,
na realidade, um ingénuo
em política" (p. 147).
Antes de Weber, Maquiavel, como mostrarei no
Capítulo 1, propusera uma ética não-cristã
que, mesmo sem substituir esta última, guiaria os passos dos
políticos. Weber resso=
ava
Goethe, cujo Fausto, quase um século antes, trabalhando com o m=
al,
descobriu que a destruição pode ser criativa. Tomando de
empréstimo as capacidades destrutivas de Mefistófeles, senti=
u que
existia algo de divino no poder demoníaco. Se Weber aceita que a
violência e o poder participam das artes do capeta e que o bem
(Deus) também criou a capacidade cósmica de destruiç&a=
tilde;o,
não chega tão longe quanto o demo, que aconselhava Fausto a afa=
star
qualquer dúvida moral, lançando nos outros a culpa e
eliminando a pergunta inibidora da liberdade de ação:
"deveria fazê-lo?"
A questão válida seria outra:
"comofazê-lo?”
Weber tinha desprezo pelo político que
dá de ombros para as conseqüências de seus atos, jog=
ando
a "culpa" na mesquinhez dos outros ou do mundo, resguardando=
-se
em sua moral íntima, c=
om as
mãos limpas.
Ao contrário, respeitava o homem maduro
(não importa se jovem ou velho)
que, em determinada circunstância, decide:
"não posso fazer =
de
outro modo" e assume a respectiva responsabilidade. "Isso&qu=
ot;,
diz nosso autor, "é algo genuinamente humano e comovente&q=
uot;
(p. 151). "Na medida em que isso é válido, uma ética de=
fins
últimos e uma ética de responsabilidade não
são contrastes absolutos, mas antes suplementos, que só =
em
uníssono constituem um homem genuíno - um homem que pode ter a
'vocação para a política'" (p. 151).
Foi por vislumbrar em Weber a possibilidade de =
conciliar
realismo (se quiserem, pragmatismo, sem porém a
conotação filosófica) com valores e limites
éticos que transcendem o
imediato da circunstância, que em meu discurso inaugural no Sena=
do,
em 1983, incluí a citação que ora reproduzo: &quo=
t;A
política é como a perfuração lenta de
tábuas duras. Exige&nb=
sp;tanto
paixão como perspectiva. Certamente, toda a experiência
histórica confirma a verdade, que o homem não teria
alcançado o possível se repetidas vezes não tivesse tentado o
impossível. Para isso, o homem deve ser um líder, e
não somente um líder, mas também um herói, no&n=
bsp;sentido
muito sóbrio da palavra. E
mesmo os que não são líderes nem her&oacut=
e;is
devem armar-se com a fortaleza de coração que pode enfrentar
até mesmo o desmoronar de todas as esperanças." O
verdadeiro político,&n=
bsp;mesmo
que não alcance aquilo a que se propôs, e que todos se voltem&=
nbsp;contra
ele, encontrará forças para dizer que "apesar de tudo&qu=
ot;
fez o que pôde. Só aquele capaz disso, dirá Weber, te=
m a
verdadeira vocação para a política.
Reli tudo o que estou aconselhando ao leitor. A=
inda
assim, tenho dificuldades para compor um painel do Brasil de hoje e
compará-lo com o de ontem. Não é tarefa simples mostrar que existe um Brasil =
radicalmente
diferente do passado e, conseqüentemente, avaliar minha pró=
;pria
ação.
Não fosse o legado intelectual dos autor=
es
referidos anteriormente e de muitos outros, estaria em
condição ainda mais adversa. Consolo-me de minha
insuficiência intelectu=
al
para a tarefa proposta, dizendo que talvez não consiga
esboçar um painel convincente das grandes mudanças porque
não houve no Brasil uma época de grandes transformações. Ao&n=
bsp;dizer
isto, porém, lanço uma condenação sumári=
a a
meu próprio esforço e ao de muitos contemporâneos:=
se
eu duvidar da magnitude das mudanças, que dirão os outros?
Melhor, com menos modéstia, apostar em q=
ue
algo de fato mudou significativamente. Algumas
transformações importantes se iniciaram antes de meu
governo, outras foram consoli=
dadas
por políticas que praticamos. Muitas, ainda, permaneceram a meio
caminho, sem falar daquelas, que não são poucas, que
precisariam ser realizadas para estarmos à altura dos desafios =
do
mundo e que não pudemos conduzir.
Repito a ressalva: o juízo dos
contemporâneos é sempre precário, sobretudo o dos
atores principais. São
ténues os limites entre o balanço do realizado e a
racionalização para justificar o que deixou de ser, do
quanto se pôde caminhar, do que se logrou, apesar das dificuldad=
es.
Portanto, neste livro não me arriscarei propriamente a apresent=
ar
um balanço de resultados, que seria pretensioso e levaria à&n=
bsp;tentação
de argumentar em causa
própria. Darei mais opiniões do que extrairei
conclusões. Navegarei mais no subjetivismo dos projetos e da vo=
ntade
intencionada do que em dados comprobatórios.
Durante os anos em que exerci a Presidênc=
ia,
disse várias vezes, de modo angustiado, que não sabia se=
meu
governo marcava um início ou se seria um interregno. Que as mudanças no mundo e as n=
ossas
próprias estavam a clamar por um reajuste de muita coisa, eu
não tenho dúvidas. Será, entretanto, que as
modificações introduzidas&nb=
sp;
na condução das políticas e na estrutura do
Estado estão - ou tornaram-se - enraizadas na sociedade com
força suficiente para impedir retrocessos? Até hoje me &eacut=
e; difícil
avaliar.
É quase impossível separar as
modificações conseqüentes de iniciativas do governo=
e o
que se impôs de fora, fruto das novas formas de atuação=
das
empresas e dos agentes
económicos em tempos de globalização e da economi=
a da
informação. Se para destrinchar essa realidade tão
intricada eu pudesse refazer, ainda que palidamente, o itinerário de Marx, =
repetiria
o que tentei fazer com o sociólogo e historiador chileno Enzo F=
aletto,
nos anos 1960, para explicar as "situações de
dependência" na América Latina.8 Partiria das regras=
de
funcionamento da economia globalizada - das determinações
gerais, abstratas, no linguaj=
ar
marxista -, e reconstituiria como elas foram sentidas, adaptadas ou
transformadas em cada grupo relativamente homogéneo de
países. Analisaria as
relações dinâmicas entre as forças sociais
locais e as internacionais. Examinaria como se foram introduzindo
adaptações e inovações na forma de
vinculação de
cada grupo homogéneo de países à economia globa=
l,
como se construíram percursos históricos específi=
cos,
embora sujeitos aos condicionantes gerais.
Ou seja, a moldura das transformaç&otild=
e;es
é dada pela globalização e pela economia da
informação. Entretanto, há várias maneiras para
cada país se inserir nela ou dela se defender. As "respostas&qu=
ot;
podem ser criativas, umas mais vantajosas do que outras. E cada respos=
ta
depende tanto de circunstâncias dadas (como a
localização do
país, sua população e dotaçã=
o de
recursos naturais) quanto de decisões políticas em cada =
sociedade.
Estas possuem graus diversos de desenvolvimento econômico e cult=
ural, que propiciam melhores ou piores
alternativas de adaptação às novas
circunstâncias. Ou seja, não há "receitas"
prontas para o desenvolvimento de um país. Há percursos<=
span
style=3D'mso-spacerun:yes'> históricos que não se
limitam a reproduzir mecanicamente o "modelo" estrutural glo=
bal.
Notas de roda pé deste trecho Para pular=
este
trecho busque por ###
1 Joaquim Nabuco, Um estadista do Impéri=
o,
apresentação e cronologia de Raymundo Faoro, posfá=
;cio
de Evaldo Cabral de Mello, textos de Machado de Assis e José
Veríssimo Baptista Per=
eira,
5a ed., Rio de Janeiro, Topbooks, 1997,2 v.
2 Mário Soares e Fernando Henrique
Cardoso, O mundo em português: um diálogo, São Pau=
lo,
Paz e Terra, 1998.
3 Karl Marx, O 18 Brumário e Carta=
s a
Kugelmann, apresentação de Octavio lanni, 2a ed., Rio de
Janeiro, Paz e Terra, 1974 (Rumos da Cultura Moderna, 19).
4 Edição recente desta obra em do=
is
volumes, o primeiro de 1836, o segundo de 1840, é Alexis de
Tocqueville, A democracia na América, São Paulo, Martins
Fontes, 2005 (volume I) e 2000
(volume II).
5 Edição recente desta obra de 18=
56
é Alexis de Tocqueville, LAncien regime et Ia révolution,
Paris, GF, 1988.
6 Edição recente desta obra de 18=
51
é Alexis de Tocqueville, Lembranças de 1848: as jornadas
revolucionárias
7 Max Weber, Ensaios de sociologia, Rio de
Janeiro, Zahar, 1963, tradução de Waltensir Dutra, cap- =
4,
"A política como vocação".
8 Enzo Faletto e Fernando Henrique Cardoso,
Dependência e desenvolvimento na América Latina, Rio de
Janeiro, Zahar, 1970. O trabalho mereceu várias
edições e reimpressões em diferentes idiomas e pa&ia=
cute;ses.
Até a publicação deste livro, a mais recente
edição, revisada, com novo prefácio e o
post-scríptum "Estado e processo político na Am&eac=
ute;rica
Latina", era da editora Civilização Brasileira, Rio de
Janeiro, 2004.
Fim das notas
### CAPÍTULO 1
Fortuna e alguma virtú
O deus avulso do imprevisto
Primeiro, vamos às surpresas da vida
política, começando por mim mesmo.
Cansei de ler que "desde pequenininho"
queria ser Presidente, se não pudesse ser Papa... A verdade é que passei boa =
parte
da vida na universidade. Aos 37 anos era professor catedrático =
de
Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP=
),
tendo feito antes, na
própria USP, as teses de mestrado, doutorado e livre-docê=
ncia
A insensatez do regime autoritário me le=
vou a
sair do Brasil em 1964.
Depois de haver obtido um habeas corpus no Supe=
rior
Tribunal Militar (STM) para cancelar uma ordem de prisão expedida so=
b o
pretexto de que eu incitara à "subversão" e de
ganhar, em 1968, um concurso de cátedra, foi de novo o regime
autoritário que me aposentou
pelo Ato Institucional número 5 (AI-5) e, paradoxalmente=
, me
trouxe à vida política. Em 1969, junto com outros
professores perseguidos, ajudei a fundar
Escrevi em todo jornal ou publicaç&atild=
e;o de
oposição que pude (Opinião, Movimento, Argumento)=
e,
quando o clima desanuviou, na Folha de S.
Paulo,
Participei de inúmeros atos públicos, principalmente da
SBPC.
Com colegas do Cebrap, ajudei o MDB a elaborar =
seu
programa para a campanha eleitoral de 1974, e dom Paulo Evaristo Arns a
difundir sua crítica social (basta ver o livro São
Paulo 1975: crescimento e&nbs=
p;pobreza).2
Disso decorreu que, em 1977, fui lançado candidato ao Senado pe=
lo
MDB de São Paulo, para as eleições do ano seguinte, po=
r um
grupo de intelectuais de esquerda.
Na ocasião, nem eu nem os demais companh=
eiros
sabíamos sequer onde se localizava a sede do partido. Eu mantin=
ha
escassas relações com o MDB paulista. Tinha contatos com o deputado estadual Alberto Go=
ldman
e os federais Ulysses Guimarães e João Pacheco e Chaves.
Relacionava-me mais com o MDB gaúcho, do deputado estadual
Pedro Simon, e com os
líderes que ocasionalmente davam guarida às vozes da
oposição intelectual. Eu dividiria a legenda do MDB com o
senador Franco Montoro, candidato favorito à
reeleição. Tratava-se de fazer uma pregação
oposicionista e denunciar novamente o arbítrio, mesmo porque eu
havia sido aposentado compulsoriamente e portanto, de acordo com o AI-5, era
inelegível, o que levaria à cassação do
registro da candidatura.
Como se previa, houve as impugnaçõ=
;es.
Para surpresa de todos, porém, duas semanas antes do dia das
eleições - realizadas a 15 de novembro de 1978 -, o Supr=
emo
Tribunal Federal (STF) anulou=
as
decisões anteriores da Justiça Eleitoral contrári=
as
ao registro de meu nome, e desta forma me tornei candidato efetivo.
Arnaldo Malheiros, meu advoga=
do,
mostrou o disparate da perda de direitos políticos sem prazo
definido, pois os cassados o foram por dez anos e os aposentados pelo
AI-5, como eu, para sempre. Mais surpreendente ainda, o relator que
acolheu no STF a argumentação foi ninguém menos q=
ue o
professor João Leitão de Abreu, figura importante do
governo do general Emí=
lio
Garrastazu Medici (1969-1974) e que, depois de aposentado como ministr=
o do
tribunal, voltaria a exercer papel semelhante no governo do general
Também como previsto, fiquei em segundo =
lugar
na legenda do MDB, com o senador Montoro sendo reeleito. Mas, na
sublegenda - recurso de que se valeu a legislação eleito=
ral
do regime militar para abrigar, nos dois partidos permitidos, diferent=
es
correntes internas - obtive número superior de votos aos do candidato do partido
adversário, a Aliança Renovadora Nacional (Arena). Pelas
regras de então, o suplente de Montoro seria eu, e não q=
uem
se inscrevera na sublegenda d=
ele, o saudoso
José Roberto Magalhães Teixeira, na ocasião vice-prefe=
ito
e, no futuro, prefeito de Campinas (SP). O curioso é que, quando
saí candidato,
não sabia disso.
Daí por diante, ganhei um lugar ao sol na
política. Passaram a me intitular "senador suplente" e
galguei posições no MDB paulista. Cheguei a ser presiden=
te
do partido
Encabulado pela desproporção
intelectual entre quem partia e quem era convidado a permanecer, respo=
ndi
brincando:
- Só se o senhor me oferecer també=
;m uma
cadeira no Senado americano, porque sou suplente de um senador que
deverá ganhar as eleições para o governo de
São Paulo.
Conto o episódio pelo pitoresco e para
reiterar o papel do acaso, da sorte, da fortuna, palavra latina que te=
m o
mesmo sentido em italiano e em português: tornei-me senador sem jamais haver tido este
propósito seriamente.
Anos depois, em 1985, com a volta das elei&cced=
il;ões
diretas para prefeitos nas cidades consideradas "área de
segurança nacional", inclusive as capitais, concorri &agra=
ve;
Prefeitura de São Paul=
o. O
candidato natural, Mário Covas, prefeito em exercício
nomeado por Montoro, conforme as regras de então, fora impedido=
de
disputar por uma manobra
política no Congresso, que vedou aos titulares das
prefeituras o direito de se candidatar. Favorecia-se assim a candidatu=
ra
do ex-Presidente Jânio Quadros pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) em
coligação com o Partido da Frente Liberal (PFL), com a
eliminação do competidor mais forte da
oposição, Mário Covas. Resultado: o governador Montoro, nosso l&i=
acute;der
político,
levou-me à disputa.
Perdi por poucos votos (cerca de 2%) num univer=
so de
4,8 milhões de eleitores. Há várias
especulações sobre as razões da derrota e uma só=
; verdade:
não fui capaz de conve=
ncer o
povo de que seria bom prefeito...
Não é certo que eu tenha proclama=
do na
TV minha suposta condição de ateu, o que me teria levado=
a
perder. O editor-chefe da Fol=
ha de
S.
Paulo, Boris Casoy, me dirigiu uma pergunta que=
lhe
pareceu oportuna sobre minhas convicções religiosas.
Respondi que se tratava de questão de foro íntimo, sem utilidade para
avaliar o desempenho de um prefeito, tal como registrado pela
própria Folha, Inútil: no dia seguinte, a cidade se ench=
ia
de panfletos contra o "ateu".
Pior, os adversários utilizaram uma entr=
evista
que eu havia concedido à jornalista Miriam Leitão para a
revista Playboy3 meses antes, e, deturpando o sentido de uma resposta, qualificaram-me como
usuário de maconha. Minha inocência política era
tamanha que não percebi o potencial devastador do boato. Pareci=
a-me
tão descabido algu&eac=
ute;m acreditar
na versão que não imaginei que a história
"pegasse".
Pois pegou. E seu efeito demolidor superou o do
suposto ateísmo. Um dia, na periferia de São Paulo, na
Cidade Tiradentes, em uma quasefavela, uma senhora me perguntou:
- É verdade que o senhor vai distribuir
maconha no lanche das escolas?
Política, principalmente eleitoral, &eac=
ute;
assim mesmo. Há momentos em que vale tudo e nos quais se acredi=
ta
em qualquer coisa.
A outra "explicação" da
derrota tem a ver com uma foto publicada no dia das
eleições, 15 de novembro de 1985, uma sexta-feira, na qual
apareço sentado na cadeira&nbs=
p;
de prefeito, antes da hora. É evidente que, por numerosos
que tivessem sido os leitores da reportagem, não haveria tempo =
de
influir no voto. Mas a foto prova que
eu merecia perder... por ingenuidade. Estabeleci um acordo com
repórteres da revista Veja São Paulo para ser fotografado
nessa situação para o caso de vitória, pois as
eleições estavam extremamente apertadas e, além de tud=
o,
se a revista quisesse, como pretendia, trazer o novo prefeito na capa,
não haveria como fotografá-lo a tempo no gabinete oficia=
l.
(Veja São Paulo fechava sua edição na sexta-feira=
da
eleição.) Num f=
inal
de manhã, a revista aproveitou minha presença numa
solenidade na então sede da Prefeitura, no Parque do Ibirapuera=
, e
executou o trabalho. Outros fotógrafos também clicaram a
cena, assumindo o mesmo compromisso da revista. A Folha de S. Paulo,
porém, rompeu-o e publicou a foto em primeira página.
Pior teria sido se outro fotógrafo, com o qual fiz o=
utro
acordo, não me tivesse devolvido os negativos de uma foto, feit=
a na
sala de meu apartamento, na qual eu aparecia quebrando uma vassoura, símbolo do populismo
janista, que se dizia varredor de todo o lixo da corrupção.
Não fosse a integridade do fotógr=
afo -
cujo nome prefiro não divulgar - e essa foto talvez me tivesse causado um
prejuízo político ainda maior.
Nunca ninguém soube dela até a
publicação deste livro, Grave: despreparo para a asperez=
a da
luta política. Pedágio pago por um professor catapultado
à arena cheia de feras. Perdi, é o que conta. E a derrota me ajudou =
na
futura trajetória política.
Os primeiros dias após a derrota,
porém, foram amargos. Janistas iam até a porta do
prédio onde eu e minha família morávamos, à rua
Maranhão, no bairro de Higienópolis, para buzinar. Viajamos, mais tarde=
, para
nossa casa de campo em Ibiúna, a 70 quilómetros de
São Paulo, para curtir a derrota. Lá, vi Jânio Qua=
dros
na TV, caricatural, desinfeta=
ndo a cadeira
de prefeito na qual me sentara. Jânio, raposa talentosíssima,&=
nbsp;talvez
tenha percebido o que nem eu sabia: melhor esconjurar-me a tempo para<=
span
style=3D'mso-spacerun:yes'> não dar trabalho, em outras
eleições, como dei a muitos adversários,
A derrota ensina. O ex-governador Leonel Brizol=
a um
belo dia apareceu em minha casa. Dele ouvi o consolo: também
perdera uma eleição para prefeito de Porto Alegre, me disse, e foi a adversidade que =
lhe
deu força para, perdendo a arrogância - o juízo
é dele -, ser mais realista e buscar energia para novas caminha=
das.
Será verdadeira a tese?
É possível. O fato é que desde então, em t=
odas
as partidas políticas em que me meto, e não só nas
eleitorais, entro sempre supondo a possibilidade da derrota. Quando ganho, naturalmente me sint=
o gratificado,
mas nunca o suficiente para esquecer o quanto custou a vitória;
quando perco, durmo com a esperança do amanhã.
35
Eu estava por baixo. Hélio Jaguaribe, fi=
el
amigo e intelectual generoso, procurou-me no ano seguinte, 1986, pedin=
do
que não me afastasse da política nem concorresse novamente ao Senado, pelas poucas
chances de vitória, mas à Câmara dos Deputados.
Concordei com ele, até que apareceram as primeiras pesquisas de
intenção de voto para
as eleições.
Mário Covas e eu, referendados candidato=
s pela
convenção do PMDB estadual, éramos imbatív=
eis
na disputa das duas vagas de senador por São Paulo. Obtive 1 milhão de votos a =
mais
do que o candidato vitorioso para o governo do estado.
Assim é o eleitorado, que pratica uma
espécie de "justiça compensatória": quem
perde hoje, se não se desmoralizar, tem boa chance de ganhar
amanhã. Não é sem razão que os políticos profission=
ais
são sempre candidatos a alguma coisa. Ganhar é melhor, m=
as
perder não chega a ser uma tragédia. E a derrota deve ser
assumida plenamente pelo =
;candidato
derrotado. Foi o que procurei fazer quando perdi a Prefeitura de
São Paulo. Ofereci um coquetel em meu apartamento e, depois, reuni n=
a sede
do PMDB os líderes do
partido, inclusive os que apoiaram o adversário - já na
época o PMDB abrigava diferentes correntes em praticamente todo=
s os
estados, e
Minhas relações com Itamar s&atil=
de;o
um capítulo à parte. Conhecemo-nos no Senado, em 1983. O
senador Itamar (PMDB-MG), como eu, integrava a oposição =
ao
governo do Presidente Jo&atil=
de;o
Figueiredo. Nacionalista extremado e contendor permanente na
política mineira, ele às vezes obstruía uma
sessão por várias horas. Ou então infernizava os minis=
tros da
área económica cobrando expressões inglesas não
traduzidas em relatórios e discursos.
Recordo-me uma vez, sendo eu líder do PM=
DB, a
feroz obstrução que ele moveu à
aprovação de um aumento de 1% no Imposto sobre a
Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), A medida beneficiaria, ent=
re
vários, o governador mineiro Tancredo Ne=
ves e,
embora fossem ambos do mesmo partido, não convinha ao jogo
político do senador. A sessão durou até as tr&eci=
rc;s
da madrugada para vencer a
obstrução de Itamar. Enquanto proferíamos nossos
discursos divergentes, quem de nós estivesse à espera de
réplica aproximava-se do outro e, em voz baixa, fazia comentários&nb=
sp;bem-humorados.
Foram assim nossas relações como
senadores, De respeito e bom humor. Até então, contudo,
não tínhamos amizade pessoal. Jamais saíramos para&nbs=
p;almoçar
ou jantar juntos ou para conv=
ersar
sobre política.
Itamar surpreendeu todo mundo quando, no
início de 1989, surgiu como candidato a Vice-Presidente na chap=
a de
Fernando Collor de Mello.
Recordo que Covas e eu fomos de Brasília a Belo Horizont=
e e
nos encontramos com Itamar no avião. Nós dois
acreditávamos que ele apoiaria Covas, candidato do Partido da
Social Democracia Brasileira =
(PSDB)
à Presidência. Mas tinha ido a Minas firmar sua candidatu=
ra
no partido criado por Collor, o Partido da Renovação
Nacional (PRN).
Três anos e pouco depois, em 1992, dias a=
ntes
da abertura na Câmara do processo de impeachment de Collor - que
ocorreria no dia 28 de setembro - , procurou-me o senador Jutahy Magalhães
(PMDB-BA), este sim amigo de Itamar. O Vice-Presidente queria falar
comigo. Fui ter com ele no anexo do Palácio do Planalto, gabine=
te
da Vice-Presidência. A =
seu
modo matreiro, perguntou-me o que acreditava que ia acontecer.
Eu tivera uma reunião a dois com o
ex-Presidente e senador José Sarney (PMDB-AP), na sala dos arqu=
ivos
do Senado, para que não fôssemos vistos.
Sarney sempre mencionava o "Sacro Colégio dos
Cardeais" ou seja, um grupo de políticos de vários
partidos que, por sua experiência e responsabilidade, têm =
uma
visão institucional. Na hora
das crises, considerava, é a esses que se deve apelar.
Nas nossas avaliações, nada mais
sustentava o governo Collor, dados os escândalos. Não est=
ive
na primeira linha do impeachment até ler a explosiva entrevista
do irmão caçula=
do
Presidente, Pedro Collor, à revista Veja? denunciando com todas=
as
letras um esquema de corrupção que chegava ao Palá=
;cio
do Planalto. Temia as conseqüências institucionais da
deposição de um Presidente. Utilizei mesmo uma frase de
efeito, que no
entanto se demonstrou incorreta: "Impeachment é como bom=
ba atómica,
serve para dissuadir, mas não deve ser usada." Àquela
altura, diante dos fatos, não restavam condições morais para
sustentar outro caminho que não o afastamento de Collor. Sarney=
era
da mesma opinião e até mais veemente. E tinha
informações sobre a reação - neutra - das Forças
Armadas. Elas seguiriam a Constituição. Relatei tudo a Itamar=
, que
me perguntou:
- E seus amigos
Nem sei bem a quem ele se referia, mas o fato
é que São Paulo parecia ser para Itamar uma espéc=
ie
de buraco negro. Disse-lhe que havia desconfianças quanto &agra=
ve;
linha que ele adotaria caso
assumisse o Planalto, que o tinham em geral como ultranacionalista e
"atrasado".
De rompante, perguntou-me:
- Você acha que eu sou ingénuo?
- Claro que não - respondi. - Mas teimoso
você é, e muito.
Assegurou-me que teria um comportamento
responsável e autorizoume, depois que sugeri, a dar uma entrevi=
sta
dizendo isso. Foi o que fiz no Jornal da Tarde de 19 de setembro de 1992.
A partir desse dia, até o final do gover=
no,
Itamar Franco manteve as
melhores relações comigo. Tornamo=
-nos
amigos. Certo dia, logo depois
desse diálogo e de minha entrevista ao J=
ornal
da Tarde, conversávamos
sobre o futuro Ministério, na cozinha do=
meu
apartamento, no prédio funcional do Senado, na Superquadra Sul =
309
(SQS 309, como se diz,
numa espécie de código de filmes =
de
espionagem que é utilizado para localizar os edifícios em
Brasília). A determinada altura, tomando café,
Itamar me perguntou se aceitaria ser ministro d=
as
Relações Exteriores.
Disse-lhe, como de praxe, que o convite n&atild=
e;o
era necessário, mas que, se ele assim desejasse, aceitaria. E, =
para
dizer a verdade, fiquei bem satisfeito com o cargo.
Tivemos muitas conversas sobre o Ministé=
rio.
Na busca de um ministro da Fazenda, por exemplo, tomei a iniciativa de
trazer para conversar com Itamar em meu apartamento, separadamente, o deputado Jos&eacu=
te;
Serra (PSDB-SP), economista de nomeada com experiência na vida
pública e meu amigo desde os tempos do exílio de ambos no
Chile, e um empresário=
muito
versado em economia e preocupado com questões nacionais, Paulo =
Cunha,
dirigente do Grupo Ultra, gigante da área de química e p=
etroquímica.
Volta e meia eu perguntava ao
Presidente sobre o Ministério da Educação (MEC), o
que levou Itamar à convicção de que eu ambicionava
comandá-lo. Expliquei-lhe
que não, que fora a vida toda mais pesquisador do que
propriamente professor e não tinha sequer uma visão
aprofundada dos problemas educacionais. Apenas desejava saber quem seria o ministro p=
or
considerar indispensável que não fosse um político
clientelista. Itamar disse que já tinha o nome, não o revelou=
, mas
cumpriu o prometido. Nomeou o
professor Murílio Hingel, que havia trabalhado com ele durante =
sua
gestão como prefeito de Juiz de Fora (MG), entre 1967 e 1971.
As conversas decisivas sobre a formaç&at=
ilde;o
do Ministério - que deveria ser de "união
nacional", só não sendo assim ao pé da letra porq=
ue o
Partido dos Trabalhadores (PT)
não aceitou participar - se deram na casa de Maurício
Corrêa, senador do Partido Democrático Trabalhista (PDT) pelo&=
nbsp;Distrito
Federal. A última ocorreu no gabinete da Vice-Presidência, à=
;s vésperas
do afastamento de Collor por resolução da Câmara, que se
daria a 29 de setembro daquele 1992 - afastamento ainda provisó=
rio,
até que o Senado julgasse o impeachment, o que só ocorre=
u a
29 de dezembro.
A reunião foi dramática. Faltava
escolher o ministro da Fazenda. Eu havia perdido a indicaç&atil=
de;o
de José Serra, que Itamar e os senadores nordestinos não
aceitavam - Serra, durante a
Constituinte, tinha sido acusado por políticos do Nordeste de
defender interesses específicos de São Paulo no
capítulo tributário. O PMDB paulista, com o ex-governador Orestes
Quércia à frente, proporia um nome, mas o dia passava e nada =
de chegar
a indicação. O senador Humberto Lucena (PMDB-PB) achava que&n=
bsp;deveria ser eu. Horrorizado com a
hipótese, que me afastava do Itamaraty para mares nunca dantes
navegados, lembrei o nome do embaixador Rubens Ricupero, versado em
economia e veterano de n=
egociações
internacionais nessa área. Itamar me autorizou a consultá-lo&=
nbsp;pelo
telefone, mas a resposta foi negativa.
Nesse dia notei qualquer coisa de estranho no
semblante dos ministros da Aeronáutica, brigadeiro Sócra=
tes
Monteiro, e da Marinha, almirante Mário César Flores,
com os quais cruzara nos corr=
edores
da Vice-Presidência.
No final da tarde, sem acordo quanto à p=
asta
da Fazenda, o futuro Presidente pediu que ficássemos com ele,
se não me falha a mem&=
oacute;ria, Pedro
Simon (PMDB-RS), que viria a ser líder do governo no Senado, os
senadores Maurício Corrêa, Alexand=
re
Costa (PFL-MA), Jutahy Magalhães e eu, e possivelmente Henrique
Hargreaves, amigo de infância de Itamar, experiente
funcionário de carreir=
a da
Câmara dos Deputados e ex-subchefe da Casa Civil do governo Sarn=
ey
(1985-1990). Todos nós, com exceção de Jutahy,
seríamos nomeados ministros.
Passou-me uma nota que recebera do gabinete de =
Collor
e me pediu que a lesse para todos. Tratava-se de uma requisiç&a=
tilde;o
de um contingente de segurança para o Presidente Collor durante o período de
afastamento.
Diante do que Itamar nos comunicou que demitiria
todos os ministros militares e nomearia outros, diretamente de sua
confiança. Acreditava&=
nbsp;que
o pedido de Collor revelava uma disposição de resistir a um
eventual impeachment.
O gesto do Presidente explicou o comportamento =
dos
militares com os quais havia cruzado, até porque com um deles, o
almirante Flores, eu conversara sobre sua possível permanência no Ministé=
;rio
da Marinha, não só pela admiração que lhe
tinha (e tenho), mas porque o futuro Presidente compartilhava meus
sentimentos. Os ministros
militares, porém, tinham sido informados, instantes antes
daquele encontro fortuito num corredor, de que deixariam o governo.
Ocorreu forte constrangimento, principalmente p=
or
parte do senador Simon, que manifestou desagrado pela decisão
surpreendente e não discutida de antemão conosco. Não houvera uma
combinação explícita de que nosso grupo deveria
opinar sobre os principais passos do futuro Presidente, mas isso
parecia-nos um pressuposto, já que&=
nbsp;
quase todos seriam ministros, eram ex-colegas de Itamar no Sena=
do e
vinham sendo consultados por ele para a formação do futu=
ro
governo. O Presidente, porém,
atalhou, taxativo:
- É assim que eu atuo e ponto final.
E é isso mesmo. Quem imaginar que o dr. =
Itamar
Franco é ingénuo ou não dispõe de
"vontade política", engana-se. Se nem sempre o rumo que&nb=
sp;persegue
é claro para os demais=
e
parece ziguezagueante, é porque esta é sua prática
política. E é inegável que tem "faro",
não obstante a lógica do comportamento esteja longe de s=
er
cartesiana. No caso da d=
ispensa
dos ministros militares, não havia motivo para
preocupações. As Forças Armadas tiveram uma condu=
ta
irrepreensível durante o processo de impeachment. Itamar queria somente mostrar auto=
ridade.
À noite informou-nos o nome do ministro =
da
Fazenda, alguém que ninguém esperava: o deputado do PFL
Gustavo Krause, ex-prefeito do Recife e ex-governador de Pernambuco.
Foi em circunstâncias semelhantes (por is=
so
essa longa digressão) que Itamar fez de mim ministro da Fazenda=
em
maio de 1993. Como ministro das Relações Exteriores, eu estava em campanha pela
recuperação do prestígio internacional do Brasil.
Tarefa árdua. Com a inflação nas nuvens, por mais=
que
dissesse (e fosse verdade) que os
números da economia no setor privado eram bons, quem acreditari=
a?
Recordo-me, entre cenas que me vêm à memória, do r=
osto
de espanto e descrença de empresários chilenos (e olhe que eles ainda n&=
atilde;o
tinham tanta confiança na própria economia como passaria=
m a
ter anos depois) diante dessa afirmação, num encontro de=
que
participei em Santiago quando
chanceler.
Visitei vários países nessa
pregação. Nesse maio de 1993 viajei ao Japão para
tentar refazer laços abalados pela administração de
Fernando Collor de Mello (1990-1992)&=
nbsp;
e sua ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello. Na i=
da
estive em Washington, com o secretário de Estado americano, War=
ren
Christopher, que me alertou sobre "compra de material russo para
fabricação de mísseis pelo Brasil" - assunto do q=
ual
nem eu nem o Presidente Itamar sabíamos.5 Respondi, ironicament=
e,
que só se fosse com
financiamento deles, americanos, dada a quebradeira dos dois pa=
íses.
Christopher ficou um tanto desconcertado e não soube o que resp=
onder.
Segui então para o Japão,&nb=
sp;
onde consegui um aumento de 1 bilhão de dólares no
valor do seguro às exportações.
Voltei contente, não mais via Washington=
, mas
via Nova York. Na noite de 19 de maio fui jantar na casa do embaixador
brasileiro junto à ONU, Ronaldo Sardenberg, quando, na hora do brinde (feito
à moda japonesa, no início da refeição), a
esposa do ministro, embaixatriz Célia, me pediu para atender ao
telefone.
Era o capitão-de-corveta Ant&oacut=
e;nio
Carlos Passos de Carvalho, ajudante-de-ordens, que me passou o Preside=
nte
Itamar. Este me perguntou, brincando, se eu estava sentado ou em pé e colocou a q=
uestão:
-Você aceita ser ministro da Fazenda?
Respondi que jamais pretendera a
posição, que não era economista, e, sobretudo,
reiterei que, com tanta troca de ministro da Fazenda, não dispu=
nha
mais de argumentos para conve=
ncer
no exterior de que tudo ia bem
no Brasil.
De fato, seria, como já disse, a quarta =
troca
em apenas sete meses de governo. Itamar relatou-me problemas com o
ministro Eliseu Rezende, com quem ele se avistaria naquela mesma noite. Havia uma
acusação de que a empreiteira Norberto Odebrecht tinha p=
ago
a hospedagem de Eliseu em Washington durante uma viagem feita antes
de ele assumir a Fazenda.
Insisti com o Presidente
- Não estou aí no Brasil. Sei pelo
noticiário, que acompanhei com apreensão no Japão,
que sua situação é difícil. Não gostaria=
de
faltar com minha solidariedade,
mas, por favor, insista para que Eliseu permaneça no
Ministério.
Voltei à mesa preocupado. Todos se deram
conta. Ao final do jantar, novamente a embaixatriz me avisou que o
ajudante-de-ordens telefonara para dizer que o Presidente não precisava mais falar co=
migo.
Fui dormir aliviado. Na manhã seguinte, desde familiares at&eac=
ute;
o secretário-geral do Itamaraty, o embaixador Luiz Felipe
Lampreia, me chamaram do Bras=
il para
dizer que eu fora nomeado ministro da Fazenda. A primeira pessoa que me
ligou foi minha mulher, Ruth. Não queria acreditar quando lhe d=
isse
que havia um engano, pois eu ainda não dera resposta ao Preside=
nte.
Ela,
como meus filhos Paulo Henrique, Luciana e Beat=
riz e
também meus amigos, achava que seria uma insensatez aceitar o
Ministério da Fazenda.
Somaram-se, portanto, as características
pessoais do Presidente Itamar (sua aparente impulsividade, que na verd=
ade
sempre tem um cálculo por trás), sua confiança
para, ainda uma vez, sem cálculo e sem
astúcia ex-ante, ir
cumprindo minha vontade "desde pequenininho" de chegar a ser
Presidente...
Só que, na época, a maioria dos
políticos, jornalistas e empresários tomou a
nomeação como sendo de alto risco. Eu também. O jurist=
a e cientista
político Celso Lafer, =
que
ocuparia dois diferentes ministérios em meu governo -
Indústria e Comércio e Relações Exteriores =
;-
me recordou um trecho precioso de Machado de Assis, em Esaú e Jacó, capítul=
o 65,
onde se lê: "Conte com as circunstâncias que também
são fadas. Conte mais com o imprevisto. O imprevisto é u=
ma
espécie de deus avulso ao qual=
é preciso dar algumas ações de graças; p=
ode
ter voto decisivo na assembléia dos acontecimentos." Eu es=
tava
mais próximo da fogueira (e não das vaidades) do que do<=
span
style=3D'mso-spacerun:yes'> outeiro da Glória.
Uma digressão teórica
Estendi-me na narração desses
episódios porque, além do eventual valor históric=
o,
sustentam a idéia de que a fortuna, ou a sorte, às vezes,&nbs=
p;precede
a vírtà,6 e que o
empenho em objetivos pessoais é menos importante do que o
"abraçar uma causa". Seria enganoso, entretanto, imag=
inar
que as carreiras políticas, os êxitos eventuais, as mudanças que se con=
segue
obter, decorrem de "mero acaso". Não existe, tampouco na&n=
bsp;política,
como na
visão terra-a-terra sobre os merca=
dos, a
mão oculta que conduz a ação em favor do bem comu=
m. E
nem têm tanto peso as razões que a própria razão=
desconhece,
à maneira de Pascal.
Na realidade, fui treinado para exercer pap&eac=
ute;is
de liderança política, mesmo sem ter muita consciê=
ncia
disso. São muitos os caminhos para obter sucesso na vida
política. É s&o=
acute;
ver a trajetória de Lula, tão diferente da minha, mas que
acabou levando-o à Presidência em 2002 com enorme vota&cc=
edil;ão.
Há também quem assuma o comando de um país sem que a história pes=
soal
explique muita coisa. E outros há que jogam fora a própria&nb=
sp;história.
Não é o caso de dar nome aos bois. Cada leitor escolha o =
;personagem que lhe pareça caber no fig=
urino.
Quem sabe cada um de nós que exerce liderança possa se
encaixar melhor em um ou outro percurso, dependendo do momento de
nossas vidas. Certamente, con=
tudo,
existe parte de virtü em cada caso, e não mero acaso.
A discussão sobre as qualidades
necessárias para o exercício da liderança é
grande, variável e antiga.7 Ela envolve aspectos complexos da
ética e da moral e não
cabe aprofundá-las neste livro. Faço umas poucas
considerações sobre esses temas para tornar mais claro o que =
quis dizer
quando me referi à noção de virtú. Em
Maquiavel ela quer dizer =
;menos
"virtude", no sentido moderno da palavra, do que a
capacitação para o exercício do governo. E &eacut=
e;
sabido também que o arquicitado florentino prezava antes a disposição do
governante para fazer o necessário a sua manutençã=
;o
no poder do que sua fé no Pater Noster.
Embora a frase a ele atribuída de que &q=
uot;os
fins justificam os meios"
não seja de sua lavra nestes exatos termos, os conselhos que
dá ao Príncipe no célebre capítulo XVIII de
sua
7 Na antiguidade clássica, tanto
Aristóteles como Platão discutiram as qualidades requeri=
das
para alguém ser líder. Platão, na República, fa=
la do
guardião do Estado como
alguém que, além de sua disposição natural -&nb=
sp;são
palavras dele -, se prepara, pela educação, para mandar.
Aristóteles sublinha mais ainda os atributos naturais e aceita a idéia, hoje =
;inaceitável,
de que desde o nascimento uns são fadados a obedecer, outros, a
mandar. Um dos autores contemporâneos mais citados na matéria,=
o
cientista político alemão Robert Michels, mantém a
noção de que algumas pessoas têm qualidades ou
atributos de liderança que as capacita até mesmo a
"frearem as massas"=
. Hoje
em dia ninguém em sã consciência mencionaria esses
atributos sem ressaltar o contexto social específico em que ele=
s se
desenvolvem e os recursos disponíveis - amplo senso - para sua
efetivação.
obra mais conhecida não deixam margens p=
ara
dúvidas quanto a seu realismo, digamos, "amoral".
O italiano Norberto Bobbio, como sempre o mais
lúcido e claro dos pensadores contemporâneos da
política,8 assinala que a licença moral que Maquiavel da=
va
aos poderosos era para os que
realizassem "grandes feitos" ou, mais literalmente,
"grandes coisas".9 Os governantes capazes dos grandes feitos
não se obrigariam sequer a cumprir&=
nbsp;
os pactos e a palavra empenhada. Pela "saúde da
pátria" nos momentos das grandes decisões, seria
necessário ter força e astúcia (simbolicamente, agir&n=
bsp;como
o leão e como a raposa=
), e
dissimular. Os resultados é que contariam, não os
princípios. Embora aceitando que o Príncipe deve se mant=
er o
quanto possível no caminho do
bem, agindo em conformidade com a caridade, a fé, a
clemência e a religião, Maquiavel reitera que ele dever&a=
acute;
enveredar pelo mal quando for preciso. E justifica sua visão descarnada do po=
der e
dos meios para sua manutenção, asseverando que os govern=
antes
agem dessa maneira porque os homens não são bons. Se todos&nb=
sp;fossem
bons, os príncipes
não precisariam ser dissimulados e dissimuladores. Não s=
endo
assim, "na ação de todos os homens - e principalmen=
te
nas do Príncipe, contra o qual não existe tribunal a que se possa
recorrer - o que importa é o resultado."10
Os problemas colocados por esse tipo de
interpretação são imensos. No fundo volta-se &agr=
ave;
relação entre moral e política. Maquiavel, de certo&nb=
sp;modo,
não renega a moral
cristã, apenas mostra que a política obriga, em
8 Para uma síntese de sua obra, ver Norb=
erto
Bobbio, Teoria geral da política (A filosofia política e=
as
lições dos clássicos), Rio de Janeiro, Campus, 20=
00.
Tradução de Dan=
iela
Beccaccia, edição organizada por Michelangelo Bovero.
9 Ver Nicolau Maquiavel, O Príncipe,
tradução de Lívio Xavier, Rio de Janeiro, Ediouro,
2002 (Introdução "A originalidade de Machiavelli", =
por Isaiah
Berlin).
10 Maquiavel, op. "t, p. 216. Estou usando=
esta
tradução, embora os comentários adiante faç=
;am
referência a outra mais completa, porque o trecho acima est&aacu=
te;
mais acorde com
traduções para outros idiomas. Por exemplo, na
tradução de O Príncipe para o inglês, feita por =
W. K.
Marriott, publicada na
série Great Books, Enyclopedia Britannica, com o aval da Universidade de
Chicago, Nova York, 1952, p. 25, lê-se: "And in the action
ofall men, and specially ofprinces, which is notprudent to challenge,
onejudges by the result."=
; Em italiano, "nelle azioni di=
tutti
gli uomini, e massime di principi, dove non è indizio a chi rec=
lamare,
si guarda ai fine". Jl Príncipe, cap.
45
circunstâncias dadas, a agir guiado por o=
utros
valores. Lança, assim, as sementes de idéias - depois
intuídas por Viço na Scienza Nwova11 - que muito depois
vieram a ser exploradas por I=
saiah
Berlin, como a incomensurabilidade e mesmo a incompatibilidade de valo=
res
que convivem na mesma cultura e entre os quais não existem padrões racionais de e=
scolha.
Mais modernamente este constituiu o cerne da análise de Max Web=
er
ao distinguir entre a ética da responsabilidade e a das convic&=
ccedil;ões. Ao leitor menos atento pode parece=
r que
Weber, ao mostrar a diferença entre as duas éticas, acaba
por dar sustentação ao amoralismo maquiavélico.
Entretanto não é=
; bem
assim. Se é certo que o político, para Weber, deve ser
julgado pelas conseqüências de seus atos,12 isto não
significa que a ação do político dispense
convicções. E W=
eber,
que foi deputado na Alemanha e era apaixonadamente nacionalista, as te=
ve,
e muitas.
Weber não separa de modo absoluto as duas
éticas. Apenas as distingue:
uma, a das convicções, ajuí=
;za as
ações antes de sua vigência; a outra, a da
responsabilidade, julga as
conseqüências do ato praticado. Na ação do gr=
ande
político elas não podem ser separadas; se assim ocorrer, no&n=
bsp;primeiro
caso levará ao fanatismo e, no segundo, ao cinismo.
Essa temática que aparece nas aná=
lises
teóricas é vivida cotidianamente pelos homens
públicos, ou pelo menos pelos políticos conscientes de seu&nb=
sp;papel
e de suas responsabilidades e=
que
ambicionam ser algo além do que "um a mais". Por isso,
quando escrevi na Introdução deste livro sobre a import&=
acirc;ncia
que representou para mim "abraçar causas", começando pela da
democracia, estava me afastando do maquiavelismo e do weberianismo vul=
gar
(pobre Weber!), correndo o risco de ser percebido como um "ideali=
sta ingénuo". Ou, o que &e=
acute;
pior, como se estivesse tentando disfarçar o maquiavelismo, tal
como nosso florentino aconselhava que aos príncipes cabe fazer.=
..
11 Giambattista Viço, Princípios =
de
(uma) ciência nova (acerca da natureza comum daí
nações), 3a ed., São Paulo, Abril Cultural, 1984.
" Mais contemporaneamente Merleau-Ponty
argumentou de forma semelhante para tentar explicar a
aceitação de "culpa objetiva" por parte dos l&=
iacute;deres
comunistas que, nos tribunais
stalinistas, confessaram faltas cometidas por terceiros, que,
porém, teriam agido em conseqüência das pregaç=
;ões
Ou decisões dos acusados. Ver Maurice Merleau-Ponty, Humanisme et
terreur, P4rís> Gallimard, 1947; coleção Idé=
es,
1980.
Por força de minha trajetória
intelectual, não poderia desconhecer as posições
citadas. Se o leitor tiver conhecimento do que já escrevi a res=
peito,
saberá que poderia inv=
ocar
Hegel, para quem a moral (pelo menos a Moral com M maiúsculo) se
objetivava no Estado e não nos indivíduos - aquele sim,
ético. Ou, melhor ainda, invocar&nb=
sp;
Marx e mostrar que também este, embora sempre de olho nos
modos de produção e nas forças objetivas da
História, juntava essa análise ao comprometimento com uma
"visão" com =
uma
causa redentora. Isso sem que o fundamento moral da ação
toldasse a compreensão da lógica da História, e s=
em,
em nome da causa, transformar em válidos os meios utilizados para alcan&c=
cedil;ar
os objetivos.
Para justificar o julgamento moral da
ação política não é preciso, portan=
to,
assumir a posição dos jusnaturalistas, os quais imaginam um&n=
bsp;"contrato
social" básico ou=
algum
outro "ente de razão" a partir do qual deduzem as obr=
igações
morais, sem se referir às situações histór=
icas.
Aliás, para o próprio fundador dessa corrente de opinião, o holand&e=
circ;s
Grócio, a idéia de contrato e a suposição da
razão como base para o juízo moral não dispensavam
uma análise da evolução histórica.13
O mestre das formas de governo, o francês Montesquieu, quando escreveu seu monumental livro, O espírito d= as leis, publicado em 1748, tão criticado na época, estabeleceu a clássica distinção entre o regime tirânico, o monárq= uico e o republicano.14 Deixando de lado a distinção aristo-<= o:p>
13 O "pai" do jusnaturalismo moderno,=
Hugo
Grócio, em sua obra sobre a paz e a guerra, De iure belli acpac=
is,
de 1625, se afastou da tradição medieval (e mesmo
clássica antiga) de bu=
scar o
fundamento das leis nos ditames divinos. Em oposição
às explicações baseadas no "sobrenatural",&n=
bsp;afirmava
o direito natural, o jusnaturalismo,
sustentado exclusivamente pela razão humana. Hobbes
também, como é sabido, pensava o Estado como uma
situação que se contrapunha em termos de um conceito
racional ao estado de
natureza, no qual o homem seria o lobo do homem. No fim do sécu=
lo
XVII, Locke, em Dois tratados sobre o governo, formulou, independentem=
ente
de Grócio, teoria
semelhante, mas com fundamento na vontade dos indivíduos, e
não na natureza da razão.
14 Montesquieu (Charles-Louis de Secondat,
barão de Ia Brède et de Montesquieu), LEsprit dês
lois, Amsterdã, Arstée et Merxus, 1785, baseada na
edição de 1758, revista
pelo autor antes de sua morte (em 1755). Tanto nesta
edição como na das Obras completas editadas por L. de Bu=
re
(Paris, 1827), publica-se o elogio a Montesquieu feito por d'Alembert para o t=
omo
5° da famosa Encklopédia,
47
télica entre governo de um, de poucos e =
de
muitos, Montesquieu explica o modo de funcionar das três formas a
partir dos "princípios" que os regem: o medo, a
honra e a virtude. Essas seri=
am as
paixões humanas que moveriam cada uma das modalidades
básicas de governo. Em cada formação histó=
rica
haveria princípios ou paixões distintos que dariam sustentaç&a=
tilde;o
às regras da política.
Entre os autores contemporâneos, o
filósofo britânico Isaiah Berlin foi quem melhor seguiu a
tradição de envolver as análises no contexto hist=
órico
sem cair no relativismo cultu=
ral
que termina por não permitir a distinção entre o =
que
é correto e o que é errado na comparação entre&=
nbsp;momentos
históricos e entre diferentes sociedades.15 Berlin reconhece, tal qual
Maquiavel, a coexistência de valores que podem não ser co=
nciliáveis
mas são igualmente aceitos. Defende a tese da pluralidade objet=
iva de valores, os quais podem n&atild=
e;o
ser compatíveis nem guardar entre si um elo lógico que
permita hierarquizá-los. Como conciliar, por exemplo, o
"não matarás" cristão, com as decisões de matar na
guerra e mesmo na política, no caso dos guerrilheiros que lutam
pela libertação nacional?
Distante da pregação dos que
crêem na moral kantiana e no monismo ético dos
jusnaturalistas, Berlin sugere que em certas situações h&aacu=
te;
que se proceder a escolhas
radicais, sem o amparo de um catecismo que nos ajude a discerni=
r o
bem do mal. Por tal razão é tão importante o juí=
;zo, a
percepção qualitativa que nos guia na hora de fazer uma escolha. E como =
esses
dilemas são freqüentemente trágicos, o filósofo e
cientista político britânico John Gray busca
inspiração nos dramaturgos gregos para batizar o liberal=
ismo
de Berlin como agônico, do grego ágon, que significa emba=
te.
Em situações muitas vezes dramáticas as escolhas =
individuais
e coletivas têm esse
caráter. É no momento das grandes decisões que o
líder, em seu isolamento existencial, ainda que cercado fisicam=
ente
de muitas pessoas, aparece em toda
a sua estatura, enfrentando todas as dificuldades.
15 Ver especialmente o
admirável ensaio "The pursuit of the ideal", in Isaiah
Berlin, The Crook Timber of Humanity, Nova York, Vintage Books, 1992. =
E ainda, John Gray, Isaiah Berlin, Princeton (EU=
A),
Princeton University Press, 1996, especialmente o capítulo 2. C=
elso
Lafer produziu uma instigante comparação entre Berlin e<=
span
style=3D'mso-spacerun:yes'> Hannah Arendt, no livro que l=
eva o
nome desta última, publicado em segunda edição, amplia=
da,
pela Paz e Terra em 2003, cap. 8.
Ou ele tem o senso da História, intui, j=
ulga e
decide, ou ninguém o fará por ele, que pagará o
preço da não-decisão ou, se for o caso, do erro p=
ela
decisão assumida.
Aprendendo em casa o enredo da política<= o:p>
Quantas vezes o cidadão comum, para n&at=
ilde;o
falar do político, enfrenta esses dilemas? Quando os chamados
órgãos de segurança me prenderam, em 1975, me pus=
eram
um capuz, me ameaçaram=
com
tortura, me interrogaram por horas a fio, sem que eu atinasse a
razão nem conhecesse os fatos e situações
questionadas. Sem apelar para Berlin,
Maquiavel ou Weber, eu me indagava: "E se confessar o que
não sei?" Como julgar moralmente a mentira de alguém
diante do algoz ou da ameaça de morte?, pergunto hoje.
Eu não tinha o que delatar e mais me ind=
ignei
do que me amedrontei. A experiência daqueles dias sombrios me le=
vou
a julgar de modo diferente as "delações" em
circunstâncias semelhan=
tes. O
certo é que também por esses caminhos inesperados acabei,
pouco a pouco, penetrando nos meandros e nas rudezas da aç&atil=
de;o
política. Constatei que a palavra&n=
bsp;
e a letra têm um custo maior do que eu poderia imaginar:
estava diante dos temidos homens do DOI-Codi16 somente por haver escri=
to e
falado sobre o Brasil e contra
o autoritarismo militar, sem ação política dire=
ta.
Sem a mesma tragicidade, quantas vezes no
exercício da Presidência tive que escolher entre o ruim e=
o
menos ruim? Ou entre objetivos moralmente justificáveis, mas
16 Os Centros de Operações de Def=
esa
Interna (Codi), criados em 1970, eram organismos colegiados integrados=
por
representantes das três Armas e de governos estaduais, tendo sempre à frente o
comandante local do Exército. Os Destacamentos de
Operações de Informações (DÓI)
constituíam o braço operacional dos Codi, comandados
por oficiais do Exérci=
to e
com quadros compostos por militares das Forças Armadas e membros
das polícias militares estaduais.
49
com o excedente, poder pagar juros da dí=
vida
pública - ou elevar o gasto social no Orçamento? Nessas
horas o peso das discussões teóricas, como as
anteriormente mencionadas, re=
cai
abruptamente na cabeça do líder, não como teoria,=
mas
como experiência sofrida. Quem não dispõe do amparo&nbs=
p;do
conhecimento talvez sofra mais diante
do desafio de fazer uma opção radical que descont=
ente
a muitos, mas parece necessária Co radical choice de Isaiah
Berlin). Quem tem conhecimento dá maior valor às distin&=
ccedil;ões
de Weber e, sem abonar o dualismo maquiavélico, sente a força=
dele.
Quando afirmei que aprendi em meu percurso a ex=
ercer funções
de liderança e que há modos diferentes de exercê-l=
a,
convém ressaltar que tanto em meu caso como no do Presidente que me sucedeu esse
aprendizado se deu no decorrer de um longo processo de amadurecimento
democrático do país. Quanto a mim, especificamente,
cabe mesmo invocar que aprend=
i em família
o enredo da democracia.
No Rio de Janeiro, onde nasci, nos
intermináveis serões à mesa de jantar em casa de
minha avó paterna, Leonídia Fernandes Cardoso, a
"Vovó Linda", ou na de meu pai, general Leônidas Cardoso,
voltava-se amiúde a discutir os detalhes da
"conspiração republicana" contra a Monarquia, na&nb=
sp;qual
meu avô, Joaquim Ignacio Batista Cardoso, e um tio-avô, seu irmã=
;o Augusto
Ignacio do Espírito Santo Cardoso, tomaram parte ativa. Meu avô=
; morreu
em 1923 com a patente de marechal e Augusto, general, foi ministro da
Guerra do governo provisório de Getúlio Vargas, entre 1930 e&=
nbsp;1932.
Esse mesmo cargo seu filho Ciro, primo de meu pai e igualmente general,
exerceria entre 1952 e 1954, ainda sob Getúlio, só que desta&=
nbsp;feita
Presidente eleito por voto di=
reto
em 1950. Também as lutas "tenentistas" dos anos 1920 e
1930, ou as campanhas nacionalistas dos anos 1950 nas quais meu pai, e=
u e
vários tios e primos
estivemos envolvidos, eram vistas e revistas a cada encontro
familiar numeroso.
Mais tarde, a participação direta=
na
oposição ao autoritarismo militar também me serviu de escola na polític=
a,
como veremos adiante.
Desde jovem professor-assistente da Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras da USP, mantive a
preocupação política ao lado da académica, no&n=
bsp;caso
com o fortalecimento e a
democratização da carreira universitária (estive
entre os fundadores do que é hoje a Associação dos
Docentes da USP, a Adusp). Fui eleito representante dos ex-alunos junto ao Conselho
Universitário, em abril de 1957, em uma
campanha de grandes proporções, quando setores tradicion=
ais
da universidade se jogaram contra mim e contra a aliança que
Cumpridos esses requisitos, os catedráti=
cos
seriam impedidos de usar os&n=
bsp;poderes
que até então detinham de demitir seus auxiliares, sem qualqu=
er limitação
de vontade, ad nutum, No processo de modernização da USP,&nbs=
p;quando
conseguimos eleger um reitor =
de mente
aberta, o professor António Barros de Ulhôa Cintra, da
Faculdade de Medicina, em 1962, criamos a Fundação de Am=
paro
à Pesquisa do Estado de
São Paulo (Fapesp), hoje um modelo de instituição
pública no género.
Desde essa ocasião se reafirmou em mim o=
que
percebera nas discussões familiares: as pessoas mudam e, para
atingir os objetivos desejados, as alianças são
freqüentemente
necessárias. O background pessoal e familiar condiciona =
os
percursos políticos, embora só até certo ponto.
As pessoas assumem posições diver=
sas
diante de novos desafios e de=
novas
circunstâncias. Meu avô e o irmão dele tomaram parte na&=
nbsp;proclamação
da República e nas jornadas antioligárquicas do final do =
;século
XIX e dos primeiros trinta an=
os do
século XX, apesar de o pai deles, no tempo do Império, m=
eu
bisavô Felicíssimo do Espírito Santo Cardoso, ter
chefiado o Partido Conservador
Como modo de ascensão social comum na
época. Felicíssimo estudou num seminário, tornou-=
se
professor de latim e acabou incursionando pela carreira polític=
a -
deputado, senador provincial,
responsável por um arremedo de política indígena
então existente na província -, tendo recebido do Impera=
dor
Dom Pedro II o título, honorífico e não militar, de
brigadeiro. Casou-se duas vezes, e os dois filhos mais velhos do prime=
iro
51
casamento, meu avô Joaquim Ignacio e seu
irmão Augusto, transferiramse para o Rio para seguir a carreira
militar.
Republicano ardente, Joaquim Ignacio, ainda jov=
em
alferes de Cavalaria, respondeu a Benjamin Constant que, se houvesse
resistências à República, o Imperador deveria ser fuzilado. Pouco depois, atuari=
a como assistente-secretário
e homem de confiança do marechal Floriano Peixoto, Vice-Preside=
nte
e futuro Presidente da República&nb=
sp;
(1891-1894), tanto é que, durante o mandato de Floriano,
morou no palácio presidencial de então, o do Itamaraty, =
no
Rio. Décadas depois, seria um dos dois únicos generais a
apoiar o movimento tenentista, tendo pago o arroubo antioligárq=
uico
com a prisão, que compartilhou com o marechal Hermes da Fonseca,
ex-Presidente da Repúb=
lica.
Embora por origem e formação tive=
sse
impulsos típicos do autoritarismo militar muito ao gosto dos
positivistas (manteve correspondência, por exemplo, com o
caudilho gaúcho J&uacu=
te;lio
de Castilhos, bem como combateu com armas na mão, sob o comando=
do
pai de Getúlio, o general dos "provisórios" Ma=
nuel
do Nascimento Vargas, a rebelião&nb=
sp;
anti-republicana de 1893 no Rio Grande do Sul), meu avô
tornou-se um democrata convicto.
Quando comandante militar em Recife, fundou uma= Liga Pernambucana contra o Analfabetismo e criou várias escolas. Hom= em de princípios rígidos, recusou sistematicamente honraria= s - só aceitou e usava uma única medalha, a de bons servi&cc= edil;os prestados ao Exército e &ag= rave; Pátria - e eliminou o "Espírito Santo" do próprio nome e dos filhos, tornando o mais simples "Cardoso" o sobrenome de sua descendência. Enquanto esteve preso num nav= io no porto do Rio, após o levante de 1922, para exercitar-se precisa= va deixar o barco e caminhar no cais, sob o olhar de um sentinela. Joaquim Ignacio, porém, recusou-se sistematicamente a fazê-lo, a menos que acompanhado p= or oficial de patente igual ou superior -- que não havia a bordo -= , o que agravou um problema = circulatório nas pernas, causando-lhe a morte após sua libertação.<= o:p>
Democrata desde a raiz dos cabelos també=
m foi
meu pai, Leônidas Cardoso.
Militar de carreira, não cabia no
estereótipo: era liberal, afável e elegante, gostava de<=
span
style=3D'mso-spacerun:yes'> poesia, falava francês e esp=
anhol,
tocava um pouco de piano. Tinha múltiplos interesses, a ponto de
ter cursado Medicina sem concluir os estudos e, posteriormente, se formado em Direito, o que =
pa-
rece ter-lhe acentuado o apreço pela
legalidade que o faria, por exemplo, já idoso, opor-se ao golpe=
de
1964. Com a vida nómade que levam os militares, ele nasceu em Curitiba, cursou a escola milit=
ar em
Porto Alegre e acabou sendo transferido para o Rio. Jovem oficial de&n=
bsp;Cavalaria,
como o pai, participou da revolta de 1922&=
nbsp;
e foi preso.
Cumpriu depois uma espécie de exí=
lio
interno numa unidade do Exército em Óbidos, às
margens do rio Amazonas, no interior do Pará. As reviravoltas d=
a História do Brasil fariam c=
om
que, vitoriosa a Revolução de 1930, com os tenentes no
poder, ele passasse a integrar o gabinete de seu tio Augusto, ministro=
da
Guerra. Com a
Revolução Constitucionalista de 1932, houve um racha ent=
re
os Espírito Santo Cardoso, pois meu pai, contrariando parte dos
militares da família que estavam&nb=
sp;
com Getúlio, apoiou o movimento deflagrado
Com vicissitudes, meu pai prosseguiu na carreir=
a. Em
1940, major do Exército, se mudaria para São Paulo com a
família - minha mãe, Naíde, meus irmãos
António Geraldo e Gild=
a, e
eu, o mais velho -, cumprindo missão estritamente políti=
ca
do ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra: vigiar de perto os
movimentos do interventor Adh=
emar
de Barros. Retornou anos depois ao Rio como coronel mas, já com
problemas de saúde que o levariam à reserva, pediu a Dut=
ra
para aposentar-se em São Paulo, onde montou escritório de
advocacia. (Essa nova mudança da família fez com que eu
terminasse me fixando na cidade e me tornasse um paulista de
coração.)
Nacionalista ferrenho, militante da causa "=
;O
Petróleo é Nosso", acostumado desde jovem a imiscui=
r-se
na política e nos grandes assuntos nacionais, como faziam
desde tempos remotos no Brasi=
l os
militares, especialmente os de sua família, meu pai acabou se
elegendo deputado federal pelo velho PTB, com apoio dos comunistas.
Receberia a segunda maior
votação da bancada. A eleição levou-o de volta =
ao
Rio, sede da Câmara dos Deputados. Findo o mandato, continuou
residindo no Rio.
Faleceu em 1965,
quando me encontrava exilado no Chile. Consegui vir ao enterro,=
no
Cemitério de São João Batista, e para aguardar a missa=
de sétimo
dia considerei conveniente refugiar-me&nbs=
p;
De uma determinada maneira, a política
permearia minha vida até nesse
momento de dor pessoal.17
É certo, porém, que a origem de c=
lasse
ou a posição política ancestral, por si só=
s,
são de pouca valia para explicar o comportamento político&nbs=
p;efetivo.
Os valores assumidos, a
evolução da cultura política, a configuraç=
ão
do jogo de poder, a posição dos atores polares desempenham&nb=
sp;papel
de maior relevância na definição dos rumos pessoais. Em qualquer hip&oac=
ute;tese,
entretanto, a "abertura mental", o comportamento tolerante, a&nbs=
p;aceitação
do outro e da diversidade político-cultural são
condições propícias para o exercício da
liderança democrática.18
17 Muitos dados sobre minha família pode=
m ser
encontrados no Dicionário históricobiográfico
brasileiro elaborado pelo Centro de Pesquisa e Documentaç&atild=
e;o
de História
Contemporânea do Brasil (CPDOC), Rio de Janeiro, Editora =
FGV,
2001. Ali há verbetes sobre meu bisavô, Felicíssim=
o do
Espírito Santo Cardoso, os tios Augusto Ignacio do Espírito Santo Card=
oso e
Carlos Cardoso, os primos Dulcídio e Ciro do Espírito Sa=
nto
Cardoso e meu pai, Leônidas Cardoso. Não há verbete&nbs=
p;específico
sobre meu avô, Joaquim
Ignacio Batista Cardoso, embora o referente a meu pai contenha
informações a seu respeito. Um resumo de sua vida
está
18 Erasmo de Roterdã ou Tomás Moro
tinham uma visão menos descarnada do poder do que Maquiavel. De=
sde
Platão a "sabedoria" foi incluída entre as vir=
tudes
necessárias para o bom
governo. Erasmo, na "Educação de um príncipe
cristão", in Conselho aos governantes, op. cit., p. 313, diz:
"Se queres mostrar que és um príncipe excelente, certifica-te que ninguém te exceda nas necessárias qualidades de sabedoria, magnanimidade, reserva e integridade.”<= o:p>
Tomás Moro, que antes de Maquiavel j&aac=
ute;
recomendava a separação entre política e moral e,
como o contemporâneo Erasmo (os dois foram amigos e Erasmo
supervisionou a
publicação da Utopia), justificava a busca da paz e da
justiça em termos racionais, não descuidou do statesmanship. =
O governo
seria o produto natural de seres
humanos genuinamente livres e responsáveis e a autoridade
derivaria do consentimento. Mais adepto de formas representativas de
governo do que das monarquias com
seus reis, Moro, seguindo Aristóteles, tinha maior
confiança nas leis do que nas paixões dos homens para
alcançar o bom governo. Moro acreditava que a lei e a
educação
constituíam os fundamentos do governo. A prudência e a&=
nbsp;tradição
cultuadas pelos líderes formariam os suportes do arcabouço&nb=
sp;institucional.
Acreditava na separação
dos poderes, nas regras da lei, na separação entre
Estado e religião, em representantes eleitos e em formas proteg=
idas
de deliberação, que deveriam ser livres e públicas.
Ver a respeito do pensamento de Moro o excelente
livro de Gerard B.
Wegemer, Thomas More on=
A democracia e o contexto social
Como veremos nos próximos capítul=
os, a
valorização da democracia e a escolha de métodos =
de
ação consentâneos com ela formam parte do "es=
pírito"
ou dos "princípios",
para falar à maneira de Montesquieu, com que procurei gu=
iar
minha ação política todo o tempo. Entretanto, at&eacut=
e; que
ponto a situação em que operei permitia eficácia das ações orien=
tadas
pelo espírito democrático? Essa questão não
é de fácil resposta, pois ela diz respeito à natu=
reza
da sociedade e do sistema político brasileiros.
A discussão clássica dessa
temática pode ser resumida apelando para a contribuiç&at=
ilde;o
de dois autores que conferem ênfase distinta à questão =
do patrimonialismo
vigente e ao papel do Estado =
e da
sociedade. Exagerando na simplificação, uma corrente, que
encontra apoio
No primeiro caso, o Estado e a burocracia
constituiriam, historicamente, os pilares da organização
nacional. Ancorado na tradição ibérica, o
19 Ver Raymundo Faoro, Os donos do poder, 3a ed.
revista, São Paulo, Globo, 2001. Caracterizando a
dominação política no Império, diz o autor:
"Não se trata de uma
classe, grupo ou camada que se apropria do Estado, do seu mecan=
ismo
burocrático, para o exercício do governo. Uma camada soc=
ial,
fechada sobre si mesma, manipula
lealdades com o cargo público, ela própria, sem
outros meios, assentada sobre posições políticas.
Entre a carreira política e a dos empregos há uma conex&atild=
e;o íntima e necessária, servindo o Es=
tado
como despenseiro dos recursos, para o jogo interno da troca de
vantagens" (p. 447). A burocracia, coluna dorsal do poder,
manterá influênc=
ia
decisiva durante a República Velha e ao menos até o Esta=
do
Novo, períodos abrangidos pela análise de Faoro.
20 Sérgio Buarque de Holanda, Raí=
zes do
Brasil, 3a ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1956.
patrimonialismo transposto para as terras ameri=
canas
confunde família e ordem pública, interesse privado e
Estado, A despeito do papel unificador da presença da burocracia imperial, portuguesa e =
logo
depois brasileira, com seus exércitos, corpos jurídicos e
meandros burocráticos, as distorções patrimoniali=
stas
estiolam a ação=
do
povo, da "sociedade civil", na busca da democracia. A socied=
ade
civil, na segunda tradição, sem negar os fatores limitat=
ivos
apontados pela anterior, é o&n=
bsp;
crisol do futuro. O terreno, para ser fértil e permitir =
que
cresça a planta tenra da ordem democrática, requer, alé=
;m
da liberdade, a construção de instituições
nas quais o "impé=
rio da
lei”
homogeneíze os seres humanos. Por isso m=
esmo,
Sérgio Buarque critica a tradição do "homem
cordial", cujas paixões particularistas levam ao arbítrio e impedem a
igualdade perante a lei.
Quem tiver lido o que escrevi para combater o
militarismo e a ditadura nos anos 1960 e 1970 verá que me empen=
hei
em caracterizar o regime menos como ditadura totalitária e mais como autoritarismo
burocrático. E nessa caracterização me opus &agra=
ve;
idéia e à prática de uma emergente "burguesia
estatal", gabada na época, como hoje, por setores ditos de esquerda que viam ne=
la os
germes do socialismo de Estado que tanto prezam. Apostei na dinâ=
mica
das ONGs, dos sindicatos, das igrejas, da imprensa livre, criando espaços
democráticos. Vem daí minha aproximação co=
m o
mundo sindical, na sustentação das greves de São Berna=
rdo
nos anos 1970 e 1980 e na proximidade que mantive com os líderes
que se esforçavam para a formação de centrais
sindicais.
Essa familiaridade com setores não domin=
antes
da sociedade brasileira começou, na verdade, bem antes: nos anos
1950, logo no início da década, participei ativamente
Na mesma década tomei parte de atividades
lideradas pelo então clandestino Partido Comunista Brasileiro (PCB) e outras
organizações de esquerda nas campanhas pela paz e "O
Petróleo é Nosso". Integrei o conselho diretor da
Revista Brasiliense com o
historiador e editor Caio Prado Júnior e o jornalista Elias Cha=
ves
Neto, bem como colaborei com a revista Fundamentos, próxima ao =
PCB.
Mas, em 1956, assinei manifestos contra a invasão da Hungria pe=
la
União Soviética e estava entre os que se horrorizaram
com os abusos e distorções do
stalinismo, tornados públicos pelo Relatório Kruschev,
apresentado em 1954 ao PC soviético pelo secretário-geral
Nikita Kruschev.21 Não
sacrifiquei minhas convicções democráticas no alt=
ar
do igualitarismo autoritário. Mais igualdade, sim, mas nã=
;o
ao preço de mais Estado autoritário-burocrático e menos liberdade individual e
coletiva.
Mantendo as preocupações com a
democracia e com a luta por maior igualdade - sempre sob a
liderança intelectual de Florestan Fernandes -, escrevi teses de
mestrado e doutorado sobre a =
sociedade
escravocrata no Sul do Brasil. Nas pesquisas sobre as
relações entre negros e brancos em Porto Alegre e Pelotas
(RS), Florianópolis (S=
C) e
Curitiba (PR) - e, também, ajudando as pesquisas de Florestan e=
do
grande mestre francês da sociologia Roger Bastide nos
cortiços de São Paulo -, conheci de perto favelas, bairros pob=
res,
clubes de negros. Senti sua revolta com a discriminação =
e o
preconceito. Vi a cara sofrida do Brasil que quase não aparecia
nas posições dos
políticos e mesmo nas análises de muitos intelectuais. P=
or
isso, sempre achei engraçado quando nas campanhas eleitorais os
adversários procuraram me
caracterizar como alguém de punhos-de-renda, com
dificuldades em falar com o povo e por ele ser entendido e que desconh=
ecia
o lado da pobreza e da miséria que se abatem sobre milhõ=
es
de brasileiros. Não apenas passei boa parte da vida acadé=
;mica
lidando com esses problemas, como sociólogo "de campo", co=
mo tentei,
como Presidente, entendê=
;-los
em maior profundidade para adotar políticas que, sem demagogia,
pudessem enfrentá-los.22
21 Recordo-me de visita que fizemos naquela
época, o jornalista Fernando Pedreira, o advogado Agenor Barreto
Parente e outros mais, a Paulo Emílio Salles Gomes, conhecido intelectual, militante
político e, sobretudo, crítico de cinema,
recém-chegado da França. Relatamos nossa perplexidade di=
ante
do stalinismo, e ele, irônico
e quase cético, redarguiu: "Mas, só
agora?..." Paulo Emílio, muitos anos antes, se opusera aos
mesmos horrores. Parece, disse ele, que cada geração repete&n=
bsp;o
ciclo da
"ilusao-desilusão". Esse ciclo, penso eu, agora acabou, pe=
lo menos
no que diz respeito aos supostos êxitos do mundo soviético.
22 Ainda seguindo essa linha de
preocupação: a primeira pesquisa sobre desemprego na cid=
ade
de São Paulo, realizada em 1954 pela Secretaria do Trabalho do
governo do estado, foi coorde=
nada
por um pequeno grupo, do qual participava a antropóloga Ruth
Corrêa Leite Cardoso. (Eu a conhecera no vestibular para a Facul=
dade
Em minha primeira campanha presidencial, dois e=
pisódios
se encaixam nesse cliché do suposto punhos-de-renda lidando
canhestramente com realidades "populares" que lhe são alheias: o do jegue=
em
Alagoas e o da buchada de bode em Pernambuco.
O caso do jegue - na realidade, um cavalo - oco=
rreu
O caso da buchada de bode aconteceu perto de
Petrolina (PE). Petrolina é reduto da família Coelho - a
mesma do falecido ex-governador e ex-presidente do Senado Nilo Coelho -, que me recebeu no curso =
da
de Filosofia, Ciências e Letras, em 1948,=
no
qual ela foi aprovada em primeiro lugar. Casamo-nos em 1952.) Na pesqu=
isa
sobre desemprego, coordenei o levantamento de campo.
Meu primeiro trabalho profissional como pesquis=
ador,
ainda quando aluno, foi para o sociólogo Alberto Guerreiro Ramo=
s,
que preparou para o Serviço Nacional da Indústria (Senai) um levantamento sobre
evasão escolar na cidade de São Paulo. Coube-me fazer as
entrevistas nas casas dos alunos, nos bairros operários de
então, como Moóca,
Vila Prudente e Ipiranga. Antes disso, realizei uma pesquisa pa=
ra a
cátedra de Roger Bastide, em Araraquara e
campanha. Após um último compromi=
sso,
à noite, em que, sob uma iluminação precár=
ia,
discursei de cima de um caminhão para um pequeno grupo de pesso=
as,
fomos levados para jantar na =
casa -
casa modesta do interior do Brasil, mas acolhedora e de boa comida - d=
e um
aparentado e correligionário dos Coelho. E aí serviram u=
ma
buchada. Lembro-me de que&nbs=
p;o
jornalista Tales Faria, da Folha de S. Paulo, um dos repórteres que&=
nbsp;acompanharam
aquela viagem, me perguntou:
- O senhor vai comer isso aí? O senhor g=
osta
disso? Respondi:
- Ué, você não vai comer? I=
sso,
na França, se chama tripés à Ia mode de Caen. Todo
mundo lá vai a restaurante de caminhoneiro para comer, e se del=
icia.
Por que você não=
gosta
de buchada?
Naquela noite, em Pernambuco, não se tra=
tou de
demagogia, como alegaram adversários e alguns críticos na
imprensa. O fato é que, episódio à parte, gosto de
buchada. Cheguei a servir buc=
hada
certa vez, num almoço no Alvorada. Mas havia o estereóti=
po:
uma pessoa como eu não pode andar a cavalo e jamais comer um pr=
ato
como aquele. Da mesma forma c=
omo,
em minha primeira campanha ao Senado, achavam que iria passar mal depo=
is das
obrigatórias incursões por botequins e padarias - logo eu,
que sou louco por um son=
ho de
padaria.
Daquela época muito anterior à mi=
nha
campanha presidencial, em que vislumbrei o rosto sofrido do Brasil dur=
ante
minha pesquisa sobre relações entre brancos e negros no Sul, para hoje, há um ab=
ismo
nas condições da vida política, e não
só em nosso país. De alguma maneira a caracterizaç=
;ão
da sociedade, dos regimes políticos e das qualidades requeridas par=
a o
exercício da liderança, tais como mencionadas anteriorme=
nte
por alguns autores clássicos, sofreram modificações&nb=
sp;profundas
com o advento das sociedades =
de
massa e com a atuação dos modernos meios de comunica&cce=
dil;ão.
Os trabalhos de filosofia política clássica a que aludi
antes, embora tenham colocado as
questões centrais sobre poder e moral, se referem a um contexto
histórico que não prevalece. Mesmo as
observações de Marx e sua análise da
dominação de classe,&nb=
sp;
com os desdobramentos posteriores, de Lênin, de Gramsci e de&n=
bsp;tantos
outros, sobre a moral revolucionária e sobre o partido-Prínci=
pe, foram
perdendo vigência no decorrer
do século XX.
A busca contínua da legitimaç&ati=
lde;o
As formas de organização da socie=
dade,
a evolução da produção capitalista, a
emergência dos partidos classistas, a bifurcação entre =
a revolução
e a social-democracia e, mais
recentemente, o ressurgimento do que se chamou de neoliberalismo, com a
supremacia dos mercados e a redução dos poderes estatais,
modificaram as condições&nbs=
p;
para o exercício da política e da lideranç=
a. A
partir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), porém mais
especificamente ainda, depois dos anos 1970 e 1980 - e não apenas por causa da queda do Muro =
de
Berlim, em 1989, e do fim da bipolaridade mundial -, houve uma ruptura=
com
as condições que prevaleciam até então. A
revolução dos
transportes, facilitando os contatos comerciais, políticos e
culturais e, sobretudo, a revolução nos meios de
comunicação e o advento da Internet redesenharam as condições or=
ganizacionais
e culturais do mundo.
O fenómeno da globalização=
, um
capitalismo das corporações multinacionais, baseado na
dispersão da produção, na homogeneização=
dos gostos
que leva à padronização dos produtos (e vice-versa) e no&n=
bsp;encadeamento
de inovações tecnológicas em perpétua
mutação, redesenhou as perspectivas de desenvolvimento d=
os
países. A concentração dos recursos de capital nas
regiões já desenvolvidas e o deslocamento rápido =
dos
fluxos financeiros aumentaram as incertezas. A incapacidade desse novo
mundo (horroroso ou nã=
o)
para diminuir as assimetrias entre os Estados nacionais e entre os pov=
os,
quando não dentro de cada país, redesenhou as perspectiv=
as
da vida de todos e colocou no=
vas
dúvidas e novos desafios.
Os antigos Estados-nação do
século XIX, embora não desapareçam e mantenham o
controle sobre o território, perdem preeminência como pó=
;los aglutinadores
de esperanças. As
instituições políticas que deram base à de=
mocracia
(os partidos, os parlamentos e a ideologia liberal) e mesmo as
instituições clássicas da sociedade civil (como os sindicatos e as igrejas)
tornaram-se insuficientes para encaminhar as demandas e dar legitimida=
de
à ação dos políticos. A difusão da Inter=
net
e a formação do que o sociólogo espanhol Manuel
Castells, professor nos EUA, qualificou como as "sociedades em
rede" criam novas formas de sociabilidade, que saltam as
muralhas dos territóri=
os
nacionais e as barreiras de lealdade dos grupos
de interação primária, nos=
quais
as relações se dão face a face, como a famí=
;lia,
os grupos de trabalho ou os partidos e igrejas.23
As expectativas da sociedade e o papel dos
políticos e das instituições estão, portan=
to,
se redefinindo. Os processos que serviram de base para a
revolução democrática=
em marcha desde o fim do século XIX ganharam novos
contornos. As diferenças de valores e estilos de comportamento =
entre
as diversas camadas sociais diminuíram, ainda que as posições de&n=
bsp;classe
e a concentração da riqueza não tenham sido afetadas d=
o mesmo modo.
Entre a Segunda Guerra Mundial e o advento da globalização,&n=
bsp;consolidouse o que os sociólogos chamam =
de
"sociedades de massa". A produção industrial em
grande escala e a difusão dos meios de comunicação
tornaram possível, em vários países, que se aspirasse a ascender
à cidadania.
Atualmente, com a Internet e com sinais da
formação de uma "sociedade civil
planetária",24 talvez seja insuficiente e impreciso falar em&nb=
sp;"cidadania"
ou mesmo em uma cultura
"cívica". Por cívica sempre se entendeu, etimo=
lógica
e conceitualmente, uma cultura que liga o cidadão à cida=
de
ou, estendendo o conceito, à República. A generalização da&n=
bsp;cidadania
levou à busca de algum tipo de comportamento institucional, exp=
andindo
e redefinindo o âmbito das relações entre Estado e
sociedade.
Nos dias de hoje a dinâmica da vida
política é conferida (não exclusivamente, est&aac=
ute;
claro) por movimentos sociais, por ONGs e por movimentos de opini&atil=
de;o
aparentemente sem base
institucional maior. Na verdade, as instituições
tradicionais estão sendo complementadas pelo que se chama de
"protocolos" que permitem e regulam as
comunicações em=
rede,
O próprio ato da comunicação em rede cria o liame entre
pessoas e mesmo entre grupos e instituições, tanto no
espaço nacional como no internacional. Ocorrem, intermitentemente, novas formas de=
relacionamento
entre os povos e os países, criando um espaço democrát=
ico onde
se vislumbra a formação de uma opinião pública
global mais atuante.
23 Manuel Castells, A era da
informação: economia, sociedade e cultura, volume l, A
sociedade em rede, e volume 2, O poder da identidade, São Paulo,
Paz e Terra, 1999, Ver ainda =
La
galáxia Internet, Barcelona, Aretè, 2001, e o segundo vo=
lume
da nova edição de seu livro básico, The Power
ofldentity, Londres, Blackwell, 2003.
24 Sobre esse ponto, além da já c=
itada
obra de Castells, ver Bruce Rodney Hall e Thomas Bersteker, The Emerge=
nce
of Private Authority in Global Governance, Cambridge (Inglaterra), Cambridge University
Press, 2002.
61
Obviamente, como mostrou Castells, esses novos =
tipos
de relacionamento não tornam evanescentes o Estado e as velhas
instituições nacional-democráticas (como os parti=
dos)
nem as da sociedade civil (sindicatos, associações,
igrejas). Mas, em certas circunstâncias - e a expressão
é minha -, "desenraízam" as pessoas, inclusive de
posições hierárquicas, dando margem a conflitos de
novo tipo. O "quem manda, quem obedece e em nome do quê&quo=
t;
(temática tradicional da filosofia e da ciência
política)25 tende a se redefinir. As condições
técnicas da comunicação impõem sua
lógica às formas de sociabilidade e aos processos de
lealdade e de legitimação. Esses, obviamente, continuam a ser=
fundamentais,
sofrendo, entretanto, uma mutação muito mais profunda do =
;que
simplesmente
formal.
Reitero: não se trata de pensar a
política democrática sem os partidos, ou a
organização da sociedade civil dispensando a açã=
;o
do Estado, e muito menos contar com um mercado onipotente como regulad=
or
da sociedade. O mercado, aliás, sofre pressões antes
desconhecidas, por parte das ONGs, dos movimentos de consumidores, dos
ambientalistas etc.
e por parte do próprio Estado. Este proc=
ura se
modificar para ampliar sua capacidade de regulação sobre=
um
conjunto de novos temas (como meio ambiente, direitos do consumidor ou
minorias) e processos complexos, como os fluxos financeiros ou os
protocolos de comunicação.
A nova política, e por conseqü&ecir=
c;ncia
os políticos, tem de se haver com "bichos novos", ato=
res
interagindo em novas situações. Tudo isso altera o
exercício democrático do mando. Tão logo eleitos, os
representantes do povo, sobretudo quando no Executivo, sentem como
é insuficiente o apelo à base racional-legal para legiti=
mar
o exercício do poder (a Constituição, a
eleição, os fundamentos jurídicos da decisão
tomada). É preciso
25
Max Weber, a partir da indagação =
sobre
o porquê do subordinado, do súdito obedecer ao superior, =
ao
senhor, fez distinções entre os tipos de poder: o
tradicional, o racional-legal e o carismático. Enquanto Montesq=
uieu
se preocupou com o funcionamento dos regimes, Weber quis explicar como=
o
poder se "legitima", ou seja, é aceito como válido =
por quem
obedece. A santidade da tradição, a adequação a
normas pactuadas e objetivas ou a força não rotineira de=
um
líder que inaugura uma ordem nova servem de fundamento, em cada
caso, segundo Weber, para aceitar a autoridade legítima de quem
manda.
explicar e convencer a opinião pú=
blica
sobre a justeza de cada decisão, em uma busca incessante de
consentimento genérico, de legitimidade difusa, em um processo
contínuo de interação entre os poderosos e a popu=
lação.
Deixou de ser suficiente ter obtido dezenas de milhões de votos=
em
uma eleição. No dia seguinte, o eleito recomeça quase =
do
zero.
E o instrumento para obter a aprovaç&ati=
lde;o
democrática é a palavra, sempre ao lado da imagem.
Para dizer de outra maneira: nos dias de hoje a
democracia é um processo do qual os cidadãos querem
participar não somente no ato de votar ou mesmo de aprovar (com=
o,
por exemplo, em um plebiscito), mas de deliberar. Foi o economista e
cientista social norte-americano nascido na Alemanha Albert Hirschman =
quem
melhor salientou esse aspecto da formação da opini&atild=
e;o
democrática. Contrapondo-se à tradição que valo=
riza o
ter uma opinião vigorosa e rígida, ele salienta a
importância das opiniões não se formarem antes, mas
durante o processo de discussão e deliberação.
Portanto, as mentes abertas, os espíritos psicologicamente mais
dispostos à convergência e à transigência, que
favorecem o diálogo, seriam mais condizentes com a
condução e a durabilidade do jogo democrático. Em=
vez
de opiniões peremptórias, diz Hirschman, é melhor =
;para
a democracia contar com líderes e seguidores de índole &=
quot;persuadível",
abusando de um neologismo extraído da obra poética da es=
critora
inglesa Jane Austen.26
Essa reviravolta do mundo contemporâneo t=
ornou
Cícero, no elogio da retórica como fundamento da
educação do Príncipe, outra vez referência.=
27
Para Cícero o modo de vida mais nobre era a devoção&nb=
sp;virtuosa
ao serviço público. A amizade entre os homens, a boa vontade,=
permite
que o bom governo se baseie na cooperação livre dos
cidadãos.
Para que esses valores sustentem a Repúb=
lica
é necessário que existam leis e que as pessoas estejam
convencidas de sua validade, o que requer que os homens públicos
sejam capazes de usar a razão e a emoção. O jogo =
entre
essas duas qualidades se desenvolve por meio do que se chamava de &quo=
t;retórica"
base
26 Ver Albert Hirschman, "Opiniões
peremptórias e democracia", especialmente p. 94-
27 Sobre Cícero, ver o já citado =
livro
de G, Wegemer, cap. 6.
Obviamente, como mostrou Castells, esses novos =
tipos
de relacionamento não tornam evanescentes o Estado e as velhas
instituições nacional-democráticas (como os parti=
dos)
nem as da sociedade civil (sindicatos, associações,
igrejas). Mas, em certas circunstâncias - e a expressão
é minha -, "desenraízam" as pessoas, inclusive de
posições hierárquicas, dando margem a conflitos de
novo tipo. O "quem manda, quem obedece e em nome do quê&quo=
t;
(temática tradicional da filosofia e da ciência
política)25 tende a se redefinir. As condições
técnicas da comunicação impõem sua
lógica às formas de sociabilidade e aos processos de
lealdade e de legitimação. Esses, obviamente, continuam a ser=
fundamentais,
sofrendo, entretanto, uma mutação muito mais profunda do =
;que
simplesmente
formal.
Reitero: não se trata de pensar a
política democrática sem os partidos, ou a
organização da sociedade civil dispensando a açã=
;o
do Estado, e muito menos contar com um mercado onipotente como regulad=
or
da sociedade. O mercado, aliás, sofre pressões antes
desconhecidas, por parte das ONGs, dos movimentos de consumidores, dos
ambientalistas etc.
e por parte do próprio Estado. Este proc=
ura se
modificar para ampliar sua capacidade de regulação sobre=
um
conjunto de novos temas (como meio ambiente, direitos do consumidor ou
minorias) e processos complexos, como os fluxos financeiros ou os
protocolos de comunicação.
A nova política, e por conseqü&ecir=
c;ncia
os políticos, tem de se haver com "bichos novos", ato=
res
interagindo em novas situações. Tudo isso altera o
exercício democrático do mando. Tão logo eleitos, os
representantes do povo, sobretudo quando no Executivo, sentem como
é insuficiente o apelo à base racional-legal para legiti=
mar
o exercício do poder (a Constituição, a
eleição, os fundamentos jurídicos da decisão
tomada). Ê preciso
25 Max Weber, a partir da indagaçã=
;o
sobre o porquê do subordinado, do súdito obedecer ao
superior, ao senhor, fez distinções entre os tipos de po=
der:
o tradicional, o racional-legal e o carismático. Enquanto Monte=
squieu
se preocupou com o funcionamento dos regimes, Weber quis explicar como=
o
poder se "legitima", ou seja, é aceito como válido =
por quem
obedece. A santidade da tradição, a adequação a
normas pactuadas e objetivas ou a força não rotineira de=
um
líder que inaugura uma ordem nova servem de fundamento, em cada
caso, segundo Weber, para aceitar a autoridade legítima de quem
manda.
explicar e convencer a opinião pú=
blica
sobre a justeza de cada decisão, em uma busca incessante de
consentimento genérico, de legitimidade difusa, em um processo
contínuo de interação entre os poderosos e a popu=
lação.
Deixou de ser suficiente ter obtido dezenas de milhões de votos=
em
uma eleição. No dia seguinte, o eleito recomeça quase =
do
zero.
E o instrumento para obter a aprovaç&ati=
lde;o
democrática é a palavra, sempre ao lado da imagem.
Para dizer de outra maneira: nos dias de hoje a
democracia é um processo do qual os cidadãos querem
participar não somente no ato de votar ou mesmo de aprovar (com=
o,
por exemplo, em um plebiscito), mas de deliberar. Foi o economista e
cientista social norte-americano nascido na Alemanha Albert Hirschman =
quem
melhor salientou esse aspecto da formação da opini&atild=
e;o
democrática. Contrapondo-se à tradição que valo=
riza o
ter uma opinião vigorosa e rígida, ele salienta a
importância das opiniões não se formarem antes, mas
durante o processo de discussão e deliberação.
Portanto, as mentes abertas, os espíritos psicologicamente mais
dispostos à convergência e à transigência, que
favorecem o diálogo, seriam mais condizentes com a
condução e a durabilidade do Jogo democrático. Em=
vez
de opiniões peremptórias, diz Hirschman, é melhor =
;para
a democracia contar com líderes e seguidores de índole &=
quot;persuadível",
abusando de um neologismo extraído da obra poética da es=
critora
inglesa Jane Austen.26
Essa reviravolta do mundo contemporâneo t=
ornou
Cícero, no elogio da retórica como fundamento da
educação do Príncipe, outra vez referência.=
27
Para Cícero o modo de vida mais nobre era a devoção&nb=
sp;virtuosa
ao serviço público. A amizade entre os homens, a boa vontade,=
permite
que o bom governo se baseie na cooperação livre dos
cidadãos.
Para que esses valores sustentem a Repúb=
lica
é necessário que existam leis e que as pessoas estejam
convencidas de sua validade, o que requer que os homens públicos
sejam capazes de usar a razão e a emoção. O jogo =
entre
essas duas qualidades se desenvolve por meio do que se chamava de &quo=
t;retórica",
base
26 Ver Albert Hirschman, "Opiniões
peremptórias e democracia", especialmente p. 94-
para o convencimento. A obediência n&atil=
de;o
será obtida pelo medo e pela coerção, e sim pela
razão e pelo amor, construídos por uma espécie de =
;diálogo
socrático, que seria o apanágio da liderança.
Também Hobbes, que escreveu muito tempo depois de Cícero,
é uma referência atual em seu insuperável elogio da
fala e do uso das palavras.28
A palavra, nos dias de hoje, é a "m=
ensagem"
e o meio de sua difusão é eletrônico e não =
mais
o púlpito ou a tribuna. Os efeitos do rádio (e, posterio=
rmente,
da TV) já se faziam sentir na "política de massas",=
que caracterizou
as mobilizações fascistas e autoritárias de modo geral=
e que
serviu de argamassa ao populismo terceiro-mundista. Agora é a p=
rópria
política democrática que apela a esses meios e à Inter=
net.
Tudo ocorre em tempo real, a despeito da distância física,
mas com uma diferença: a Internet é essencialmente
interativa e pouco a pouco o rádio, a TV e mesmo o jornal e a
revista vão criando espaços democráticos para &qu=
ot;o
outro lado" para a
reação das pessoas.
As colocações de Habermas29 sobre=
a
criação de um "espaço democrático”
ajudam a entender esse processo, requerendo,
porém, uma interpretação cuidadosa. Não se
pode pensar em uma agora contemporânea formada por institui&cced=
il;ões
ao velho estilo dos círculos de opinião, com novas roupa=
gens,
como se as ONGs ou outras instituições da sociedade civil&nbs=
p;constituíssem
a "boa sociedade". Elas existem, atuam e são indispen=
sáveis
porque expressam as diferenças de interesse dos grupos, a diver=
sidade
de pontos de vista e os conflitos entre eles.
28 Ver Thomas Hobbes, Leviathan,
tradução para o inglês do original em latim (de 16=
51),
publicado pela Encydopaedia Britannica, Chicago (EUA), 1952, cap. 4,
"Of Speech", que se lê até hoje com deleite.
Para ele, a justiça normativa, os
juízos morais devem pretender uma validade análoga &agra=
ve;
da verdade. Para os propósitos mais modestos da discussão
deste livro, a obra fundamental de Habermas é The Structural Tr=
ansformation
ofthe Public Sphere, Cambridge (Inglaterra), Cambridge University Pres=
s,
1989.
Por reconhecer essa diversidade e seu car&aacut=
e;ter
conflituoso Castells foi quem melhor compreendeu a dinâmica das
sociedades em rede no quadro da globalização. Com as red=
es
globais de riqueza, poder e informação,30 o Estado-na&cc=
edil;ão
moderno vem perdendo boa parte de sua soberania, sustenta o autor. Da
mesma maneira, o movimento trabalhista perde força quando o Est=
ado
abre mão da seguridade social como função legitimadora=
. As ideologias
políticas, desde o liberalismo democrático baseado no Es=
tado-nação
ao socialismo fundado no trabalho, esvaziam-se de significado. Sendo
assim, esmaecidas essas instâncias legitimadoras, tem-se a
impressão de que sobram as "expectativas racionais" dos&nb=
sp;mercados
para justificar o poder em sociedades cuja economia se baseia em
informações sobre fluxos financeiros intercomunicados em tempo
real.
Seria uma espécie de "barbár=
ie
contemporânea".
Como contrapeso à ameaça dessa
barbárie pela via pseudo-racíonal do mercado
internacionalizado, formam-se mensagens políticas reativas de t=
rês
tipos: a volta ao nacionalismo, fechando as fronteiras económicas,&n=
bsp;fortalecendo
o Estado e as burocracias e reforçando as tradições&nb=
sp;culturais
para resistir à pressão avassaladora do cosmopolitismo; a&nbs=
p;busca
de "identidades de resistência", retraídas em
"paraísos comunais”
formados por pessoas que se opõem &agrav=
e;
exclusão económica, cultural e política, e
constituídas em oposição aos "cidadãos do =
mundo",
indivíduos sem identidade específica que participam das
elites globais dominantes;
e, por fim, dado que esses elementos
contraditórios não convivem pacificamente na so-
30 Castells diz que o poder "não ma=
is se
concentra nas instituições (o Estado),
organizações (empresas capitalistas) ou mecanismos
simbólicos de controle (mídia corporativa, igrejas). Ao
contrário, está difundido em redes globais de riqueza,
poder, informações e imagens, que circulam e passam por
transformações em um sistema de geometria variável e&n=
bsp;geografia
desmaterializada", mas o poder não desaparece (ver O poder da&n=
bsp;identidade,
p. 423). Esta definição esclarece o porquê de outras&nb=
sp;observações
de Castells incluídas no texto do livro. Obviamente, como o pr&=
oacute;prio
autor nos adverte em outras passagens de suas obras, essas novas forma=
s de
exercício do poder não extinguem as anteriores; mas a
dinâmica do sistema e seu futuro dependem da evoluç&atild=
e;o
delas. Em suma, traduzindo:
"O novo poder se baseia nos códigos=
de
informação e nas imagens de representação =
ao
redor dos quais as sociedades organizam suas instituiçõe=
s e
o povo constrói sua vida e decide seu comportamento. Este poder=
se
localiza na mente das pessoas" (p. 425).
ciedade, surgem as "identidades de projeto=
"
constituídas pelos que, também atuando em rede, desejam
refazer a sociedade civil global e local e as
formas de controle público.
Essas identidades de projeto, acrescento eu, lu=
tam
para criar um novo Estado, uma nova ordem democrática mundial. =
Tal
projeto será construído, segundo Castells, a partir das
identidades de resistência e não das identidades da socie=
dade
civil, próprias da era industrial. Das energias geradas pelos
movimentos ambientalistas, feministas e outros do género encont=
raremos
nosso caminho de Damasco.31 Essa "identidade de projeto”
tem algo a ver com uma releitura do Gramsci de =
Carias
do cárcere?2 como faz Castells na reedição revist=
a de
seu livro fundamental, em uma espécie de renascimento da
idéia de hegemonia, não mais baseada no partido-Pr&iacut=
e;ncipe,
mas na mobilização difusa e participativa, mais espont&a=
circ;nea
e, portanto, menos previsível, dos que acreditam em um mundo me=
lhor.33
Meus caminhos para a política
Voltando ao plano pessoal: houve muito de
casualidade, mas fui treinado, sem que esse fosse o propósito, =
para
atuar em um mundo político em transformação.
Construí paulatinamente as qualidades que a sorte transformou em
atributos para o mando numa democracia.34
essai de sociologie, Paris, Fayard, 1984 (Mouve=
-
ments, 3).
32 António Gramsci, Cartas do cár=
cere,
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005,2 v.
33 Ver Manuel Castells,=
The
Power ofldentity, op. cit., especialmente o item "The Crisis of t=
he
Nation-state, the Network-state and the Theory of the State", no
qual, discutindo com David Held, Castells reelabora sua teoria, mostra
como as redes de poder se conectam com os níveis regionais e lo=
cais
e retoma a idéia gramsciana de "bloco de poder"
para reafirmar que cada "territorial levei ofthe state expresses =
the
alliance ofspeáfic social interests and values that, together,
constitute what Gramsci called the power bloc, underlying the actual
power instítutionalized in the state" (p. 359).
34 Recordo-me do espanto de Albert Hirschman, g=
rande
intelectual que abriu perspectivas para várias geraç&oti=
lde;es,
quando assistiu a uma intervenção minha em reuniã=
o da
Passei boa parte da vida como professor. Comece=
i, aos
20 anos, no Colégio Estadual Fernão Dias, no bairro de
Pinheiros,
Posteriormente, por vontade própria ou
razões políticas, passei vários anos ensinando no
Chile, na França, nos EUA e na Grã-Bretanha, além de&n=
bsp;ter
ministrado breves cursos em outros países da América Latina.
Não dominando plenamente o espanhol e o inglês, não
podia desperdiçar tempo me enredando em floreios e
adjetivações em minhas exposições. Ia direto&nb=
sp;ao
ponto, não por virtude, e sim por falta de maiores recursos verbais.=
Na Faculdade de Filosofia, professores francese=
s nos
haviam ensinado a redigir com a clareza possível. Recordo as au=
las
de ciência política de Charles Morazé, que nos faz=
ia
ler jornalistas de bom texto da época - um deles, cujos artigos
recomendava insistentemente, era Assis Chateaubriand - para aprendermo=
s a
ser sucintos e claros. Havendo passado pelos liceus da França,
nossos professores não esqueciam que um bom trabalho escolar
começa com uma introdução, na qual se enunciam o =
tema
e as questões principais, desdobrando-se em seguida as questõ=
es para
tratá-las uma a uma (separando-as, devidamente, com A, maiúsc=
ulo, seguindo-se
a análise do tema em partes marcadas a, b, c, d etc., para, na
próxima questão, repetir o procedimento com B, e assim por
diante) e, nas conclusões, voltando-se ao enunciado na
introdução, dessa feita esclarecido, enriquecido e
sintetizado. Não tenho a pretensão de ter aprendido bem o
que me
SBPC, realizada em Brasília, em 1976. No=
auge
do autoritarismo, eu criticava com veemência e mesmo com
contundência os desmandos do regime.
Ao viajarmos juntos para o interior de Goi&aacu=
te;s -
fomos visitar a antiga cidade de Goiás de meus ancestrais -,
Hirschman me disse, um tanto ironicamente: "Hoje ouvi o tribuno,
coisa que não sabia que você era...”
ensinaram, embora a preocupação c=
om a
lógica expositiva tenha ficado subconscientemente em mim e o
esforço para melhorá-la também.
Um professor que se preze é avesso &agra=
ve;
demagogia, pelo menos à mais fácil.
Tendo pertencido à escola de Florestan
Fernandes, aprendi que tampouco é admissível a
confusão entre ensinar e pregar ideologias ou mesmo convic&cced=
il;ões
políticas
faltara-me o ânimo mais acalorado, um
desempenho mais espetacular.
Estavam enganados. O defeito que freqüente=
mente
me atribuíram no decorrer da vida, o de ser
"professoral", quando temperado pelo hábito de falar =
com
recursos verbais destinados a públicos distintos, pode preencher
algumas das expectativas contemporâneas. A TV, um "meio frio&quo=
t;, como
é injustamente acoimada, e mesmo o rádio, em que os locutores
são explicadores da vida cotidiana, requerem mais a
argumentação não floreada do que os arroubos dos
comícios. Falei em muitíssimos comícios.
Alguns juntando centenas de milhares de pessoas=
, como
os da campanha pelas eleições diretas. Confesso que
não ficava à vontade nessas ocasiões. Para minha
sorte, porém, a política contemporânea se pratica =
crescentemente
pela TV e pelo rádio, ou então em pequenos círculos e =
em conferências,
em que me sinto como em uma sala de aula.
O que conta efetivamente para o êxito dos=
que
desempenham os papéis principais na política atual &eacu=
te;
a capacidade de transmitir uma mensagem.
A política lida com conteúdos
simbólicos e os líderes buscam exer-
cer a forma moderna do que Gramsci chamava, com=
outra
conotação, de hegemonia cultural. Isso requer qualidades=
de
"ator", que não se dissociam da experiência
prévia de cada um. Há os que, como Lula - e Teotôn=
io
Vilela também era assim -, conversam com o público, mesmo nos=
comícios;
"arengam", como se diria antigamente. Há os que ainda
mantêm a postura literalmente espetacular de um Jânio Quad=
ros
e, com a imagética rica, a gesticulação e a lingu=
agem
corporal, "dizem algo" aos espectadores. Há vá=
rias
maneiras de atuar, mas para exercer a liderança é
indispensável ter mensagens e ser capaz de transmiti-las.
Quando o sentido da comunicação
é substituído pela demagogia escancarada, surge, de
imediato, o vazio da mensagem. É o que se passa freqüentem=
ente
com políticos tradicionais. Por esmerados que sejam na sintaxe =
e na
prosódia, dificilmente convencem e são logo descartados da&nb=
sp;cena
principal, se não usam artifícios adicionais.
Boa parte da construção dos
"marqueteiros", dos publicitários que trabalham para
partidos e políticos, consiste em criar uma atmosfera, com imag=
ens
e slogans, para substituir o ator principal, quando este é mau =
no
desempenho, ou para reforçar as mensagens daqueles que as têm =
e sabem
como transmiti-las. Em qualquer caso, os políticos contemporân=
eos, pelo
menos os mais significativos, tornaram-se mais "atores" do que&nb=
sp;nunca.
Devem simbolizar uma mensagem e, ao mesmo tempo, precisam despertar
confiança e, chegando ao poder, realizar algo que atenda às&n=
bsp;expectativas
despertadas.
Nesse jogo entre simbolismo e
realizações práticas, o político precisa s=
er
capaz, pela intuição ou pelo conhecimento, de elaborar e
transmitir uma "visão" dos problemas que enfrenta, uma
visão da sociedade e do país. Quando se trata de
políticos de expressão nacional, dados os condicionantes=
da
globalização, devem possuir algum tipo de "sentimento&nb=
sp;do
mundo".
Aqui cabe novamente a ressalva: os caminhos
são muitos. No meu caso, como "sociólogo de campo&q=
uot;
e como alguém que, por circunstâncias, participa de uma
cultura cosmopolita, sempre que pude, "dei aulas" no exerc&i=
acute;cio
da Presidência e liguei o particular, o fato do dia, a questão=
em
pauta, ao mais geral, ao condicionamento do mundo globalizado.
Insisti em repensar os temas, sobretudo os refe=
rentes
à definição das políticas
para atender ao interesse nacional em um mundo =
novo.
Por isso também, sendo chefe de partido (e freqüentemente =
de
partidos), nunca deixei que o jogo político partidário,<=
span
style=3D'mso-spacerun:yes'> necessário e cansativo, esg=
otasse
o âmbito da política. Por "indigesto" que fosse=
o
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), por exemplo, procu=
rei
tratá-lo como um dos&n=
bsp;novos
movimentos da sociedade. Tentei dialogar com seus dirigentes, nos limi=
tes
da lei, mesmo quando, por exemplo, militantes invadiram a fazenda que<=
span
style=3D'mso-spacerun:yes'> pertencia à minha fam&iacut=
e;lia
em Buritis, no noroeste de Minas Gerais. Confesso, entretanto, que por
mais que os recebesse e me esforçasse para apoiar o programa
de reforma agrária, o
diálogo revelou-se impossível. Lembro-me de que, na prim=
eira
reunião que tive com dirigentes do MST no Planalto, eles deixar=
am
logo claro que pretendiam antes provocar um fato na mídia do que
dialogar. Era um pequeno grupo, e logo no início do encontro um
deles, que portava a bandeira verde, branca e vermelha do movimento, perguntou:
- Podemos abrir a bandeira? Respondi:
- Não! Bandeira, aqui, só a do Br=
asil.
Não pode, não.
De outra feita, o grupo, em atitude típi=
ca,
entrou em minha sala sem tirar os bonés com o logotipo do
movimento, atitude distante da que se espera de quem tem uma audiência no gabinete
presidencial, seja quem for o Presidente. Estavam os principais
dirigentes, entre os quais João Pedro Stédile e Jos&eacu=
te;
Rainha Júnior. Logo no
começo, um integrante do grupo dirigiu-se a mim de manei=
ra
desrespeitosa, chamando-me de "Fernando" Olhei para ele e di=
sse,
cortando o tom inadequado:
- O senhor está falando com quem?
Como revelarei em outro capítulo,
porém, tive contatos semi-sigilosos com o movimento. O MST pert=
ence
a um nicho de resistência à modernidade e é portad=
or
de uma utopia regressiva, como
qualifico sua ideologia, que olha pelo retrovisor. Entretanto, a despe=
ito
de sua vontade e propósitos, é sinalizador de um problema
real: os sem-terra existem e =
a pobreza
rural é um fato. Por essa razão, a despeito das crític=
as
dos que consideram um desperdício aplicar recursos nos
assentamentos rurais, bem como dos que afirmam que nada se realizou em=
meu
governo pela reforma agrária, desapropriei cerca de 20
milhões de hectares de terra, mais do dobro do
realizado até então. Recebi os
líderes do MST no Planalto em mais de uma ocasião e, com
mais freqüência, os dirigentes da Confederação
Nacional dos Trabalhadores na
Agricultura (Contag).
O simbolismo de quem exerce o poder está
contido em cada gesto, em cada modo de comportamento. Republicanos e
democráticos como são meus valores - e nisso fui
estimulado e acompanhado por =
minha
família -, procurei não transformar o cotidiano da
Presidência (afora as solenidades protocolares) em algo distinto=
da
vida de um professor
universitário.
Procurei ouvir os que tiveram acesso a mim, o q=
ue com
freqüência era entendido como se eu estivesse sempre de aco=
rdo
com o interlocutor, quando apenas&nbs=
p;
não o queria inibir com a "autoridade formal" do&nb=
sp;Presidente.35
Jamais permiti que o tom da voz ou a rispidez no trato tolhessem as
opiniões do interlocutor. E sempre&=
nbsp;
achei graça dos que, saudosos do autoritarismo, vez por
outra cobravam do Presidente um murro na mesa... Se caísse nessa
tentação, emitiria sinais contrários aos de minha pregaçã=
;o de
tolerância democrática.
De forma menos pessoal e mais ligada à
institucionalização das práticas democráti=
cas
modernas, favoreci não só a relação necessariam=
ente distante
e sempre arriscando a
manipulação, de explicar em discursos e entrevistas as
razões das políticas, como também a de criar
espaços mais efetivos para dar ouvidos à sociedade.
Tornaram-se rotineiras as&nbs=
p;audiências
públicas para elaboração de projetos de lei e respecti=
vas regulamentações,
muito freqüentemente lançando-se mão da Internet para&nb=
sp;auscultar a reação das pessoas=
e
entidades e para criar um espaço de interação no
processo deliberativo. Nunca antes, como nos dois mandatos que exerci,
houve tanto empenho em fazer
avançar o chamado e-govemment, quer dizer, o colocar
serviços governamentais e propostas de leis e regulamentos, ant=
es
de formalizá-los, ao alcance do público pela Internet.
35 O Presidente francês Charles de Gaulle
pronunciou frase, dirigindo-se aos compatriotas na Argélia, que
ficou famosa: "Je vous ai compra", que não implicava
concordância, O grande
Presidente americano Franklin Delano Roosevelt era conhecido por evita=
r a
confrontação com os interlocutores. Sorria, dando a
impressão de haver concordado,
para desilusão dos que assim o interpretavam. Ver Roy
Jenkins, Roosevelt, Rio de Janeiro, Record, 2005, cap. 4, "As
sugestivas ambigüidades do primeiro mandato".
Em outros termos, agi com a preocupaç&at=
ilde;o
de valorizar o que o cientista político norte-americano Joseph =
Nye,
pensando no Estado e não em lideranças individuais,
chama de soft power?6 que &ea=
cute;
outra maneira de colocar a questão da legitimidade do mando
democrático. O líder democrático, em um mundo de
mensagens intercomunicadas e de participação crescente,
embora consciente dos conflitos e das diferenças de classe, deve
propor valores que possam ser compartilhados pela parcela
majoritária da socieda=
de.
Caso contrário, perde força. Como sua relaç&atild=
e;o
com os liderados não é estática, ele tentará
convencê-los o tempo todo, arriscando-se, ora a ganhar, ora a perder. Ao ganhar, buscar&a=
acute;
atrair um número cada vez maior de pessoas, grupos, movimentos e&nbs=
p;instituições
para seu lado. Ao perder terá de ver no que se equivocou e, den=
tro
de suas convicções, refazer, humildemente, o circuito do =
;convencimento
que pode levar à vitória. Não sendo um líder mo=
ral,
ao ganhar, o "chefe", quando não é líder e=
quer
mudar algo, apenas exerce a força. Nesta hipótese,
parafraseando Rousseau,37 não estabelece uma relaç&atild=
e;o
propriamente política com os liderados. Ou, para parafrasear a refer&=
ecirc;ncia
de Marx aos camponeses no 18 Brumário, governará jogando uns&=
nbsp;contra
os outros como batatas num saco. Acaba por ser a expressão das =
forças
sociais que se impõem por seu intermédio, e não
exerce liderança =
genuína.
Assim como Marx escreveu que os homens fazem a
História em condições dadas, ou como Montesquieu =
se
referiu à variação das leis confor-
36 Joseph S. Nye, Jr., =
Soft
Power, the Means to Success in World Politics, Nova me a natureza dos regimes políticos,
não custa repetir que o "projeto", o "programa&q=
uot;
ou o "caminho", o rumo, ou que nome se dê aos propós=
itos
e aos valores sustentados
pelos que governam, estão limitados pelo condicionamento
material e institucional da sociedade, por suas bases produtivas. Os c=
ondutores
de mudanças não devem imaginar que sua vontade (ou a de seu
partido, grupo ou movimento) opera no vazio da História.
Tentarão exercer influência para mudar o curso das coisas, mas=
pagarão
alto preço se nã=
;o
forem capazes de identificar os limites que, com sua liderança,
estão procurando alargar.38 A liderança genuinamente democrát=
ica
está índissociavelmente ligada à capacidade de
simbolizar e transmitir mensagens e, portanto, o que no fundo é=
a
mesma coisa, à virtude=
de
enxergar e propor à sociedade um caminho que seja aceito pelos
liderados, ainda que de forma momentânea. Em uma sociedade interativa, esse
"projeto" nã=
o pode
ser concebido como um ato de razão ou de vontade, mas como uma
construção coletiva em que uns - os líderes -
expressam melhor e simbolizam em dado momento o movimento da sociedade, o q=
ual
necessariamente está condicionado por valores, por modelos
culturais, com os quais e sobre os quais se age. Ou o líder (di=
go
metaforicamente, como Gramsci
falava do Príncipe, e não à moda de Maquiavel) ap=
onta
e abre caminhos ou perde poder. B em nome da validade intrínseca dos val=
ores
propostos e do caminho arquitetado que o poder renova no dia-a-dia sua
legitimidade, mesmo quando esta, em uma democracia, tenha no voto e na
Constituição sua base fundamental. 38 Já o grande Tocqueville mostrara os
condicionantes gerais da ação dos homens em seus
painéis sobre A democracia na América e em O antigo regi=
me e
a Revolução. Mas
jamais se esqueceu de que se bem "o acaso só produz o que
estava preparado anteriormente (".)", pois "os fatos pr=
ecedentes,
a natureza das instituições, o feitio dos espíritos, o estad=
o dos
costumes, são os materiais com os quais ele produz essas viradas
que nos surpreendem e nos atemorizam", nada disso se dá sem a&n=
bsp;interferência da vontade humana. E nas suas
memórias disse detestar os sistemas intelectuais que fazem tudo
depender das grandes causas primeiras, suprimindo os homens da
história do gén=
ero
humano, como mostra com síntese e clareza Evaldo Cabral de Mell=
o em
Um imenso Portugal, São Paulo, Editora 34,2000, de onde tirei as
citações acima. CAPITULO 2 Aprendendo na política Nossos partidos e um equívoco: as
referências européias Os atuais partidos políticos brasileiros
nasceram da desagregação do regime autoritário fo=
rmado
a partir do golpe de 1964. Não é necessário descr=
ever
passo a passo a Histór=
ia
recente, que permanece fresca na memória. Mencionarei somente
algumas características da formação partidá=
;ria
atual, que ajudam a compreender o jogo político e seu significado na vida nac=
ional. Com as exceções de praxe, o papel=
que
os partidos e o Congresso Nacional desempenham tem sido avaliado de mo=
do
superficial pela literatura especializada e pela imprensa. Isso para não falar das pes=
quisas
de opinião, que invariavelmente situam ambas as
instituições entre as de menor prestígio, quando
não de menor serventia. Nada mais equivocado, entretanto, do que subest=
imar o
papel político do Congresso e dos partidos. Os chavões s=
obre
estes oscilam. Ora os consideram incoerentes, sem ideologias, meras máquin=
as
eleitorais. Ora confundem legendas com partidos e vêem nas
votações do Congresso coerência partidária,
quando na maior parte das vezes
trata-se apenas de apoio ao governo ou oposição a
ele. Pior ainda, muitas vezes, nos dois casos, os parlamentares agem p=
or
motivos que nada têm a ver com as ideologias proclamadas nos programas
partidários. Na verdade há um pouco de tudo isso em c=
ada um
dos partidos - coerência, apoio em troca de vantagens de todo o
tipo, visões ideológicas -, dependendo das regiõe=
s e
da força dos chefes políticos, bem como do momento, da
formação dos dirigentes partidários e de suas
trajetórias de vida. Mesmo alguns acadêmicos têm
contribuído para uma leitura incompleta sobre os partidos e sob=
re o
Congresso.1 Talvez porque partam da ### 1 À exceçã=
;o
dos trabalhos de Bolívar Lamounier, de Maria do Carmo Campello =
de
Souza e de poucos autores mais. Ver notadamente, de Lamounier, Da Inde=
pendência
a Lula: dois séculos de política brasileira, São Paulo=
, Augurium,
2005, e de Campello de Souza, Estado e partidos políticos no Br=
asil,
São Paulo, Alfa-Omega, 1976. Ver também Simon Swartzman, Base=
s do
autoritarismo brasileiro, Rio de Janeiro, Campus, 1982. ### referência à História
política européia. Na Europa, os partidos, na acep&ccedi=
l;ão
moderna, nasceram como expressão da luta de classes, em socieda=
des
rigidamente hierarquizadas, quando o Terceiro Estado, no caso da
França, ou os burgueses da Revolução Gloriosa, no caso=
da
Inglaterra, se opuseram à dominação estamental da=
aristocracia.
À medida que o capitalismo industrial se desenvolveu, as
diferenciações internas da societas civilis foram se
tornando mais significativas, ao mesmo tempo em que "os de
baixo" passaram a tomar consciência da diversidade de seus =
interesses
e buscaram formas próprias de organização polít=
ica. Na França, os partidos socialistas, da c=
lasse
operária, foram as primeiras organizações que, de
modo estrito, poderiam ser chamadas de "partidos de massa".
Nestes, as máquinas partidárias se tornaram mais complex=
as e
burocratizadas, para dar conta da participação ampliada de&nb=
sp;afiliados.
As definições doutrinárias, por sua vez, continham&nbs=
p;crescentemente
uma visão global da sociedade e do lugar que os trabalhadores
deveriam ocupar nela. Estas definições passaram a ser cr=
itério
para a adesão ao partido. De forma menos nítida, ocorreu algo=
semelhante
também na Inglaterra, com o Labour Party. De fins do século&n=
bsp;XIX
em diante, ser trabalhista ou conservador tinha simultaneamente um sig=
nificado
social e um significado político, um relacionado ao outro. Ou seja, os partidos polarizavam interesses e
visões "de classe". Os antigos clubes das classes
dominantes viram-se desafiados pela presença de
organizações políticas com grande número de
aderentes. Elas, ademais, se estruturavam, criavam uma burocracia
partidária e sustentavam uma visão alternativa sobre o q=
ue
seria a "boa sociedade". Moviam-se ancoradas em valores que
incitavam à reorganização da produção, d=
o consumo
e da distribuição dos bens para se tornarem mais acordes com =
os interesses
de classe de seus afiliados e votantes. Esse modelo, por assim dizer
"clássico" de organização partidária,
embora haja influenciado decisivamente a noção corrente =
de
partido, está longe de ter sido a única forma de
organização política no mundo contemporâneo e&nb=
sp;nem
sequer a mais difundida. Houve múltiplos modelos de vida
partidária que não se orientaram por ideologias de class=
e.
Os partidos de tipo nazista, fascista, franquista ou salazarista aspir=
aram
a ser a expressão do sentimento de "todo o povo" e de=
ram
ênfase à vontade nacional, antes do que à das clas=
ses.
xxx Essa tendência não se limitou aos desdobramentos
autoritários europeus. Os partidos "de libertação=
nacional",
tão presentes nas lutas anticolonialistas do Terceiro Mundo, ap=
ós
a independência tornaram-se muitas vezes partidos únicos, mant=
endo o
apelo poderoso à "união nacional" contra o estrange=
iro,
contra os ricos ou contra o que fosse, diluindo e amalgamando na mesma
organização política diversos setores de classe,
clãs e etnias. Mesmo partidos originariamente classistas e nas=
cidos
em sistemas políticos mais pluralistas, como os comunistas da
Europa Oriental, se transformaram em partidos únicos quando
chegaram ao poder, embora continuassem a se proclamar "da classe
operária" e até permitissem em certos casos, s&oacu=
te;
para constar, a existência de outras pequenas agremiaç&ot=
ilde;es. Isso sem mencionar os partidos
"religiosos", de grande influência em algumas
regiões, como na Irlanda do Norte ou, se sairmos do mundo ocide=
ntal,
em alguns países da África, do Oriente Médio e da
Ásia, onde sobretudo o islamismo mas também o
hinduísmo pesam decisivamente na aglutinação
política. No extremo oposto da tradição
clássica européia, os partidos fundadores da democracia
americana, embora defendendo valores e interesses distintos, nunca se
autoproclamaram classistas, nem o recrutamento de seus quadros ou de s=
eu
corpo de votantes se deu, exclusiva ou mesmo majoritariamente, pelo
critério de pertencimento ou de afinidade com os valores de uma
classe social predominante. A clivagem inicial teve muito mais a ver c=
om o
espírito autonomista das províncias (depois estados) originárias das antigas colónias
britânicas, em contraposição à visão =
;federalista,
que separou os jeffersonianos dos seguidores de Madison, por exemplo.<=
o:p> Portanto, não há razões ma=
iores
para desqualificar os partidos brasileiros em função de =
um
modelo abstrato que restringe a capacidade de ação
partidária coerente a organizações políticas cu=
ja
marca seja uma ideologia definida em função dos interess=
es
das classes sociais. Até porque, com a fragmentaçã=
;o
da sociedade contemporânea, mesmo nos pai- sés europeus onde prevalecem as anterior=
es
formas partidárias o que se vê é a
dissolução crescente do modelo classe/partido/ideologia. Primeiro, o óbvio: o que abalou o regime
militar de 1964 foi o crescimento da sociedade urbana e de massas,
acelerado pelo "milagre econômico" dos anos 1970, e a<=
span
style=3D'mso-spacerun:yes'> forma desigual como ele se deu. Na
época, quando se dizia que o Brasil não estava estagnado=
e
que havia a ampliação do proletariado urbano (ainda se
chamava assim..,) e de uma&nb=
sp;classe
média, não-burocrática, ligada à expansã=
o da
economia industrial e dos serviços, surgia logo a suspeita de q=
ue
esse tipo de análise, no fundo, justificava o
regime autoritário.
Parte da oposição "de
esquerda" via por todo lado retrocesso não só pol&i=
acute;tico,
mas econômico, e só uma saída: a revolucionária;=
se
não com apelo às armas, pelo menos com força suficiente para
lançar as bases do socialismo. Com este, teríamos de novo
democracia e, quem sabe, bemestar social. Coroando a
antecipação do paraíso, teríamos um crescimento&nbs=
p;econômico
autônomo a ser incentivado pelo Estado, mas não o Estado =
servidor
das multinacionais e, sim, servidor do povo.
Não foi esse, entretanto, o rumo princip=
al da política
brasileira. Houve quem acreditasse - como eu - que a
desagregação do autoritarismo poderia dar-se por um
movimento de pinças que
juntaria os participantes do poder que se tornaram seus críticos
(por vários motivos, desde interesses econômicos contrari=
ados
até a vontade de ter m=
ais
"voz") à oposição generalizada dos
outsiders. Estes últimos eram os opositores contumazes tanto do
autoritarismo quanto dos malefícios causados pela concentra&cce=
dil;ão de riquezas e de privilégio=
s:
movimentos populares formados ao redor de vários tipos de
reivindicação, grupos religiosos orientados por ideologi=
as
popular-progressistas, tipo
Teologia da Libertação, intelectuais críticos, o
chamado sindicalismo "autêntico", classe média
descontente etc.
Novos atores nas greves de São Bernardo<= o:p>
Por outro lado, começavam a ganhar
força reações que mesclavam a reivindicaç&=
atilde;o
operária à luta por liberdade. Essas insatisfaçõ=
;es
foram aumentando desde a greve
dos metalúrgicos de Osasco e Contagem (MG), no final dos
anos 1960, ainda permeadas pela ação de grupos ditos &qu=
ot;subversivos",
que proclamavam abertamente o objetivo&nbs=
p;
de derrubar o regime.
Nas greves de 1978, 1979 e 1980
Já se notava a presença desses
"atores sociais" na segunda metade dos anos 1970, quando se
começou a falar no papel da "sociedade civil" na pol&=
iacute;tica,
utilizando-se uma linguagem
não usual na época. A linguagem tradicional se referia
unicamente a classes e setores de classe. O que deu força &agra=
ve;
crítica e à ação dos novos grupos foi a perda de vigor econ&oci=
rc;mico
do "milagre", precipitada pelos choques do petróleo dos an=
os 1970
e dramatizada pela crise da dívida externa, a partir da morató=
;ria mexicana
de 1982. Mesmo antes disso, era clara a mudança no jogo pol&iac=
ute;tico
nacional. A repressão brutal dos governos anteriores ao do gene=
ral
Ernesto Geisel e a leniência inicial=
deste com a continuidade da repressão, alcançando
agrupamentos políticos não ligados à luta armada -
que teve como conseqüência o assassinato em dependências d=
o DOI-Codi,
Tudo isso só se tornou possível p=
orque
o regime, debilitado, começava a ser impotente para manter a du=
ra
censura aos meios de comunicação. O que explodiu como
um foguete imantado na &eacut=
e;poca
dos grandes comícios em favor das eleições direta=
s,
em 1984, contudo, já se prenunciava nas greves de São
Bernardo: não há forma de ação política no mundo cont=
emporâneo
que dispense a mídia ou deixe de se apoiar nela.
Foi a junção desses fatores que d=
eu os
contornos da "nova política".
Ela, ao contrário do que muitos desejava=
m,
correu no mesmo leito da antiga política. É só
ver as figuras que apoiaram, =
por
exemplo, as greves de São Bernardo: desde partidários do
regime que passaram a repudiá-lo por seus desmandos, como
Teotônio Vilela (AL) e =
Severo
Gomes (SP), até políticos da oposição dita
"consentida", do velho MDB, como Ulysses Guimarães,
André Franco Montoro e, no caso específico, o prefeito
de São Bernardo, Tito =
Costa.
Seria de estranhar menos a presença constante dos jovens deputa=
dos
Eduardo Suplicy, Fernando Morais e Aírton Soares e mesmo a minh=
a,
e de outros intelectuais enga=
jados, cujo
ativismo na vida política já era conseqüência dos
novos tempos.
Depois dessas manifestações de
protesto, o grande movimento que marcou a redefinição dos
partidos foi a luta por eleições diretas, e, previamente=
, a
fundação do PT.
Contarei com certo detalhe alguns episódios, não tanto p=
or
amor à minúcia histórica, mas porque eles ajudam =
a explicar
o atual sistema partidário.
A rede oposicionista: do MDB a Lula
No período anterior à
formação do PT, quero registrar o que me recordo do esta=
do
de espírito dos principais líderes do "novo sindicalismo=
”
sobre a política. Em meados dos anos 1970, mais precisamente em
1974, ainda havia muita resistência, mesmo nos setores não
vinculados às organizações políticas
revolucionárias, a aceitar o
jogo eleitoral contido nos limites do bipartidarismo imposto;
Arena, apoiando o governo autoritário, e MDB, na
oposição congressual. A oposição que se pretend=
ia "consequente"
vivia distante da vida institucional, não acreditava ser poss&i=
acute;vel
mudar algo por meio das eleições sob as regras do regime e, d=
e alguma
maneira, considerava os
políticos institucionais "farinha do mesmo saco".
A política mais "pura" dava-se=
no
âmbito da sociedade civil, com seus movimentos
reivindicatórios: a SBPC, as pastorais religiosas, as comunidad=
es
eclesiais de base, os sindica=
tos, a
OAB, a ABI, as Comissões de Justiça e Paz e o que restava
das organizações estudantis.
A esses setores juntou-se a "imprensa
nanica", ou seja, pequenos periódicos de
oposição, como Pasquim, Opinião e Movimento. Formava-s=
e dessa
maneira uma
rede, mais do que um partido de
oposição. Essa rede foi ganhando alguma capacidade de
mobilização e de influência na nascente "nova
opinião pública", uma espécie de espaço democrátic=
o num
país controlado autoritariamente.
Talvez o primeiro encontro entre essa rede e a
política institucional se tenha dado nas eleições=
de
1974, quando Ulysses Guimarães lançou sua anticandidatura
à Presidência da
República em um pleito previamente definido pela vitória=
da
Arena. O candidato desta, general Geisel, teria automaticamente a maio=
ria
dos votos do Colégio Eleitoral
- instância que em tempos de eleição indire=
ta
sacramentava o nome previamente escolhido pelos comandos militares -
composto pelos membros do Congresso Nacional somados a delegados indicados pelas
assembléias legislativas.
Ulysses, acompanhado por seu braço direi=
to, o deputado
João Pacheco e Chaves, de tradicional liderança
política paulista (amb=
os
haviam pertencido ao velho Partido Social Democrático, o PSD, c=
om
raízes no varguismo e sustentáculo do conservadorismo do
regime democrático pós-varguista), procurou o Cebrap. Haviam lido art=
igos
que alguns de nós publicávamos no semanário
Opinião, notadamente um texto que escrevi sobre o papel da
oposição, no qual defendia&n=
bsp;
a possibilidade de um alargamento democrático com a
utilização dos canais institucionais disponíveis.=
Nossa surpresa foi grande. A de Ulysses
também. Nós éramos cientistas sociais, não
ativistas políticos, e receávamos a contaminaçã=
o no
contato com os "políticos". Ulysses pedia que colaborás=
semos
na preparação do programa eleitoral do MDB, já qu=
e em
1974, além da escolha biônica do Presidente, também
haveria eleições para
o Senado, a Câmara dos Deputados e as assembléias
legislativas. A colaboração consistia na preparaç=
ão
de um documento definindo as propostas partidárias a serem apre=
sentadas
ao eleitorado e, eventualmente, no treinamento dos candidatos
majoritários para os debates pela TV, pois só os candidatos&n=
bsp;ao
Senado podiam aparecer nesse =
tipo
de programa do horário eleitoral.
O Cebrap funcionava em uma velha e cómod=
a casa
na rua Bahia, em Higienópolis. As paredes do casarão
testemunharam os acirrados debates no que nós chamávamos=
de
"mesão", mes=
a ao
redor da qual se sentou durante anos a fio boa parte dos intelectuais
críticos, que muito tempo depois, em 2005, estavam espalhados e=
ntre
o PSDB, o PT, o PMDB e os
sem partido. Colaborar ou não com setore=
s do
"regime", mesmo de oposição, no caso o MDB, er=
a a
questão. Alguns toparam: Paul Singer, Francisco de Oliveira,
Francisco Weffort, Bolí=
;var
Lamounier, Carlos Estevam Martins, Maria Hermínia Tavares de
Almeida, eu próprio, e talvez alguns outros cujos nomes me esca=
pam
à memória. Fomos os
primeiros. Daí por diante, a cada eleição aumenta=
va o
número dos aderentes a uma postura mais participativa, visando
mudar as instituições, por assim dizer, por dentro. O programa para a campanha=
do
MDB de 1974 se tornaria a matriz dos programas futuros, e não
só do MDB. Nele, falávamos de sindicatos, de salá=
rio
e distribuição =
de
renda, do direito de greve, das questões das mulheres, dos negr=
os,
dos índios, enfim, desenhávamos uma política
"social-democrática" nas condições de
então e do Brasil.
Num Brasil que já foi governado pelo PSD=
B e
sucedido pelo PT, tudo isso perdeu sentido. Naquela época,
não. Havia tensão entre os defensores de uma polí=
tica
"pura", longe do so=
lo
lamacento do Estado, fincada no sacrossanto terreno da sociedade civil=
, e
os que aceitavam participar das lutas políticas em partidos que
atuavam no marco da ordem vig=
ente.
No máximo se aceitava militar de alguma
maneira no PCB, como se fosse o único depositário das
esperanças redentoras da humanidade, o velho Partidão, c=
omo
era conhecido - ou em alguns de seus desdobramentos mais combativos. A
herança da esquerda revolucionária, mais na versão do&=
nbsp;Leste
Europeu, da China e de Cuba d=
o que
dos socialistas e comunistas dos tempos primevos, pairava como um fant=
asma
nas mentes e corações de muitas pessoas de boa vontade, =
como
até hoje continua pair=
ando
em alguns círculos.
Como desdobramento dessa mudança de post=
ura
por parte de setores anti-regime, em 1977, quando nos aproximáv=
amos
das eleições de 1978, novamente alguns dirigentes do MDB buscaram contato com os gru=
pos da sociedade
civil que se haviam mostrado mais propensos a uma ação c=
onjunta.
Dentro do MDB, atuavam, com significativa presença política, setores do P=
CB e
de outras organizações de esquerda de menor porte.
Recordo-me bem de uma reunião na casa de
José Gregori, mais tarde presidente da Comissão de Justiça e Paz da Arquidi=
ocese
de São Paulo, quando se começou a falar na possibilidade=
de
lançamento de uma candidatura ao Senado para agrupar as
oposições à
esquerda. A situação política,
mesmo antes da Lei da Anistia, de 1979,2 havia
permitido a volta de líderes que estiveram no exílio,
notadamente, entre os de São Paulo, Almino Affonso, Plín=
io
de Arruda Sampaio e Jos&eacut=
e;
Serra. Pois bem, de todo o numeroso grupo reunido naquela casa um
único sabia onde se localizava a sede paulistana do MDB,
Flávio Bierrenbach, ad=
vogado
como Gregori, que se elegera vereador. Bierrenbach precisou me indicar=
o local:
no subsolo da sede da Câmara Municipal, no Viaduto Maria Paula, =
no
centro de São Paulo. P=
ara
lá me dirigi, depois de resolvido que seria eu o candidato, para
inscrever-me no partido.
Por que eu? Basicamente porque os candidatos
naturais, os que, por assim dizer, tinham currículo e
experiência eleitoral, ainda jaziam sob o tacão do AI-5 q=
ue
lhes suspendera os direitos
políticos. Eu, além de conhecido nos meios acadêmi=
cos
e nos círculos de oposição no âmbito da soc=
iedade
civil, havia sido alcançado pelo AI-5, que me aposentara compulsoria=
mente
da cátedra de Ciência Política da USP em 1969, mas
não fora objeto de proibição expressa de me
candidatar, pois nunca exercera mandato popular. A
interpretação sobre o alcance da punição que me=
impuseram
permitia recursos jurídicos, e de recurso em recurso, acabei re=
gistrado
como candidato ao Senado por =
uma
sublegenda do MDB.
Diversos artistas, intelectuais, estudantes,
líderes operários e uns poucos setores do MDB sustentara=
m a
candidatura. Entre os artistas, Chico Buarque, que uma manhã
A letra de Chico dizia: "A gente nã=
o quer
mais cacique/ A gente não quer mais feitor/ A gente agora
está no pique/ Fernando Henrique pra senador”
Intelectuais de prestígio como Sé=
rgio
Buarque de Holanda, Mário Pedrosa, Florestan Fernandes e
António Cândido, entre outros, aderiram à campanha=
. E
a ela deram brilho artistas c=
omo
Elis Regina, Lima Duarte, Regina Duarte, Ruth Escobar, Gianfrancesco
Guarnieri, Bruna Lombardi, Carlos Alberto Riccelli e Fúlvio
Stefanini, para citar s&oacut=
e;
alguns nomes.
Um dia recebi um recado do principal dirigente
metalúrgico de São
: Lei n" 6.683, de 28/8/1979.
Bernardo, por intermédio de Francisco de
Oliveira, manifestando o desejo de apoiar a candidatura. Eu conhecera =
Luiz
Inácio Lula da Silva no Cebrap, em 1973, trazido pelo presidente do sindicato, Paulo
Vidal, quando Francisco Weffort e Régis de Andrade, cientistas
políticos, realizavam entrevistas sobre o movimento sindical. Não o vira desde essa
ocasião e as grandes greves ainda não haviam ocorrido.
Fui até São Bernardo e me espante=
i com
o porte, a movimentação e a máquina do sindicato.=
Os
militares haviam escorraçado as antigas lideranças,
geralmente ligadas ao PCB e ao
velho PTB extinto pelo regime militar, que eram influentes nos setores
vinculados ao Estado:
ferrovias, portos, usinas siderúrgicas e
funcionalismo público.
Durante os anos do "milagre", a onda industrializadora
permitira o crescimento do operariado urbano e dera margem à
presença de lideranças não ligadas às
antigas forças •
políticas. Os governos autoritários não extinguiram&nb=
sp;as
fontes de renda dos sindicatos. Apenas contavam com sua despolitiza&cc=
edil;ão
e, portanto acreditavam que sequer
"pelegos" seriam os líderes, mas somente, como=
se
diria hoje, "sindicalistas de resultados".
Ledo engano. Alguns sindicatos começaram=
a
nuclear dirigentes combativos, apoiados por eficientes advogados
trabalhistas, e a mover ações judiciais em defesa dos
uma vaga).
A reunião foi simpática, mas um t=
anto
chocante. Estávamos amontoados na salinha de Lula, fumavam muit=
o, e
as palavras, por exemplo, para pedir um copo de água ou para passar um cinzeiro eram quase
ríspidas,
na percepção de um professor
universitário educado dentro de formalidades tradicionais.
Perguntei a Lula por que resolvera me apoiar.
A resposta foi elucidativa:
- Porque você não faz como os outr=
os que
vivem dando lições aos trabalhadores, dizendo o que eles
devem fazer, nem se diz senador dos trabalhadores.
Tratava-se de indireta pouco sutil. Montoro, com
intensa atividade parlamentar em favor dos trabalhadores - propô=
s e
viu aprovado, entre muitas medidas, o salário-família
Não que Lula tivesse uma visão
politizada. Diferentes episódios reforçam minha
interpretação de como "o novo" nascia, sem o saber,
muito misturado com práticas e=
visões tradicionais. Menciono apenas duas passagens para
esclarecer esse ponto. A primeira se deu em 1979, quando Almino Affons=
o,
Plínio de Arruda Sampaio, José Serra e eu, entre outros,
estávamos organizando com Lula o Encontro de São Bernardo,&nb=
sp;destinado
ajuntar setores "autênticos"-mais aguerridos - do MDB, =
;militantes de esquerda de várias
organizações, sindicalistas, setores da Igreja e
intelectuais para decidir passos conjuntos, fosse no sentido de fortal=
ecer
o MDB fosse, eventualmente, n=
o de
tentar fundar um novo partido.
Almino Affonso e eu fomos uma manhã &agr=
ave;
casa de Lula, modesta casa de vila suburbana. Lá o encontramos =
com
o sindicalista Enilson Simões, o "Alemão" uma
espécie de seu
secretário - pertencia ao Movimento Revolucionário 8 de
Outubro (MR-8), agrupamento político àquela altura tido =
como
ligado a Cuba, o que Lula parecia ignorar.=
Queríamos convencer nossa principal contraparte sindical=
ista
da conveniência de levar para o encontro, que antecipava a
reformulação partidária, dirigentes da
"oposição
sindical", alguns muito próximos à Igreja Ca=
tólica,
como António Flores, outros independentes, ativistas de organiz=
ações
esquerdistas. Lula se opunha, pois achava&=
nbsp;
que esses "politiqueiros", como dizia, nada tinham a =
ver
com os verdadeiros sindicalistas, ou seja, com os que atuavam dentro d=
os
sindicatos oficiais existentes.
Finalmente, acabaram todos convidados.
Segundo episódio, este útil para
mostrar que a evolução política alcançou m=
uita
gente. Tempos depois, houve um encontro de Lula com Ulys-
sés Guimarães no apartamento onde=
eu
então residia, à alameda Joaquim Eugênio de Lima, =
Apenas para ressaltar a visão
"despolitizada", quer dizer, distante não somente dos
partidos, mas de práticas institucionais, relato outro epis&oac=
ute;dio.
No desenrolar da greve de 197=
9
Terminada a assembléia, tomamos o mesmo =
carro
de volta com Lula e outro dirigente sindical. Lula, que acabara de pro=
por
a continuação do movimento, nos disse:
- Precisamos terminar essa greve. Ao que Almir
perguntou:
- Mas, como? Vocês agora saíram da=
lei.
Com efeito, a partir daquele momento a continui=
dade
da greve representava um desafio à decisão do TRT. Na no=
ite
seguinte, eu jantava com Lula e com o jornalista e deputado estadual Fernando Morai=
s em
um boteco próximo ao sindicato quando o rádio informou q=
ue
Lula tivera os direitos sindicais suspensos pelo ministro do
Trabalho. Levei-o em meu =
;carro
ao sindicato, e ele me disse:
- Pois é, não dá mesmo para
fazer no Brasil um sindicalismo como eles têm lá na Argen=
tina.
Conto esses episódios para mostrar, prim=
eiro,
que o distanciamento "dos políticos" caracterizava qu=
ase
toda a oposição ao regime, com exceção dos=
que
militavam no MDB e no PCB.
Buscava-se uma ação política "fora da
política", longe do modo como esta se dava nos partidos e no&nb=
sp;Parlamento.
Segundo, que nenhum de nós tinha muita clareza sobre a melhor forma
partidária ou sobre qual seria a relação correta entre=
política
e sociedade. Lula, em discursos publicados, disse que ele só se =
;deu conta da necessidade de ultrapassa=
r os muros
das fábricas e dos sindicatos após as grandes greves, a =
mais
marcante das quais foi possivelmente a de 1979.
Um testemunho sobre os primórdios do PT<= o:p>
A formação do PT, posterior aos f=
atos
que narrei, deu-se quando havia competição pela
liderança do movimento sindical entre Lula e Benedito Marc&iacu=
te;lio,
presidente do Sindicato dos
Metalúrgicos de Santo André (SP)
que se elegeu deputado federal. Marcílio
mantinha relações com a Convergência Socialista, u=
ma
facção ligada ao
movimento trotskista internacional. Aproveitou um congresso dos
metalúrgicos realizado em Lins, a 430 quilómetros de
São Paulo, em janeiro de 1979, para lançar a idéi=
a de
um partido dos trabalhadores. Lula só encampou a proposta poste=
riormente,
embora alguns sindicalistas de
São Bernardo tenham colaborado com os autores do manifesto em p=
rol
de tal partido.
Anteriormente a isso,
Lula comparecera, e eu também, a um enco=
ntro
de dirigentes sindicais, sobretudo petroleiros, em Camaçari, na
Bahia, em 1978, com, entre outros, Jacó Bittar, da regiã=
o de Campinas, Henos Amorina, de Osa=
sco, Paulo
Skromov, do Sindicato dos Coureiros de São Paulo, Hugo Peres, dos&nb=
sp;eletricitários
de São Paulo, José Cicote, dos metalúrgicos de São Bernardo, e Arn=
aldo
Gonçalves, dos metalúrgicos da Baixada Santista (SP), li=
gado
ao PCB. Na reunião mencionou-se a possibilidade da
formação de um partido&=
nbsp;
de trabalhadores.3
A idéia de um novo partido estava, porta=
nto,
no ar, alimentada pela expectativa do fim do bipartidarismo. Entretant=
o,
transcorreria um ano, com muita discussão e muitos episódios, até=
; que
viesse a alteração efetiva na legislação p=
ara
permitir a formação de partidos, em dezembro de 1979, an=
tes
de o PT ser lançado formalmente,&nb=
sp;
o que ocorreu em reunião no dia 10 de fevereiro de 1980 =
no
tradicional Colégio Sion, na avenida Higienópolis,
O debate que marcou a separação de
muitos de nós, participantes das discussões prévi=
as
sobre o novo partido, da formação do PT teve
relação direta com esse distanciamento. Eu não acreditava no caminh=
o de
um partido que imitasse a tradição da esquerda europeia.
Preferia, como escrevi na época, um partido dos assalariados em=
vez
de um partido dos trabal=
hadores,
com a conotação de partido proletário. Tampouco a=
creditava
em política sem alianças. Defendia, portanto, o pluripar=
tidarismo
e o policlassismo. No movimen=
to
sindical houve discrepância semelhante: os sindicatos sob
influência do PCB e do MDB formaram a "unidade sindical&quo=
t;,
de inspiração partidária, e os demais se agruparam no "sindica=
lismo
autênti-
1 E Margareth Keck, PT: a lógica da
diferença, o Partido dos Trabalhadores na construç&atild=
e;o
da democracia brasileira, São Paulo, Ática, 1991, e Rach=
el
Meneguelo, PT: a
formação de um partido, 1979-1982, Rio de Janeiro, Paz e
Terra, 1989.
co" que se pretendia desligado dos partido=
s.
Posteriormente ocorreram novas cisões na organizaç&atild=
e;o
das centrais, dando lugar à Central Única dos Trabalhado=
res
(CUT), à Central Geral=
dos
Trabalhadores (CGT), à Força Sindical e outras menores.
Embora não houvesse relação direta entre os sindi=
catos
e os partidos, o espírito dos
debates e as dúvidas reinantes guardavam
relação com a discussão sobre a natureza dos part=
idos,
a relação entre as classes, uma visão de
revolução à antiga ou não, e a autonomia do movimento sindical
diante das agremiações partidárias.
Minha iniciação na política
partidária
Como eu decidira permanecer no MDB, a partir de=
1979
transformado em PMDB, dediquei-me, com Mário Covas, Almino Affo=
nso
e Alberto Goldman, a reorganizar o partido no estado de São Paulo.
Não só cumprimos essa tarefa como fomos adaptando o prog=
rama
partidário na direção das idéias apresenta=
das
pelo grupo do Cebrap em 1974.
Tornei-me, após as eleições de 1978,
vice-presidente do PMDB. Quando Covas se afastou da direção e=
m 1982
para se candidatar a deputado federal, na campanha que levou Montoro ao
governo de São Paulo, assumi a presidência da seç&atild=
e;o
paulista, a principal do partido no país. Nessa
posição, participei da mobilização pelas
eleições direta=
s.
A militância no MDB e no PMDB me ensinou =
muito
a respeito do funcionamento e do jogo político dos partidos.
Substituindo Montoro, entrei no Senado em 1983, ainda na vigência do regime
autoritário, mas em seus momentos de agonia. Ainda assim, o
Congresso espelhava impotência: corredores vazios, o monop&oacut=
e;lio
absoluto da pauta exercido&nb=
sp;pela
maioria, e esta submetida ao controle estrito do Planalto. Mesmo as re=
lações
pessoais entre governistas e oposicionistas eram escassas e submetidas=
ao "patrulhamento" Recor=
do-me
de que o senador Virgílio Távora (CE), vicelíder =
do
governo e seu porta-voz para questões económicas, um dia=
me
convidou para almoçar.
Nossas famílias tinham relações
históricas desde as revoluções dos tenentes de 1922 e
1924, das quais participaram tanto membros da família Tá=
vora
como meu avô, meu =
pai e
vários outros parentes. Conversei com Ulysses sobre o convite.
Ulysses me aconselhou cautela. Decidi
aceitá-lo, mas, para evitar intrigas, marquei o almoço em
lugar visível e terreno costumeiro da
oposição em Brasília: o restaurante Tarantella
(depois Piantella).
Na mesma época, recebi convite para um j= antar no Itamaraty em homenagem ao Presidente do México, Miguel de Ia Madrid, que visitava o Brasil. Era normal, mesmo durante o regime militar, que poucos representantes da oposição estivessem presentes a esse t= ipo de encontros formais. Quando ia tomar lugar à mesa, um ajudante-de-ordens do Preside= nte Figueiredo se aproximou dizendo que ele queria me conhecer. Em solenid= ades como aquela, antes de entrar no salão principal do magní= fico edifício do Itamaraty, os presidentes permanecem em um amplo ha= ll, o Salão Portinari, como se chama, devido aos grandes pain&eacut= e;is do pintor que exibe. Para lá me dirigi e, em pé, troquei frases protocol= ares com o Presidente. Conversamos durante dez minutos, no máximo. Figueiredo foi simpático e gentil. Ele perguntou sobre meu pai, àquela altura já= ; falecido, e comentamos a relação que o uniu a seu pai, Euclydes Fi= gueiredo, ambos militares e envolvidos nas revoluções das década= s de 1920 e 1930, ambos tendo vivido situações de exílio - meu pai, confinado na Amazônia; o general Euclydes, asilado na Argentina -, em é= ;pocas diferentes. Contei ao Presidente que tinha= morado em uma rua do bairro paulistano do Morumbi que levava o = nome de seu pai. Como a Prefeitura não havia colocado a placa indicativa, eu próprio mandara fazer uma e a afixara. Aproveitei para, sutilmente, cutucá-lo sobre as eleições diretas p= ara a Presidência - o país fervia com a questão, e nã= ;o havia declaração pública&nb= sp; do Presidente contra ou a favor. Figueiredo procurou não= ser taxativo, mas me deixou a impressão de que não se oporia= a uma eventual decisão do Congresso nessa direção. No final, abraçou-me cortesmente. Foi a única vez em que falei pessoalmente com o ge= neral Figueiredo. Nos dias seguintes, notinhas nos jornais e até uma = crónica na revista Manchete sobre tã= ;o inusitado encontro. Que classe de conchavos teríamos feito?...<= o:p>
Depois de derrotado nas eleições =
de
1974, o regime se prevenira para não perder o controle do proce=
sso
político. O "pacote de abril" de 1977 modificou a
Constituição pa=
ra
criar os senadores biônicos (um em cada três senadores nos
estados não era eleito, mas escolhido pelas assembléias
legislativas), aumentar desproporcionalmente aos demais a representa&ccedi=
l;ão
dos pequenos estados na Câmara e adiar, de 1978 para 1982, as
eleições diretas para governador. No intervalo de tempo entre
esses fatos e minha
ida para o Senado, entretanto, muita coisa muda=
ra,
principalmente, tinha havido um afrouxamento da censura aos meios de c=
omunicação.
A Emenda Constitucional n° 11,&nb=
sp;
de 13/10/1978, pôs fim ao AI-5 e ao bipartidarismo. A Lei=
de
Anistia, em 1979, reabilitou para a política lideranças
cassadas. A nova legislação partidária, no mesmo ano, permitiu a
formação dos novos partidos; além do Partido
Democrático Social (PDS), partido que apoiava o governo e
substituíra a Arena, do PT e do PMDB, criou-se o Partido Popular (o PP, liderado =
por
Tancredo Neves, que acabaria se fundindo ao PMDB em 1982), e Leonel
Brizola organizou o PDT após perder a legenda do velho PTB de Getúlio para a =
deputada
Ivete Vargas, de São Paulo, por ingerência do chefe da Casa&nb=
sp;Civil
de Figueiredo e principal estrategista do governo, o general Golbery do Couto e Silva.
Tudo isso propiciou um novo clima políti=
co.
Talvez a primeira rachadura a abalar o bloco governista no Congresso h=
aja
sido a rejeição de uma lei salarial, na verdade um decreto-lei de 1983 - parte
integrante do acordo com o FMI -, que a oposição conside=
rava
arrocho salarial. Acabou sendo derrubado no dia 6 de junho.
Derrotados, os parlamentares&=
nbsp;governistas
levantaram uma série de dúvidas sobre o processo de
votação e tentaram impugná-lo. O presidente do
Congresso, senador Nilo Coelho (PDS-PE), tinha que tomar uma decisão=
sobre
se a votação fora válida ou não. O governo
pressionava intensamente, porque a lei salarial seria um dos pilares da
política económica de
então. Houve uma tensão imensa madrugada adentro, com a
oposição insistindo na validação - princip=
almente
o senador Saturnino Braga (PMDB-RJ) e eu, que tínhamos respeito=
e
estima pelo senador Nilo. Com coragem, Nilo validou a votaç&ati=
lde;o,
proclamou o resultado, e vencemos. Mesmo assim, as pressões e c=
ríticas
do governo contra Nilo contin=
uaram,
só cessando com a promulgação da decisão,
publicada no Diário do Congresso Nacional a 13 de agosto. O
episódio, a meu ver, deixou marcas no senador, submetido a um brutal estress=
e. Em
novembro, Nilo Coelho sofreu um enfarte e faleceu. A convergência da oposição
institucional com a opinião de pessoas ligadas ao governo, mas =
que
se opunham às medidas mais arbitrárias, somada ao vento
forte das ruas e ao barulho da
mídia - na época ainda um sussurro -, precipitavam a cri=
se
do regime. O quadro internacional igualmente mudara. Além da cr=
ise
da dívida externa, a o=
nda democratizadora
desencadeada na Europa, especialmente na Península Ibéri=
ca,
com 91 o fim das ditaduras de corte fascista em Portug=
al, em
1974, e na Espanha, em 1975, alcançava a América Latina.=
A
derrota contra o Reino Unido na Guerra das Malvinas, em 1982, acelerou a
desagregação do autoritarismo na Argentina. No Brasil se=
ria
uma questão de tempo. Restava saber como se daria o desenlace. A part=
ir de
1982, com a vitór=
ia do
PMDB nas eleições diretas para governador em dez estados,&nbs=
p;notadamente
A derrota das Diretas Já e a
opção por Tancredo A arrancada da campanha das Diretas Já f=
oi
fruto do descortino e da persistência de um homem, André
Franco Montoro. Às vésperas do memorável com&iacu=
te;cio
da Praça da Sé,=
em 25
de janeiro de 1984, todos nós, da Executiva do PMDB paulista,
achávamos que o governador Montoro arriscara muito convocando o
povo às ruas em pleno regime
autoritário para clamar por eleições. Info=
rmei
o governador das resistências no partido. Ele procurou os outros
partidos. O mesmo desânimo, apesar de já ter havido um
comício em Curitiba com razoável apoio popular. O PT, como sempre, queria marchar só.
Compareci ao comício em favor das eleições diretas
convocado pelos petistas em frente ao Estádio do Pacaembu, Novamente, a clivagem que se manifestara nas
discussões sobre a formação dos novos partidos ma=
rcou
o início da campanha das Diretas. O PT tentou levar adiante
sozinho a mobilizaç&at=
ilde;o
popular. Passaram-se vinte anos para que o partido aprendesse a constr=
uir
alianças para alcançar os objetivos desejados, embora nem
sempre faça as melhores
composições, como se pôde verificar no governo Lul=
a.
Na época das Diretas Já, somente quando a força da massa mostrou nas ruas=
que a
questão não era a de saber "quem" convocava as
manifestações, mas em nome do que (da democracia) e cont=
ra
quem (o regime autoritá=
;rio),
tornou-se possível a junção das forças
democráticas. Também me recordo de uma reunião,
naquele mesmo janeiro de 1984, na chácara de Ibiúna, com
vários dirigentes do PMDB, inclusive Ulysses Guimarães.
Lá, à noite, vimos
pela TV o general Figueiredo dizendo que Diretas Já era
"subversão". Nossas dúvidas cresceram; diante das
ameaças será que o povo irá mesmo às ruas?=
Pois bem, foi Montoro quem desafiou os poderoso=
s. Ele
tinha o sentimento das ruas. Soube antes o que nós vimos depois:
não éramos nós àquela altura que
estávamos sozinhos, ma=
s sim
o governo, o regime. A tal ponto que as TVs, apesar da pressão =
que
sofriam do governo e da virtual autocensura que praticavam, passaram a
registrar a sagrada ira pela&=
nbsp;democracia,
porque era impossível não fazê-lo. Mesmo a Rede Globo, =
que procurou
diminuir a importância do fenómeno que tomava conta do
país, acabou tend=
o que
se render à opinião pública. Nunca me esquecerei do dia do grande comí=
;cio
da Praça da Sé, no coração de São
Paulo. Participava, com Montoro, de solenidade comemorativa do anivers=
ário
da USP quando José Gre=
gori
me chamou ao telefone com urgência. Gregori, deputado estadual p=
elo
PMDB, estava na Sé nos esperando e, para surpresa de todos, era=
de
tal porte a multidão q=
ue o som
dos alto-falantes não chegava aos mais distantes do palanque. Nem&nb=
sp;mesmo
o entusiasmo de Osmar Santos, o locutor das Diretas Já, acalmaria&nb=
sp;a massa, que esperava as palavras de=
ordem
dos líderes políticos. Empenhamo-nos a fundo na campanha. No final, em=
bora
tivéssemos obtido a maioria dos votos da Câmara na madrug=
ada
de 26 de abril de 1984 - 298, contra 65 e 113 ausências -,
não conseguimos atingir 320 votos, a maioria qualificada
necessária na época para alterar a Constituição=
. Como líder no Senado, pronunciei o discurso a fa=
vor da
emenda pelas Diretas, apresentada pelo deputado Dante de Oliveira
(PMDB-MT). A defesa do ponto de vista contrário,
dificílima, coube ao
líder do governo, deputado Nelson Marchesan (PDS-RS), em um
discurso corajoso, vibrante. Mas, claro, não foi por isso que perdemo=
s:
nessas horas ninguém v=
ota em função
de belas palavras. Os parlamentares entravam no plenário com a "cabeça feita". Derrubada, a
emenda Dante de Oliveira na Câmara terminou sendo arquivada, sem=
ser
apreciada pelos senadores presentes à reunião do Congres=
so. Não faltou quem maldosamente dissesse que
alguns, como Tancredo Neves e eu próprio, preferíamos
perder. Políticos do PT - a começar pelo próprio =
Lula-anteviam
a possibilidade de a
oposição vencer no Colégio Eleitoral e achavam qu=
e um
grupo, com Tancredo à frente, vinha arquitetando a própr=
ia
vitória desde a campanha das
Diretas Já. Não se julgavam fatos, e sim supostas
intenções. Era a "política da infâmia"=
, de
acusarnos de "traições", sendo eles os
"puros". Da minha parte asseguro: é falso. O que eu n&at=
ilde;o
quis, após a derrota, foi transformá-la em cataclismo ainda&n=
bsp;maior,
com a vitória no Colégio Eleitoral do ex-governador biô=
nico
de São Paulo, Pau=
lo
Maluf, ou do coronel Mário Andreazza, ministro dos Transportes e
candidato do Presidente Figueiredo, que disputavam a indicaç&at=
ilde;o
do PDS, vencida por Maluf. Es=
te
já àquela altura simbolizava tudo o que não
desejávamos, desde a conivência, e mesmo o protagonismo, =
com
práticas inaceitáveis que mesclavam o público com o
Nos dias seguintes à decisão,
derrotados que fomos no Congresso, outra vez as águas
oposicionistas se separaram. Propus em discurso no Senado o lema
"Mudança já",
em vez de "Diretas Já", defendendo que partici=
pássemos
do Colégio Eleitoral, para aproveitar o clima de insatisfa&cced=
il;ão
crescente e derrotar o candidato do governo. Ganhamos paulatinamente o apo=
io da
maioria do partido, principalmente depois que Montoro, abrindo m&atild=
e;o
de qualquer pretensão de ser candidato à Presidênc=
ia
(títulos para isso
possuía), subscreveu algo que vinha sendo articulado em
Brasília, São Paulo e Minas - a candidatura de Tancredo
Neves.
Ulysses Guimarães resistia a essa manobra
(para não falar no PT, que a "denunciara"), apoiado
dentro do PMDB por um grupo purista, integrado entre outros por
Flávio Bierrenbach, a =
essa
altura deputado federal, e pelo também deputado federal Pimenta=
da
Veiga (MG). Durante um jantar em Brasília, na Churrascaria do L=
ago,
presentes Ulysses, Pacheco e
Chaves, Pedro Simon e eu (talvez outros mais), defendi nossa ida ao
Colégio Eleitoral apoiando um candidato de oposiçã=
;o.
Disse Ulysses: - A responsabilidade&n=
bsp;
é de quem for. Eu não irei.
Retruquei que dos ali presentes eu pagara o
preço mais alto pela ditadura: vivi no exílio, perdi a
cátedra, tinha ido parar no DOI-Codi.
Também por isso, queria logo mudar as condiçõ=
;es
políticas, com eleições diretas ou indiretas.
A articulação pró-Tancredo,
enquanto isso, seguia firme, tendo como principais protagonistas o dep=
utado
Fernando Lyra (PMDB-PE), o senador Affonso Camargo (PMDB-PR), oriundo do ex-PP de Tancredo e mui=
to
próximo ao governador mineiro, vários políticos de
Minas e o pessoal de São Paulo ligado a Montoro. O governador de
Minas, porém, mantinha=
-se discreto,
quieto. Lembro-me de um jantar com ele e Affonso Camargo no apartament=
o de
Fernando Lyra em Brasília. À mesa, discutiu-se a conveni=
ência
de sua candidatura, pela
óbvia circunstância de ser o nome mais capaz de atrair ap=
oios
no Colégio Eleitoral. Matreiro, Tancredo relutou, dizendo:
- Eu, de jeito nenhum. Não posso deixar =
de
servir a Minas. À saída, me pegou pelo braço e di=
sse:
- Vá se preparando, é a sua vez.<= o:p>
Percebi de imediato que seria ele o homem, pois,
dentre tantos nomes de peso no PMDB, eu, senador verde de primeiro
mandato, e ainda mais tendo chegado à cadeira na condição de suple=
nte,
não poderia de forma alguma ser candidato.
Apesar de sua relutância em ir ao
Colégio Eleitoral, e, já depois de ter concordado com a
idéia, Ulysses não somente foi, como comandou a vitóri=
a de
Tancredo a despeito da
legítima ambição que ele próprio alimentava&nbs=
p;de
ser o candidato das oposições à Presidência pelo
voto direto. Jatobá frondoso, Ulysses sabia resistir aos
ventos. Mas sabia, tamb&eacut=
e;m,
que alguns galhos se perdem. Comportou-se de modo admirável.
Roberto Gusmão, chefe da Casa Civil do governo Montoro, dera uma
entrevista à revista Veja um mês após a derrota da
emenda das Diretas4 dizendo que "São Paulo" (isto
é, Montoro) apoiava a candidatura de Tancredo. Ulysses, como fa=
zia
habitualmente, foi me ver na =
sede
do PMDB paulista, na rua Pio XII, no bairro da Bela Vista. Reproduzo de
memória a conversa que tivemos, de pé, olhando os jardins
pela janela, na sala de minha=
secretária,
Lola Berlinck:
"Páginas amarelas", ediç=
;ão
de 24/5/1984.
- Que história é essa do Gusm&ati=
lde;o?
É o Montóro? - perguntou-me com seu jeito de carregar a
paroxítona no nome do governador.
Respondi:
- Sim, Dr. Ulysses [era como todos o chamavam].=
E ele:
- E você, o que pensa?
Dei uma das respostas mais sofridas da minha vi=
da:
- O senhor sabe como eu o estimo, Dr. Ulysses. =
Mas,
para ganhar no Colégio Eleitoral, só o Tancredo, de quem
não sou tão próximo. Ele conta com mais apoio.
Ele perguntou:
- No meu lugar, o que você faria?
- Iria a Minas, para apoiar Tancredo, e chefiar=
ia a
campanha dele.
Ulysses me olhou com a mirada de jacaré =
que
sabia ter, gélido, polido
e firme:
- É, mas quero ouvir isso do Montó=
;ro.
E assim se fez. Jantamos no Palácio dos
Bandeirantes, sede do governo paulista, o governador Montóro,
Ulysses, Gusmão e eu. Conversa de "cerca-lourenço&q=
uot;,
até que Ulysses nos in=
timou:
- Quero saber a opinião de cada um de
vocês sobre o Colégio Eleitoral.
Demos, novamente constrangidos, nossas
opiniões. Grande Ulysses. Voou para Belo Horizonte, selando seu
apoio ao governador de Minas num jantar no Palácio das
Mangabeiras, a 20 de junho de=
1984,
chefiou a campanha, ajudou a definir o Ministério de Tancredo. E
coube ao VicePresidente José Sarney, efetivado no cargo, haver-=
se
com ele depois da trág=
ica morte
de Tancredo, a 21 de abril de 1985.
O PT julgou um erro disputar no Colégio
Eleitoral, pois teríamos poucas chances de vitória.
Considerou, sobretudo, que era uma manobra para coonestar o regime.
Não faltaram
acusações, como disse, de que durante a campanha das Dir=
etas
o que alguns de nós queríamos mesmo eram eleiçõ=
es pelo
Colégio Eleitoral... Sem o apoio do=
PT - exceto pelos deputados Airton Soares (SP), Bete Mendes (SP=
) e
José Eudes (RJ), que em decorrência foram expulsos do par=
tido
-, Tancredo Neves ganhou por 480 votos a 180 na histórica
eleição de 15 de janeiro de 1985 e, depois de sua morte,
José Sarney se tornou Presidente da República.
O pacto com os demónios beatificados
Outra vez, a circunstância incríve=
l de
termos elegido como Vice-Presidente um político "do
regime", que fora presidente do partido sucessor da Arena, o PDS,=
e
que se tornou depois Presiden=
te da República,
mostra a ambigüidade do jogo político e abre pistas para e=
ntender
como ele se dá no Brasil. Aliás, não só aqui: a
Espanha é outro e=
xemplo
de transição para a democracia na qual os "puros" o=
u influíram
menos do que gostariam ou tiveram que pactuar com os anjos decaí=
;dos,
ou melhor, com os demó=
nios
beatificados.
Na verdade, além das razões
políticas que levaram Tancredo a preferilo, Sarney se tornou
Vice-Presidente graças a uma tecnicalidade. Aqui, cabe recordar=
que
a eleição de Ta=
ncredo
só foi possível diante da inconformidade de importantes
setores do PDS com o crescimento - graças a práticas de
aliciamento que condenavam - da candidatura Maluf dentro do partido. Esse
grupo, tendo à frente os senadores Marco Maciel (PDSPE)
e Jorge Bornhausen (PDS-SC) e o Vice-Presidente=
de
Figueiredo, Aureliano Chaves
(PDS-MG), afastou-se do partido oficial, agrupou-se na Frente L=
iberal
(que não tardaria a se tornar o PFL) e, em coligação c=
om o
PMDB, formou a Aliança Democrática que derrotaria Maluf. Aureliano ch=
egara
a aspirar à Presidência, mas desistira de disputar. Sarne=
y,
que se integraria aos dissidentes, havia sido eleito senador pelo Maranhão pela lege=
nda da
Arena sete anos antes, em 1978. Outro candidato, que talvez gozasse da
preferência do PMDB, Marco Maciel, se elegera senador por
Pernambuco já pelo PDS=
, uma
reformatação da Arena. Segundo as leis partidária=
s de
então, parlamentares eleitos pelos vários partidos criad=
os
após a Emenda Constitucional n°=
11 perderiam o mandato se concorressem à Presidênc=
ia
trocando de legenda. Essa regra, descobriu-se logo, não
alcançava Sarney, que poderia filiar-se sem problemas ao PMDB e disputar pelo parti=
do.
Fosse Sarney ou fosse Marco Maciel, ambos vinha=
m do
"antigo regime" e teriam de ser absorvidos pelos oposicionis=
tas
"históricos" e por outros nem tanto, mas que no decorrer do processo polí=
;tico
se juntaram no PMDB. A verdade é que tanto Sarney como Maciel, =
bem
como Aureliano ou Bornhausen, foram fundamentais para ampliar a cisão dentro do sistema&n=
bsp;autoritário.
Aos poucos, constituíram uma oposição interna no PDS
e se opuseram ao continuísmo do regime, =
que
seria obtido com decisão palaciana predefinindo o futuro
Presidente, graças ao controle do PDS, com Maluf ou Andreazza.<=
span
style=3D'mso-spacerun:yes'> Assim como ocorrera, bem antes, com
Severo Gomes e Teotônio Vilela, voltaram-se contra o regime
autoritário e ajudaram a encerrar seu ciclo.
Não tive papel relevante nas
articulações entre o PMDB e a dissidência do PDS. =
Do
lado do PMDB, elas estiveram a cargo de Ulysses, Tancredo, Affonso Cam=
argo
e Pedro Simon, entre outros. =
Marco
Maciel e Bornhausen, aos quais se juntaria depois Aureliano, falavam p=
ela
dissidência. Pude participar de alguns episódios das
tratativas, como conversas na=
casa de
Bornhausen, com Simon, facilitadas pela circunstância de que os
três, além de Maciel, morávamos no mesmo
edifício da SQS 309 de Brasília.
Meu principal papel acabaria sendo involunt&aac=
ute;rio
e casual, e teve a ver com a divulgação precoce do
rompimento de Sarney com o PDS. O estreito contato que, juntamente com Simon, mantinha com nossos viz=
inhos
de apartamento Maciel e Bornhausen na época em que ambos se
preparavam, junto com outros companheiros, para romper com Figueiredo<=
span
style=3D'mso-spacerun:yes'> me permitiu saber que Sarney =
estava
se aproximando do grupo, que àquela altura já inclu&iacu=
te;a
Aureliano. Sem me dar conta da inconfidência, a bordo de um avi&=
atilde;o
entre Brasília e Rio, a
caminho de Paris, onde iria proferir na Sorbonne a conferência
"Marc Bloch", a convite da École dês Hautes &Ea=
cute;tudes
en Sciences Sociales, me encontrei
com o jornalista Ricardo Noblat, do Jornal do Brasil, e adiante=
i a
ele os rumores. No dia seguinte tudo saiu estampado no jornal, precipi=
tando
os acontecimentos.
Foram dias tensos, aqueles, que não haja
dúvida a respeito. Temia-se, por exemplo, uma reaç&atild=
e;o
militar a um candidato oposicionista com chances. Pode-se medir a
temperatura da
preocupação com as Forças Armadas pelo fato de que
chegou a haver conversas sobre para onde iria Tancredo na eventualidad=
e de
um pronunciamento militar. Instigado
por Roberto Gusmão, um discreto articulador desse delica=
do
assunto foi o banqueiro e ex-prefeito de São Paulo Olavo
Setúbal, ex-companheiro de Tancredo no extinto PP. Decidiu-se que o destino de Ta=
ncredo
seria alguma cidade do Sul. O general Leônidas Pires
Gonçalves, comandante do então denominado III
Exército, com quartel-general
exercer, anos antes, um comando
A propósito de preocupações
militares, vale narrar um episódio. Depois de eleito, um dia
Tancredo, demonstrando alguma inquietação, visitou-me em=
meu
apartamento
- O que você andou fazendo para os milita=
res
acharem que você e o Brizola são os maiores problemas? Pr=
ecisamos
dar um jeito nisso. Eles acham que vocês dois são um perigo.
De minha parte, o problema todo era que, na mes=
ma
entrevista à Playboy em 1984 na qual surgira a questão da
maconha, mencionada anteriormente, eu abordara a necessidade de se debater novos caminhos para =
as
funções constitucionais das Forças Armadas. Eu
não tinha em mente uma plataforma específica, ou algo as=
sim.
Os militares, porém, s=
empre
se mostraram muito sensíveis em relação a essa
questão, tanto que, mais tarde, na Constituinte, o debate a
respeito seria tenso e difícil. Acredito, e disse a Tancredo naquele dia, que as
Forças Armadas pudessem ver em mina alguma intençã=
;o
de vingança ou revanchismo, o que não era próprio =
;de
meu espírito. Quem ajudou a
desfazer o mal-estar foi Sarney, bem relacionado entre os militares. E=
le
teceu a boa intriga de que eu não preparava armadilha alguma co=
ntra
as Forças Armadas.
O jogo político não se desenvolve
contando aritmeticamente os "contra", como se o fossem para
sempre, e os "a favor", sendo estes os bons e maus os outros.
Pelo contrário:
dialeticamente, trata-se de transformar "maus" em
"bons". A política implica um processo de convencimento, p=
or motivos
e com objetivos variáveis, que,&nbs=
p;
olhados de forma individual, podem ser moralmente aceitá=
veis
ou discutíveis, mas cujo significado histórico ser&aacut=
e;
julgado por suas conseqüências. Este não é um tema=
banal.
É em função dele que se desdobra, como vimos, a
discussão weberiana sobre a ética da responsabilidade.
Conforme ele seja compreendido, também Maquiavel se transforma no símbolo do ho=
rror
na política ou na virtude da governabilidade. O fato é q=
ue,
sem a Frente Liberal, o caminho para o término do autoritarismo
teria sido provavelmente=
muito
mais difícil.
Por que Figueiredo não passou a faixa a =
Sarney
Empossado provisoriamente José Sarney, c=
om
Tancredo hospitalizado, o país viveu semanas de enorme
angústia. E os políticos, dias decisivos.
Três dias antes da crise que levou Tancredo ao hospital est=
ive
com ele, na Granja do Riacho Fundo, residência oficial onde mora=
va
desde a eleição pelo Colégio Eleitoral. O PMDB
já estava se acalmando=
do
susto com a indicação de Sarney como Vice-Presidente, na
convenção do partido, ocorrida em agosto de 1984. Os gri=
tos
do MR-8, agrupamento àquela altura ligado a políticos do
partido, de "Ei, ei, ei, Sarney é nosso rei", haviam
abafado na convenção os votos dos setores do PMDB que n&atild=
e;o se
conformavam com a escolha.
Eu perdera a disputa para exercer a lideran&cce=
dil;a
do PMDB no Senado, pretensão estimulada por Tancredo em
reunião que tivemos na sede da representação da
Fundação Getulio
Vargas (FGV)
Acontece que o senador Humberto Lucena (PMDB-PB=
), a
quem eu sucederia como líder, fora derrotado na
eleição para presidente do Senado, e por isso, a pedido =
de
Tancredo, abri mão da
indicação, propiciando que Lucena continuasse a exercer a
liderança. Montoro, entretanto, me queria numa
posição de destaque na nova situação. Depois
- Que história é essa de lí=
;der
no Congresso?
Tancredo, ao anunciar o Ministério, tinha
informado que a mim caberia a função. Respondi a Ulysses=
que
iria imediatamente ver do que se tratava, e ele contestou que não adiantava mais, poi=
s o
Presidente já se dera
conta de minha escolha. Essa a razão da =
visita
a Tancredo no Riacho Fundo: saber das minhas novas funçõ=
es.
No Riacho Fundo, esperei longo tempo que o Pres=
idente
eleito terminasse um encontro com o ex-governador e deputado Miguel Ar=
raes
(PMDB-PE).
Havia rumores de que Tancredo estava com alguma leve enfermidade, talvez problemas de garganta. Não notei nada. Conversamos por não muito tempo em um alpendre largo. Perguntei= -lhe sobre o que esperava de mim.<= o:p>
Respondeu que gostaria que fosse a pessoa de sua
confiança no Congresso - Câmara e Senado em conjunto, que=
em
várias situações apreciam como uma só casa
determinadas questões -, e que não me preocupasse com mais&nb=
sp;nada.
Ele iria chamar o recém-eleito presidente do Senado, José
Fragelli (PMDB-MS), que vencera
a disputa com Lucena, e daria instruções para que
fossem demolidas paredes e adaptassem uma sala imensa para mim.
Assim, disse-me, logo vão ver quem tem p=
oder...
Fiquei para o almoço, juntamente com Arr=
aes e
com o casal Yvone e Henry Gigliotti, ele embaixador da Ordem de Malta =
no
Brasil. À mesa, sentado ao lado de Tancredo, ouvi do outro lado a esposa, dona
Risoleta, pedir que não se oferecesse vinho ao Presidente. Como=
seu
copo estivesse servido, troquei-o com o meu. Boa parte da conversa,
Foi a última vez que vi Tancredo com vid=
a. Na
antevéspera da posse, quando jantava no Tarantella, recebi uma
chamada de Fernando Lyra, recém-designado ministro da Justiça, para comentar rumo=
res
sobre uma crise de apendicite do Presidente eleito. No outro dia,
jantávamos na embaixada de Portugal, com o Presidente Má=
rio
Soares, Ulysses Guimar&a=
tilde;es,
penso que o deputado Pimenta da Veiga (PMDB-MG) e outros políti=
cos,
quando chegou a má notícia: Tancredo tivera que ser internado=
em
cará-
ter de urgência no Hospital de Base de
Brasília. Para lá rumamos todos.
Entrei até a antecâmara do quarto =
onde
ele se encontrava. Falei rapidamente com seu sobrinho, o ex-secretário da Receita
Federal e ministro da Fazenda designado Francisco Dornelles, que acaba=
ra
de estar com o tio. Minutos depois passava Tancredo em uma maca rumo ao elevador que o conduz=
iria
ao centro cirúrgico.
Dirigi-me a outro andar onde se concentravam
vários políticos. Em uma roda, conversavam, entre outros,
Sarney, Ulysses, Fragelli e o general Leônidas. Sarney dizia que não pretendia assumir, =
que
tinha dúvidas sobre quem deveria suceder Tancredo durante o
impedimento, que todos imaginavam temporário. Àquela alt=
ura,
Afonso Arinos, constitucional=
ista de
peso, havia declarado pelos meios de comunicação seu entendim=
ento
de que correspondia ao Vice-Presidente, e não ao presidente da
Câmara, isto é, a Ulysses, assumir a interinidade.
Em certo momento, creio que foi Ulysses quem di=
sse:
-Vamos conversar com o professor Leitão =
de
Abreu para tomar uma
decisão.
Leitão de Abreu era ministro-chefe da Ca=
sa
Civil da Presidência e figura-chave do governo Figueiredo,
além de, como vimos no Capítulo l, ministro aposentado do
STF. Saímos sorrateira=
mente,
Ulysses, o general Leônidas e o senador Fragelli e, no
automóvel do general, nos dirigimos a toda velocidade para a Gr=
anja
do Ipê, residência
oficial do ministro.
Somente um jornalista se apercebeu da manobra, =
Jorge
Bastos Moreno, de O Globo, que nos viu entrar nos portões do
Ipê.
Passava da meia-noite, e aparentemente o dr.
Leitão de Abreu se recolhera. Esperamos bom tempo até que
viesse ter conosco, mas ele surgiu na sala trajando paletó, gravata e colete. Colocada a
questão, continuavam as dúvidas. Recordei-me do livro de
Afonso Arinos, Rodrigues Alves: apogeu e declínio do
parlamentarismo? no qual h&aa=
cute;
referências a situação semelhante, quando o Presid=
ente
Rodrigues Alves, que governara de
' Edição recente é Afonso =
Arinos
de Melo Franco, Rodrigues Alves: apogeu e declínio do
parlamentarismo, Brasília, Senado Federal, 2001.
do professor Leitão, porém, j&aac=
ute;
estava encaixotada, não poderíamos consultar o livro. Ha=
via
disponível apenas um exemplar da Constituição.
Foi lido com cuidado por todos nós. O general
Leônidas disse que não era jurista e acataria qualquer
decisão. Leitão de Abreu parecia pender para a
interpretação que favorecia o presidente da Câmara como sucessor =
;constitucional,
posto que ainda não ocorrera a posse do vice. Ulysses Guimar&at=
ilde;es,
no entanto, secundado pelo presidente do Senado, alinhou-se com a tese=
de
Arinos e convenceu o professor Leitão da validade de sua exeges=
e. O
ministro do Exército e eu ficamos a ouvi-los, sem credenciais p=
ara
discutir o mérito. A c=
erta
altura alguém perguntou:
- E a faixa, o Presidente Figueiredo vai
transmiti-la? O chefe da Casa Civil redarguiu com firmeza:
- Presidente só transmite faixa a outro
Presidente. Assunto encerrado.
Está aí a verdadeira razão=
que
levou o Presidente Figueiredo a não transmitir o cargo - e a fa=
ixa
- a Sarney. Diferentemente do que diz a lenda, segundo a qual
Figueiredo "saiu pelos f=
undos
do palácio" para não passar a faixa porque nã=
;o
suportava Sarney, houve uma discussão prévia a respeito =
do
assunto com o chefe da Casa Civil e
renomado jurista Leitão de Abreu, em que se levantou uma
questão constitucional que incluía outra, de protocolo.
Figueiredo podia, efetivamente, não tolerar Sarney, a quem não perdoava a
deserção do PDS, mas a realidade dos fatos é a que
agora descrevo.
A morte de Tancredo, o vazio e o butim do Estad=
o
Boa parte do PMDB ficou inconformada com a
decisão. Na volta da Granja do Ipê, Ulysses, Fragelli e eu
rumamos para o Congresso. Havia firme expectativa entre as bancadas, tendo à frente o
líder do partido na Câmara, Freitas Nobre (SP), de que
Ulysses seria o ocupante provisório do cargo e com ele, portant=
o, o
PMDB (Sarney, pela
filiação recente e por razões óbvias,
não era considerado, para este efeito, PMDB).
Ulysses, comandante indiscutível, cortou,
incisivo: questão resolvida, não se falava mais no assunto. E assim=
foi.
É possível conjeturar o porquê de tanto empenho em
passar o cargo para Sarney. Seria temor a uma reação
militar, uma vez que Ulysses e
todos nós do MDB histórico éramos críticos
ferozes do regime?
Para quem assistiu às
deliberações e viu a reação do general
Leônidas, é pouco provável. Os maldosos insinuaram,
mais tarde, que Ulysses teria querido se poupar para uma eventual nova
eleição no Colégio Eleitoral em caso de falecimen=
to
de Tancredo, já que, assumindo interinamente, se tornaria
inelegível. Maldade e bobagem.
A verdade é que nenhum de nós imaginava que Tancr=
edo
viesse a morrer. Tratava-se, pensávamos, de mera interinidade e
não convinha perturbar um processo tão penosamente levado
adiante para afastar os militares e seus partidários do poder.
Ademais, a Constituição abonava a
decisão tomada. A verdade é que Ulysses, além de
tudo, revelou-se altruí=
;sta
no episódio.
As conseqüências políticas de=
tudo
isso, após a morte de Tancredo, foram enormes. Havia um sentime=
nto
de estar pouco à vontade que alcançava, penso eu, o
próprio Presidente Sar=
ney.
Com Tancredo ainda no hospital, mas se tornando óbvio que
não se recuperaria, Fernando Lyra, Affonso Camargo - que Tancre=
do
designara ministro dos Transp=
ortes
- e eu fomos ter com Sarney, no Palácio do Jaburu, a resid&ecir=
c;ncia
oficial dos vice-presidentes da República, onde se instalara.
Encontramos o Presidente em
exercício conversando com o jornalista Carlos Castello Branco, o
Castelinho, respeitado colunista do Jornal do Brasil.
Insistimos com ele para assumir plenamente as funções presidenc=
iais.
Sarney, por prudência ou natural
constrangimento, relutava. Ele já era Presidente de direito,
durante o impedimento de Tancredo, mas não decidia as
nomeações necessárias ao pleno funcionamento da
máquina pública nem dava rumos ao governo. Nós
integrávamos o grupo próximo a Tancredo, desde quando o<=
span
style=3D'mso-spacerun:yes'> ajudamos no Colégio Eleitor=
al, e
tínhamos a legitimidade de sermos, Lyra e eu, emedebistas antig=
os.
Apelamos a Sarney para que exercesse plenamente o mando, pois Tancredo, embora ainda vivo,
lamentavelmente não sobreviveria e a situação
política se deteriorava gradativamente. Lembrome de um de
nós dizendo:
- Viemos aqui pedir a você que comece a
governar, porque tudo indica que infelizmente o Tancredo não vai
sair dessa.
Eu estava em Brasília quando terminou o
martírio de Tancredo no Instituto do Coração do
Hospital das Clínicas,
104
multidão que tentava acompanhar o cortej=
o.
Depois, o enterro do Presidente
O vazio provocado pela morte de Tancredo seria
gigantesco, como não podia deixar de ser. E Sarney, mesmo depoi=
s de
efetivado como Presidente, tinha pouca margem de manobra. O Ministério fo=
ra
montado por Tancredo em consonância com Ulysses. Lembro-me de qu=
e,
certo dia, Ulysses convidou para jantar em sua casa todos os
ministros do PMDB, e n&a=
tilde;o
incluiu o ministro da Fazenda, Francisco Dornelles, que não per=
tencia
ao partido. Por circunstâncias familiares, eu tinha uma liga&cce=
dil;ão
pessoal com Dornelles - seu p=
ai,
Mozart Dornelles, tinha sido o maior amigo de Ciro do Espírito
Santo Cardoso, o primo-irmão de meu pai que ocupara o
Ministério da Guerra sob
Getúlio, no começo dos anos 1950. Tomei a iniciat=
iva
de ir à casa do ministro para explicar que o jantar não =
era
voltado contra ninguém. Na prática, porém, Ulysses&nbs=
p;presidiu
um jantar do Ministério, e com a ausência não apenas de=
Dornelles,
mas do próprio Presidente da República. A bem da verdade,&nbs=
p;diga-se
que Sarney precisou munir-se =
de
grande tolerância para atravessar aquele período.
O PMDB, enquanto isso, estava exercendo plename=
nte o
butim do Estado, como passou a fazer o PT após a vitória
eleitoral de Lula em 2002, trocando funcionários e técnicos por partidá=
rios e
clientes, pretextando a necessidade de expurgar a máquina admin=
istrativa
dos que haviam servido ao regime passado: houve até, nas bancad=
as parlamentares,
sorteio para
105
ver quais cargos em que órgãos
públicos seriam preenchidos por indicações de qua=
is
deputados e senadores. A anuência ao procedimento era quase gera=
l,
havendo discrepância ma=
ior de
um pequeno grupo de que faziam parte, entre outros, o líder do
partido na Câmara, Pimenta da Veiga, e eu próprio.
A Constituinte me fez lembrar maio de 1968
Foi nesse contexto que ganhou força a
idéia de se convocar uma Assembléia Nacional Constituint=
e,
movimento antigo e forte na sociedade civil. Uma comissão
designada ainda por Tancredo,=
e
mantida por Sarney, se formara para preparar, sob a direç&atild=
e;o
de Afonso Arinos, um anteprojeto de Constituição. O divi=
sor
de águas, nesse caso, =
era:
Constituinte exclusiva ou Congresso com poderes constituintes. Ou seja=
, os
partidos existentes e as lideranças que emergiriam das
eleições parlamentares teriam maior peso, ou um grupo de
notáveis ou de representantes mais "puros", com menos
vínculos partidários, se encarregaria, depois de eleito,=
de
aprovar uma nova Constituição, dissolvendo-se ao final?
Havia uma influente corrente de formadores de
opinião favorável a que se convocassem os eleitores para
duas tarefas simultâneas: a eleição de deputados e senadores para=
os
trabalhos regulares do Congresso - na qual teriam papel preponderante =
os
partidos existentes, lideranças consolidadas e
políticos de carreira =
em
ascensão - e a eleição de um coletivo de
"constituintes puros", a que poderiam concorrer candidatos s=
em
filiação partidária e "notáveis" de t=
odo
tipo, cuja única e&nbs=
p;exclusiva
função seria elaborar uma nova Carta para o Brasil redem=
ocratizado,
após o que essa Constituinte seria dissolvida.
O pragmatismo e a compreensível press&at=
ilde;o
dos políticos em atividade levaram a que predominasse a alterna=
tiva
de um Congresso com poderes constituintes, que se chamaria Assembléia Nacional Constit=
uinte.
O Presidente Sarney não custou a
convocá-la. Ulysses Guimarães, como seu presidente, foi =
o gigante
da Constituinte. Pimenta da Veiga era o mais insistente na
necessidade e urgência =
da
convocação. O Plano Cruzado de fevereiro de 1986, que ab=
rira
tantas esperanças, contendo momentaneamente a
inflação e conseqüentemente aumentando o poder de
l
compra das classes populares, se dissolvera na
incontinência fiscal e, novamente, lançara o desâni=
mo
na população e o desprestígio nos político=
s. A
Constituinte eleita a 15 de
novembro daquele ano funcionaria como um ersatz dos belos dias de
esperança.
Aquela Assembléia algo caótica er=
a a
expressão do Brasil popular gerado nas décadas anteriores
pelo regime autoritário e contra ele. Pelo regime, por causa do
"milagre
econômico", com maior urbanização, mais&nbs=
p;migração
interna, mais diferenciação de classes. Contra o regime, porq=
ue as
novas classes e grupos nos anos 1980, e desde o fim dos 1970, começa=
ram a
se mobilizar e não encontravam mais posições no mercad=
o, sofrendo
com a inflação em alta e com a perda de dinamismo
econômico. As forças&nbs=
p;
mais organizadas que marcavam presença na vida nacional, fora=
o empresariado,
eram as corporações produtivas estatais, as igrejas, os =
sindicatos
e as associações,
tanto de trabalhadores como de funcionários. Todas elas
reapareceram, como veremos adiante, nos debates constitucionais, trata=
ndo
de defender seus valores e interesses.
O Dr. Ulysses me designou para ser o relator do
Regimento Interno da Constituinte, ou seja, o documento que regulament=
aria
o funcionamento da Assembléia. Pedi ajuda ao deputado Nelson Jobim (PMDB-RS),
portavoz da OAB em matéria constitucional. Os constituintes
recusavam partir de um texto elaborado fora da Assembléia. Os
parlamentares desdenhavam do&=
nbsp;anteprojeto
da Comissão Arinos que, segundo Tancredo imaginara inicialmente,
poderia organizar o debate, com Afonso Arinos - de volta à vida
pública como senador e=
leito
pelo PFL do Rio de Janeiro - presidindo-a e tendo a mim como relator.
Também não chegou a ser examinada uma iniciativa de um
famoso jurista de
oposição, Fábio Konder Comparato, que, para
pasmo de muitos, elaborou um projeto fortemente corporativo, com laivos
ingenuamente autoritários, propondo um planejamento central.
O Regimento que apresentamos, e que acabou
prevalecendo, tentava apenas pôr ordem nos procedimentos. Cada
constituinte tinha o direito de apresentar as sugestões que quisesse, e estas seriam
encaminhadas às respectivas comissões temáticas, =
que
preparariam um texto para ser consolidado
constituintes. O Regimento predefiniu a
divisão de capítulos da Constituição, tal =
como
acabaria se mantendo na Carta. Foi recebido, entretanto, como se fosse
uma "rolha". Cada
parlamentar sentia-se no direito e no dever de participar de tudo e tu=
do
fazer. Recordei-me muito, naqueles dias, do meu tempo de Nanterre, da
Revolução de Ma=
io de 1968
na França, quando era "proibido proibir".
Ocorreram pressões enormes, da direita e=
da
esquerda, para se alterar o Regimento. Lembro-me de uma conversa com L=
ula,
eleito deputado constituinte por São Paulo com a maior votação =
do
país, em que a certa
altura ele me disse:
- Entendo sua posição, mas tenho =
de
lutar para modificar o Regimento.
Ao que alertei:
- Cuidado, a emenda pode resultar pior que o so=
neto.
Dito e feito. Ulysses determinou uma revis&atil=
de;o
no Regimento e o resultado só não foi uma
redução de avanços democratizadores porque eu consegui=
manter
o essencial da proposta: as e=
mendas
populares e as cláusulas de autonomia da Constituinte.
Sarney, por seu lado, temia o que pudesse estar=
sendo
engendrado contra sua autoridade presidencial, A posição
dele não era fácil:
VicePresidente transformado em Presidente da República,
ex-presidente do PDS, sustentado sem firmeza por seu novo partido, o P=
MDB,
com um Ministério que não escolhera e à sombra do
prestígio de Ulysses. =
Um dia,
o líder do governo na Câmara, deputado Carlos SanfAnna (PMDB-B=
A),
e eu fomos até ele. Havia preocupação com um
dispositivo do Regimento Interno
que permitia à Constituinte barrar decisões do Executi=
vo
que de alguma forma ferissem a vontade soberana da Assembléia. =
Isso
poderia parecer um golpe branco e na&=
nbsp;
verdade foi interpretado como uma tentativa de o Dr. Ulysses
"tutelar" o Presidente. Não era essa minha inten&cced=
il;ão,
ao incluir o dispositivo no Regimento. Queria somente reafirmar o
óbvio: a Constituinte era soberana. Não visava, contudo, =
;permitir
casuísmos. O dispositivo lá permaneceu, e nunca ningué=
m o
usou para manobras menores.
Com esse clima de incertezas; com um governo qu=
e, em
razão das circunstâncias de seu nascimento, pouco podia
influenciar as decisões no dia-a-dia da Constituinte; com um líder, o
recém-eleito senador Mário
Covas, experiente, mas afastado por longo
período do convívio dos políticos por forç=
a do
AI-5 e sem ter ocupado até então a cadeira de deputado
obtida em 1982 porque exercer=
a a
Prefeitura de São Paulo; com o predomínio de Ulysses, mas
com a irrupção do chamado "Centrão";6 com&nb=
sp;um
sem-número de "poréns", com tudo isso, a Constituin=
te foi um grande momento da vida
política nacional.
É certo que a Constituição
votada nasceu a destempo: era estatizante e corporativa, e isso &agrav=
e;s
vésperas da queda do Muro de Berlim e da virada anticorporativi=
sta de boa parte das próprias
esquerdas mundiais. É certo, como diziam o Presidente Sarney e o
último de seus ministros da Fazenda, Mailson da Nóbrega,=
que
o regime fiscal criado sufoca=
ria o governo
federal. Isso só não ocorreu porque a União passou a u=
sar
o aumento das "contribuições sociais" como
válvula de escape, vindo,
isto sim, a sufocar a sociedade com o peso dos tributos.
Sobre tudo isso, contudo, Ulysses tinha raz&ati=
lde;o:
é uma "Constituição Cidadã".
A ampla liberdade partidária (que
começou antes da Constituinte, com a Emenda Constitucional n&de=
g;
25, de maio de 1985, à antiga Constituição de 196=
7),
a independência do
Ministério Público (por mais dor de cabeça que ca=
usem
os abusos de alguns procuradores da República), o novo papel do=
STF
no controle da constitucionalidade,
a extensão a novos atores políticos do direito de
arguir a inconstitucionalidade das leis, as liberdades civis, a
aspiração à maior igualdade de género, de class=
e, de
raça, o acesso mais fácil ao sistema de saúde constitu=
em
alguns dos marcos bem fincados pela Constituição na pr&a=
acute;tica
de nossa sociedade.
E dizer que a oposição da é=
;poca,
principalmente o PT (que não aprovou o texto final), considerav=
a-a
uma Carta "burguesa"!
6 Grupo de constituintes integrantes de diferen=
tes
partidos, com orientação liberal na economia e clienteli=
sta
na política, O Centrão conseguiu derrubar um item do Regimento Interno que conferia&=
nbsp;preferência
nas votações em plenário a emendas provenientes da
Comissão de Sistematização, espécie de
coração da Constituinte,&nbs=
p;
controlada por Ulysses. Passaram a ter preferência emendas
assinadas por metade mais um dos constituintes. Como novo dispositivo,=
o
Centrão conseguiu retirar parte considerável do poder da
Comissão em matéria de decidir o andamento da pauta da
Assembléia. Mais à frente, no texto deste livro, vou abo=
rdar
o comportamento político e a
importância do Centrão.
Os debates e um caleidoscópio nos partid=
os
Os debates da Constituinte se iniciaram, como
já disse, em torno de dois eixos: o primeiro, a discussão
sobre a Constituinte exclusiva ou não. O segundo girava ao redor da aceitação ou
não de um projeto preliminar de Constituição para
orientar os debates. Tal proposta teria sido elaborada por
"sábios", como maldosamente insinuavam os que só aceitavam discuti=
r propostas
vindas diretamente dos constituintes.
Embora possa parecer que essas questões
são de interesse menor, na verdade elas anteciparam um debate q=
ue
durou o tempo todo e que prenunciou as diferenças
partidárias. Por tr&aa=
cute;s
estava a questão da "soberania" da Constituinte e,
portanto, um eventual choque com o governo Sarney e com o modo pelo qu=
al
seria tratado o "entulho autoritário" - a herança institucional e
legislativa do regime militar.
Os que desejavam uma Constituinte dita soberana
propunham mudar imediatamente alguns itens da Constituiçã=
;o em vigor, que consideravam il=
egítima.
Essas mesmas forças temiam manobras para restringir o alcance d=
emocratizador
da ação dos constituintes. O Planalto sentia tais temore=
s de
maneira oposta: havia constituintes com vontade de desestabilizar o go=
verno
e de diminuir o mandato do Presidente eleito.
Não é o caso de entrar
Na verdade o texto aprovado, depois de
negociações lideradas pelo deputado Antônio Britto
(PMDB-RS), foi uma emenda do deputado
Maurílio Ferreira Lima (PMDB-PE) que amortecia os temore=
s de
que a Assembléia extrapolasse seu legítimo direito de
afirmação e defesa. E coube ao deputado Flávio
que não vingou.
Essas discussões tinham como pano de fun=
do uma
questão política que embaçou a análise de
quase tudo: a duração do mandato do Presidente Sarney. A=
ntes
mesmo da eleição de
Mário Covas como líder do PMDB na Constituinte, no
início de março de 1987, surgiu um "grupo de centro̶=
1;
liderado pelo senador José Richa (PMDB-P=
R) -
sem relação alg=
uma
com o futuro Centrão, a que vou me referir mais detidamente em
seguida - que se propunha a garantir que não seriam tomadas med=
idas
casuístícas de reforma da
Constituição vigente e que o mandato do Presidente seria
definido no prazo de seis meses.
Mesmo depois de aprovado o Regimento Interno e =
de
compostas as comissões temáticas, que foram oito, nas qu=
ais
os constituintes se distribuíram, os trabalhos andavam morosamente. Cada constituinte
não poderia participar de mais de uma comissão
temática e havia 49 parlamentares que integravam a Comiss&atild=
e;o
de Sistematização, que
deveria conciliar os pontos de vista eventualmente divergentes e
dar forma, gradativamente, ao novo projeto de Constituiçã=
;o,
antes de ele passar às mãos do relator, deputado Bernardo
Cabral (PMDB-AM). Este, junto com três ou quatro relatores-adjun=
tos,
deveria redigir cada texto a ser submetido ao Plenário. Fui
relator-adjunto por um tempo.=
Logo
após, como a Comissão de Sistematização, s=
ob a
Presidência do senador Afonso Arinos, a essa altura no PSDB,
requeria intenso trabalho político,=
houve a decisão de me incorporar nela junto com o senador
Jarbas Passarinho (PDS-PA), como vicepresidentes, para, com o deputado
Brandão Monteiro (PDT-RJ), que já era vice, assumirmos na
prática a liderança do processo decisório.
Paulatinamente, apesar dos vários choque=
s de
opinião, fomos conseguindo avançar a discussão
dos temas constitucionais.
Já se prenunciavam choques do que veio a=
ser
posteriormente o Centrão, agrupamento de centro-direita formado=
por
parlamentares conservadores e por congressistas tradicionalmente ligados ao Planal=
to,
sem serem necessariamente conservadores, que se organizou como contrap=
eso
às lideranças do PMDB e às esquerdas. As
divergências giraram,&n=
bsp;inicialmente,
ao redor do quorum para deliberações. O PFL queria que se&nbs=
p;dessem
por maioria absoluta, ou seja, por metade mais um de todos os integran=
tes da Constituinte; os líderes=
do
PMDB (embora não todos os peemedebistas), por maioria simples, =
quer
dizer, a maioria dos parlamentares que estivessem participando de cada votação. As
razões da disputa eram óbvias: propostas mais controvert=
idas
teriam maior dificuldade de aprovação por maioria absolu=
ta.
Os constituintes não se dividiam apenas =
quanto
a questões conjunturais ou de tramitação. Suas
opiniões discrepavam nas questões económicas, nas =
;questões
sociais em geral e no alcance=
da
ação do Estado. E os alinhamentos se davam em cada
questão específica, não necessariamente a partir =
de
uma visão do mundo, de uma ideologia. Um determinado
constituinte poderia defender um mandato para o
Presidente Sarney de quatro, cinco ou seis anos, sendo ou não
parlamentarista, poderia ser mais propenso à iniciativa privada ou mais intervencionista,
aceitar a redução da jornada de trabalho ou não, e
assim por diante. Ou seja, podia alinhar-se segundo questões es=
pecíficas,
sem que elas se concaten=
assem.
Mais complexo ainda: em um mesmo partido, os parlamentares se dividiam
como em um caleidoscópio quanto a esses diversos temas.
Uma visão apressada sobre as
incoerências partidárias e as inconseqíiênci=
as
político-ideológicas pode, portanto, condenar facilmente=
o
sistema partidário que se
estava montando como incapaz de espelhar as diferenças da
sociedade e de dificultar o funcionamento de uma democracia
"verdadeira". E até certo ponto é assim mesmo. Porém o processo &eacu=
te;
mais complexo. Vejamos pouco a pouco como se pode argumentar de outra
maneira. Comecemos, a seguir, pelos temas económicos mais gerai=
s.
Os temas económicos e o nacionalismo
estatizante
Nesses temas, predominaram as questões
relacionadas à dívida externa e às taxas de juros=
. A
média dos constituintes manifestava viva repulsa às elev=
adas
taxas de juros e críti=
cas ao
FMI e ao pagamento da dívida externa. Note-se que o debate ocor=
ria
depois da moratória da dívida do governo Sarney, quando,=
por
exaustão das reservas,=
mas
sob fundamentos retóricos de "soberania", o paí=
;s
deixara, em fevereiro de 1987, de cumprir seus compromissos sem buscar=
uma
renegociação. Logo no início dos trabalhos da
Constituinte, havia um novo ministro da Fazenda, o peemedebista Luiz
Carlos Bresser-Pereira. Ele substituíra Dilson Funaro, empres&a=
acute;rio
nacionalista, homem determina=
do,
cercado por alguns assessores de primeira ordem, em cuja gestão
fora decretado o cruzado e que, durante o auge do sucesso do plano,
obtivera um êxito pol&i=
acute;tico
até então medito na História do país,
tornando-se um ministro da Fazenda popularíssimo e
carismático. Lembro-me de uma viagem em que acompanhei a Campin=
as o
Presidente Sarney e o próprio Funaro - amigo com quem, quando m=
ais
moço, costumava jogar baralho numa mesa que incluía Roberto
Gusmão, o empresário e&=
nbsp;
editor Fernando Gasparian e o jornalista Fernando Pedreira. O
ônibus da comitiva, como ocorria com freqüência com o =
;ministro,
tinha que ir parando ao longo do caminho&n=
bsp;
para que as pessoas
viessem saudar e aplaudir Funaro. Nas ruas, que=
riam
pegar nele, tocá-lo, como se ele fosse um profeta, um santo.
Mas, por motivos que não cabe aqui aprof=
undar,
veio o naufrágio do cruzado e durante a gestão de Funaro=
o
governo decretou a moratória.
Quando Bresser assumiu, o governo começava a entabular
conversações com os credores e precisava explicar ao
público interno que a renegociação seria
"altiva", na expressão do ministro. Bresser, velho amigo e vizinho em
Ibiúna, economista e professor respeitado, tinha boa experi&eci=
rc;ncia
na vida pública, adquirida sobretudo nas diversas posiç&otild=
e;es de
relevo que ocupara durante o
governo Montoro
Constituintes de diversos partidos opinavam
constantemente sobre a questão da dívida, quase sempre
pedindo cautela nas negociações, quando não
expressando repúdio ao=
FMI e
ao próprio pagamento do que o país devia. A cada instant=
e se
exigia uma auditoria no Banco Central (BC), para verificar a legalidade
dos contratos de empréstimos.
Lula, um pouco antes, cuidadoso com as multinacionais, dissera =
ser
de bom senso não se posicionar contra elas, embora devessem exi=
stir
critérios para controlar sua&n=
bsp;
ação. Mesmo assim, manifestou-se pela suspensão=
do pagamento
da dívida externa.7 O deputado Luiz Henrique da Silveira (SC), =
líder
do PMDB na Câmara, apoiava a suspensão do pagamento dos juros e, ind=
o mais
longe, sugeriu à Constituinte, logo em seu discurso inaugural, =
uma
reforma para regulamentar os "lucros exagerados dos bancos" e impedir que o Banco do Bras=
il
(BB) fosse supostamente esmagado pelos bancos privados.8 Vários
outros pronunciamentos tiveram teor semelhante.
7 No dia 27 de janeiro de 1987, Lula, deputado
constituinte eleito e presidente do PT, e o deputado Eduardo Suplicy
reuniram-se
* Folha de S. Paulo, 21/2/1987; Gazeta Mercanti=
l,
mesma data; O Estado de S. Paulo, mesma data.
Não era de estranhar, portanto, que logo
surgissem propostas para utilizar a Constituição como fr=
eio
à política econômica. Nesse sentido, o deputado
Fernando Gasparian (PMDB-SP)
sobrepujou com seu zelo até mesmo os partidos de esquerda:
propôs incluir na Constituição a limitaç&at=
ilde;o
da taxa de juros a 12% ao ano, o cancelamento da captação de dep=
ósitos
por bancos estrangeiros e também a substituição do
Conselho Monetário Nacional por uma comissão de
parlamentares que poderia emitir títulos públicos para ajudar empres=
as
nacionais
O ministro Bresser penou para levar adiante a
negociação "altiva" com os bancos estrangeiros=
e o
FMI. Este foi alvo preferencial de críticas de todos os lados
do espectro político.
Finalmente o PMDB concordou que o ministro procedesse à
negociação da dívida, desde que o país nã=
;o
se submetesse "a um monitoramento e a ajustes recessivos na economia".
Notese que essa autorização caute=
losa
veio a público por meio do porta-voz da Presidência, em n=
ome
de Ulysses Guimarães e do próprio Presidente Sarney,9 depois que ambos se reuni=
ram no
Planalto. A esta declaração seguiuse um encontro entre as
principais lideranças do PMDB que apoiavam as
negociações com os
bancos, desde que excluíssem um acordo com o FMI. Considerava-s=
e a
instituição "nociva" ao país. Covas afi=
rmou
que se o mi-
9 Folha de S. Paulo, 29/7/1987.
114
nistro conseguisse tratar com os bancos sem o F=
undo,
isso representaria uma "revolução" na estrutura
interna do sistema capitalista internacional.
Apesar da bravura de suas posiçõe=
s,
Bresser não conseguiu a negociação naquele moment=
o. O
Tesouro norte-americano rejeitou as propostas brasileiras de
alongamento dos título=
s da
dívida e o país continuou sufocado, sem créditos
externos. Anos mais tarde, as teses de Bresser acabariam incorporadas =
ao
plano que leva o nome do
secretário do Tesouro dos EUA entre 1988 e 1993 (governos
Ronald Reagan e George H.
Bush), Nicholas F. Brady.
Essas reações, que, repito, expre=
ssavam
o sentimento da maioria e empolgavam as minorias "à
esquerda" do próprio PMDB, tinham a aceitação&nbs=
p;de
líderes como Pimenta da
Veiga, para não falar de Fernando Gasparian.
Joguei água na fervura, declarando que e=
ram
exagerados os pruridos em torno do pagamento de parte dos juros
devidos, embutido na proposta=
Bresser.
Também Mário Covas achou politicamente aceitável a
proposta Bresser, nos termos apresentados.
Esse ziguezague durou todo o tempo. Bem mais ta=
rde,
em janeiro de 1988, com o novo ministro da Fazenda, Mailson da
Nóbrega, até então secretário-geral do
Ministério e funcionário de carreira do BB, que substitu=
íra
Bresser no posto, continuavam=
as dificuldades
para que se aceitasse uma negociação com o FMI. Pronunci=
ei
então um discurso no Senado sobre "A crise e as
opções nacionais", criticando as hesitações do
governo na matéria, propondo a integração
"soberana" de nossa economia no plano mundial, a partir do
fortalecimento entre nós do que chamei de
"espírito de
empresa", que dispensaria o protecionismo, aceitaria regras de
concorrência e assimilaria a revolução tecnológi=
ca.
Via nisso o caminho para melhorar a
eficiência da burocracia
pública e ampliar a democracia social. Mais ainda, criticava a
indiferença criminosa das elites diante da miséria do po=
vo.
Segundo os jornais da época,&n=
bsp;
eu assumia uma posição equidistante entre o
"arcaísmo" do Centrão e o
"corporativismo" de setores que se diziam progressistas. O d=
iscurso
começava por reconhecer a
crucial importância política da volta das
eleições diretas: "No Império - e Joaquim Nabuco
imortalizou o tema - toda a discussão girava ao redor da
questão da
escravidão. Mesmo quando nela não se tocava, era =
ela
quem comandava. Pois bem, a grande questão política &eac=
ute;
uma só: a das eleições diretas." Além desse
ponto central à
redemocratização plena do
115
país, eu defendia uma revisão com=
pleta
de nossa agenda, incluindo temas como maior abertura da economia,
desenvolvimento tecnológico e menos corporativismo. Criticava os que confundiam progresso com
monopólio estatal e também os que viam a
indispensável ação do Estado como uma ameaç=
;a
à iniciativa privada, dizendo que a antinomia estatização versus&n=
bsp;privatização
constituía um falso problema, pois a aplicação de uma =
ou outra
medida depende de circunstâncias e de saber em quais setores.
Afirmava
que os "progressistas" defendiam o populismo e os con=
servadores,
o atraso. Seria um discurso antecipatório de muito do que reali=
zei
ou tentei realizar na Presidência.
A verdade é que, a despeito do ziguezague
mencionado anteriormente, um dos eixos ideológicos principais
durante os debates ocorridos na Constituinte foi o nacionalismo estatizante. Sua forma mais exalta=
da apareceu
nas propostas de estatização do sistema bancário, na
definição do conceito de empresas brasileiras e estrange=
iras
e na defesa dos monop&oa=
cute;lios
estatais, especialmente para a exploração das jazidas mi=
nerais.
E o principal problema trazido por essas posições era seu&nbs=
p;sabor
antiquado, que dificultava a
correta definição dos verdadeiros interesses nacionais e=
m um
mundo cuja economia se globalizava e cuja bipolaridade terminava.
Não foi muito diferente o
que ocorreu com as questões sociais, que tratarei em seguida,
começando por uma apreciação geral e depois me
detendo especificamente nas questões trabalhistas e no tema da reforma agr&aacu=
te;ria.
As questões sociais e o corporativismo
O debate ideológico não se esgota=
va na
questão do nacionalismo exaltado a que acabei de me referir. Nas
questões sociais, como a da reforma agrária, a
definição da
duração da jornada de trabalho e, principalmente, a prop=
osta
de estabilidade no emprego, as divisões eram profundas. Isso sem
mencionar polémicas de menor polarização, como a que separou os
favoráveis à unicidade sindical - ou seja, aqueles alinh=
ados
com a tese de que cada categoria de trabalhadores só deveria ser
representada por um ún=
ico
sindicato em cada base territorial - dos defensores da tese oposta, a
pluralidade, ou quanto ao papel das Forças Armadas, se limitado
à defesa diante de
ameaças externas ou abrangendo também, em
circunstâncias dadas, a defesa da lei e da ordem.
As principais clivagens durante a Constituinte
ocorreram em torno desses temas. Além, obviamente, das
questões políticas, relativas ao regime de governo e
à extensão do m=
andato
presidencial. Os debates sobre a duração da jornada de
trabalho e a estabilidade no emprego mobilizaram fortemente os
empresários e os sindicatos. A questão da reforma agrária igu=
almente
levou a uma disputa acirrada. Importava mais obter uma vitória
política do que inscrever na Constituição uma
posição racional.
Por
trás de tais embates havia o temor, em setores da sociedade, =
de
um estrangulamento da iniciativa privada e do fortalecimento das
tendências favoráveis ao intervencionismo estatal e ao aumento do poder das&=
nbsp;burocracias.
Não obstante, as lideranças da Constituinte acabaram sempre&n=
bsp;por
fazer uma espécie de mediação, tendo como resultado
A verdade é que as lideranças
empresariais se mantinham atentas e mobilizadas. Além das entid=
ades
da indústria, do comércio, da agricultura e do sistema
financeiro, novas
associações, como o Pensamento Nacional das Bases
Empresariais (PNBE), a União Brasileira de Empresários (=
UBE)
e a União Democrática Ruralista (UDR) atuaram fortemente.
Houve uma frente unida do empresariado para barrar o que eles consider=
avam
excessos, como a exagerada proteção ao trabalho - com o
conseqüente efeito sobre=
o
custo da produção e a competitividade internacional do
país -, as restrições nacionalistas à
ação das empresas e o sempre ameaçador estatismo.=
O empresariado se mobilizou intensamente, escol=
hendo
alguns pontos nevrálgicos para concentrar fogo. Em geral as
lideranças e os setores do PMDB que, em aliança com os partidos da esquerda, coman=
daram
o processo constituinte até o advento do Centrão
começavam o debate incentivando as propostas mais radicais. Por
exemplo: reduzir a jornada de
trabalho semanal de 48 horas para 40 horas. E terminavam, sob protesto=
da esquerda,
aceitando uma negociação com os setores empresariais e seus&n=
bsp;representantes
no Congresso, por exemplo, ao redor das 44 horas, como ocorreu nesse c=
aso,
aprovando proposta do deputado Gastone Righi (PTB-SP), Por
delegação do
líder em exercício do PMDB, deputado Euclides Sca=
lco
(PR), pois Covas estava enfermo, José Serra defendeu em plen&aa=
cute;rio
a proposição vitoriosa. Ato contínuo, também
representativos dos setores "duros"
protestavam. As batalhas se sucediam. Não bastou definir o
número de horas da jornada de trabalho, pois logo surgiu a
questão dos turnos
contínuos, que, segundo proposta majoritária, não
deveriam ultrapassar as seis horas. Novamente, o coro empresarial
proclamou que, sendo assim, haveria
que contratar mais mão-de-obra e, em
conseqüência, a produtividade cairia.
Nenhum tópico trabalhista mobilizou mais
energias do que o da estabilidade no emprego. Os líderes
peemedebistas usaram a mesma tática:
abriram a discussão com a reivindicação sindic=
al e
das esquerdas de colocar na Constituição o princí=
pio
da estabilidade no emprego. O projeto que sintetizou as
negociações teve como palco&=
nbsp;
a Comissão de Sistematização. No dia 8 de
outubro de 1987, aprovou-se a estabilidade.
Os empresários, nas vésperas,
procuraram o Presidente Sarney para mostrar seu alarme.10 Simultaneamente, mas sem=
que
houvesse plano preconcebido para levar adiante o que qualifiquei de
"mediação" exercida pelas lideranças
maiores, tanto o Sindicato dos
Metalúrgicos de São Paulo como o ministro do Trabalho, A=
lmir
Pazzianotto, começaram a falar de "garantia de emprego&quo=
t;,
implicando restrições e multas para as "demissões
imotivadas". Esta noção substituiria a desejada estabili=
dade no
emprego, princípio que feria a mobilidade dos fatores de
produção.11
10 O texto aprovado pela Comissão de Sistematização elencava no artigo 7°, entre os direi= tos dos trabalhadores: "I - garantia de emprego protegido contra despedida imotivada, assim entendida a que não se fundar em: a) contrato a termo nas condições e prazos da lei; b) falta grave, assim conceit= uada em lei; c) justa causa, baseada em fato económico intransponível, fato tecnológico ou infortúnio da empresa, de acordo com critérios estabelec= idos na legislação do trabalho." Ou seja, mesmo que lei posterior regulamentasse o dispositivo, ele estreitava consideravelmente a faixa de possibilidades para empregadores demitirem funcionários. Vale notar que o texto não exigia "n&qu= ot; anos de trabalho ou outra condição para a estabilidade.<= o:p>
11 O texto negociado com os empresários =
e o
Centrão, que passou a figurar na Constituição,
previu, para o mesmo inciso I do artigo 7°, "relaç&ati=
lde;o
de emprego protegida contra
despedida arbitrária ou sem justa causa, nos termos de lei
complementar, que preverá indenização compensat&o=
acute;ria,
dentre outros direitos". Até a publicação deste livro não se tin=
ha
aprovado essa lei complementar, A situação passou a ser =
regulada
"provisoriamente" pelo art. 10°, I, das Disposiç&otild=
e;es Transitórias
da Carta: a demissão
imotivada implica, além dos direitos previstos na
legislação trabalhista, multa de 40% sobre o saldo do tr=
abalhador
no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).
Após a aprovação da estabi=
lidade
no emprego pela Comissão de Sistematização, sem
confiar muito nas mediações das lideranças do PMDB,&nb=
sp;um
grupo de parlamentares de
diferentes partidos formou um "Centro Democrático&q=
uot;
logo alcunhado Centrão, que apoiou um documento inspirado pelo
Palácio do Planalto chamado "Democracia e
Desenvolvimento". Com&nb=
sp;essa
manobra iniciava-se a fragmentação do PMDB. O novo agrupament=
o,
com teses mais liberais nas questões económicas, daria
suporte ao sistema presidencialista&n=
bsp;
de governo e à duração de cinco anos para o man=
dato
do Presidente Sarney - questão esta que tomou conta da Constitu=
inte
e mobilizou a opinião pública por bom tempo. Pelas regras da
Constituição herdada do regime autoritário, que
prevaleciam no momento da eleição de Tancredo, o Preside=
nte
teria direito a cumprir seis anos de
mandato.
Tancredo, porém, se comprometera formalm=
ente,
inclusive no documento de constituição da Aliança
Democrática que o levara à Presidência, a promover=
a
redução para qu=
atro
anos. No final, a Constituinte, sob intensa pressão do Planalto,
fixou o mandato em cinco anos.
Com a entrada em cena do Centrão, criou-=
se um
núcleo de pensamento econômico a buscar
sustentação política no governo Sarney, o que levou&nb=
sp;Ulysses
a dizer-se preocupado com a
"direita" no país. A adesão do PFL a esse tipo=
de
ação levou o PMDB a denunciar a ruptura da Aliança&nbs=
p;Democrática
e a lançar nas costas do PFL a responsabilidade por tal ato (esquecendo-se,
naturalmente, das dezenas de peemedebistas que engrossavam o coro do
Centrão).
A Comissão de Sistematizaçã=
;o
aprovou uma série de vantagens para os assalariados, como, por
exemplo, a ampliação da licença às trabalhadora=
s gestantes,
o aviso prévio proporc=
ional
ao tempo de serviço para a dispensa de empregados, o pagamento
integral do 13° salário aos aposentados e de um adicional p=
ara
os trabalhadores em férias,
o financiamento do seguro-desemprego, o salário
mínimo nacional unificado, a participação dos
trabalhadores nos lucros das empresas. Muitas dessas vantagens, mesmo<=
span
style=3D'mso-spacerun:yes'> depois das modificaçõ=
;es no
Regimento Interno patrocinadas pelo Centrão para dificultar a
aprovação de propostas controvertidas, terminaram inscri=
tas
na Constituição e
absorvidas pela sociedade. Outras vantagens, na verdade benesses
clientelistas, acabaram também apoiadas pelos partidos
tradicionalmente conservadores, como a estabilidade para quem estivess=
e no
serviço público há cinco anos, algo extremamente
oneroso
119
para o país. Esses empregados púb=
licos
deixaram de ser regidos pela Consolidação das Leis do Tr=
abalho
(CLT) e se transformaram em funcionários
"estatutários", ou
seja, servidores sob as regras do Estatuto dos Funcionár=
ios
Civis da União - passando, portanto, a ter benefícios co=
mo
estabilidade no emprego e aposentadoria integral - sem serem concursados. Tudo=
isso
serviu de combustível para movimentos de fragmentaç&atil=
de;o
no PMDB e a formação de novas agremiações
partidárias. Os setores "à esquerda" concentraram preocupaç&atil=
de;o e
votos na defesa de interesses corporativos, esmiuçando-os no te=
xto
da Carta.
O número de artigos da
Constituição que definem regras de acesso e promoç=
;ão
no Judiciário, por exemplo, não deve ter paralelo em outras&n=
bsp;Constituições
democráticas no planet=
a. De
igual modo, houve a "constitucionalização" de
numerosas profissões e uma blindagem na estrutura das
organizações sindicais, tanto patronais quanto de trabalhadores. Os grupos de
pressão compostos por funcionários, especialmente os do
Judiciário, por representantes das polícias, civil e mil=
itar,
e das empresas estatais se
movimentaram com muita liberdade e perseverança para inscrever =
na
Constituição o que consideravam seus direitos, beirando
às vezes a privilégios. Os&n=
bsp;
representantes do empresariado, do mesmo modo, defenderam com u=
nhas
e dentes seus interesses, tal como ocorreu com os do setor rural quand=
o se
discutiu o tema que vou =
expor
agora.
As paixões despertadas pela reforma
agrária
O tema que mais despertou paixões foi o =
da
reforma agrária, tendo como cavalo de batalha a
desapropriação de terras produtivas. Houve um semn&uacut=
e;mero
de outras questões ao =
redor
da reforma agrária, mas a briga ideológica se travou, no
fundo, em torno do direito de propriedade:
seria ele sacrossanto ou estaria submetido a um
valor maior, o da fun&cc=
edil;ão
social da propriedade? Neste caso, defendia-se, uma área, mesmo =
;sendo
produtiva, poderia ser desapropriada para fins de reforma agrária&nb=
sp;se
não cumprisse a
"função social".
As escaramuças entre progressistas e
conservadores começaram cedo na Comissão de
Sistematização, depois de os blocos haverem duelado na c=
omissão
especial que cuidava do tema.
Já em junho de
contra os partidários dessa
organização de fazendeiros. Em agosto, o Centrão,
ainda embrionário, contando com o apoio do líder do governo n=
a Câmara,
somado aos combatentes da UDR=
, com
o futuro candidato à Presidência e depois deputado federal
Ronaldo Caiado como seu presidente, rebelaram-se contra o texto aprova=
do
pela comissão que tratava do tema agrário. Este autoriza=
ra a
"imissão de posse imediata”
pelo governo nas terras desapropriadas. Os
conservadores alegavam que o dispositivo dês* truía o direito de propriedade do setor =
rural.
O relatório do deputado Bernardo Cabral,=
que
seria votado no fim de agosto de 1987 na Comissão de
Sistematização, era uma síntese de várias =
propostas
e incluiu a vistoria pr&eacut=
e;via
da terra como requisito para as desapropriações. Com esse
procedimento, haveria a avaliação do cumprimento da
função social da propriedade antes de qualquer ato de desapropri=
ação.
Além de tudo, o relatório abria recurso à Justiç=
;a,
caso o proprietário não concordasse com a decisão
administrativa, e estabelecia
que a eventual indenização pelas benfeitorias existent=
es deveria
ser paga
Os líderes de todos os lados foram liman=
do
diferenças, mas o braço de ferro continuou no ponto central j&aacut=
e;
abordado: a função social como pré-requisito para
validar o direito de propriedade. A 4 de maio de 1988, no auge do impa=
sse,
a proposta do Centrão
proibindo a desapropriação de terras produtivas foi a vo=
to e
se viu derrotada por 248 votos a favor, 242 contra e 37
abstenções. Não alcançou os 280 votos nece=
ssários
para a aprovação. O Centrão, no entanto, mostrou
força.
Daí por diante, recomeçou o traba=
lho de
costura do "nem tanto ao mar, nem tanto à terra". As
lideranças do PMDB, do PT e do PDT procuravam novo acordo, a
partir de uma posiç&at=
ilde;o
que garantisse alguns avanços, segundo sua ótica. Na
barricada, o presidente do PDS, senador Jarbas Passarinho, em geral ma=
is
conciliador, reagiu: "At=
acar a
propriedade produtiva é arrasar a feição produtiv=
a do
país." Os dois lados terçaram armas e ambos perdera=
m: a
emenda do Centrão proibindo a desapropriação de
terras produtivas (neste caso, cumprissem ou não a funç&atild=
e;o
social)
caiu por 237 votos contra 225; em seguida, colo=
cou-se
em votação a emenda da Comissão de
Sistematização, que
dava ensejo à desapropriação das
terras que não cumprissem a
função social, fossem ou não produtivas. A emenda
também sucumbiu com apenas 129 votos a favor e 365 contra (nas =
duas
votações houve
três abstenções). Resultado: configurou-se o que=
se chamava
na época de "buraco negro", ou seja, a
Constituição acabaria ficando sem o capítulo sobre
Reforma Agrária, posto=
que
nenhum dos dois lados obtinha maioria suficiente para aprovar suas tes=
es.
Ulysses encerrou a sessão marcando o prazo de 48 horas para o
relator apresentar um texto de conciliação, que poderia
receber emendas de qualquer agrupamento, como rezava o Regimento.
O resultado da obstinação de cert=
os
líderes progressistas em não abrir negociaç&otild=
e;es
com o Centrão no tocante à reforma agrária fez com que=
tivéssemos
que nos consolar com uma mano=
bra
para evitar o pior. Depois de infindáveis idas e vindas com aco=
rdos
de curta duração e recusas estrepitosas da UDR, a
Constituinte aprovou a proposta
conciliadora que tornou insuscetíveis de
desapropriação as terras produtivas e as pequenas e
médias propriedades e fixou normas para definir o cumprimento da
função social da
propriedade. Para obter o acordo, o líder Mário Covas,
já refeito do problema de saúde que o acometera, aceitou que =
se votasse
a proposta dos partidos
progressistas que voltava ao tema da possibilidade de
desapropriação de terras produtivas, mas sob uma forma q=
ue,
pelas regras da Constituinte e do atual Congresso, se denomina "destaque pa=
ra
votação em separado", que tem exigências especiais
para ser aprovada.12 No caso concreto, a emenda dos progressistas
precisaria de inalcançáveis 280 votos. Não passou. Assi=
m,
fixou-se o princípio, que pareceria óbvio, de que terras
produtivas (em um país cheio de terras não utilizadas!)
não poderiam ser desapropriadas&nbs=
p;
para fins de reforma agrária. Ou seja, a
desapropriação teria de ser feita no quadro legal do reg=
ime
capitalista, que tem
12 Esse mecanismo até hoje dificulta a
aprovação de reformas no Congresso. Os "destaques p=
ara
votação em separado" (DVSs) invertem a mão n=
atural
das votações. Quando
determinado projeto é aprovado em bloco por uma maioria
parlamentar, os destaques solicitados pela minoria para votar em separ=
ado
artigos ou parágrafos desse projeto=
conferem a ela o poder de derrubá-los caso a maioria
não consiga, na nova votação, reunir outra vez
número suficiente de votos para reassegurá-los um a um. O&nbs=
p;natural seria que os interessados nos dest=
aques
é que tivessem de obter maioria de votos para derrubar esses
dispositivos previamente aprovados.
como pressuposto a garantia da propriedade priv=
ada.
Daí a regra, fixada na Carta, de que a
desapropriação, quando ocorre, se dá mediante
prévia indenização em dinheiro.
No segundo turno das votações hou=
ve
tentativa de novamente tornar ao tema para excluir qualquer
limitação às desapropriações para fins d=
e reforma
agrária. A proposta,
contudo, sofreu outra derrota, o que levou um jornal a dizer que
"o resultado da votação sobre o tema foi a única&=
nbsp;vitória
significativa dos 'conservadores' no segundo turno".13
O mandato de Sarney: uma disputa pelo poder
Vista com a perspectiva do tempo, parece claro = que a questão "doutrinária", a de saber se o melhor sistema de governo para o país seria o parlamentarismo